Foi assim mesmo que Bento XVI se dirigiu a todos quantos quiseram ouvir, durante a celebração Angelus. O Papa aludia principalmente à eutanásia, visto estar a decorrer o primeiro aniversário sobre a morte medicamente assistida de Eluana Englaro. A notícia está aqui, e a história de Eluana pode ser consultada aqui. Mas referiu-se também ao aborto.
A questão eutanásia não é fácil, sendo uma daquelas questões fracturantes que dividem os povos. O direito a uma morte digna e ao termo do sofrimento colidem com as reservas morais daqueles que estão mais próximos da religião. Admito que a minha opinião nesta questão é clara e vai de encontro ao que penso ser o espírito humanista. Enquanto muitos desejam que os cuidados paliativos sejam cada vez mais eficientes, e embora seja evidente que eu próprio penso que tal é fundamental, tal melhoria não devia, na minha opinião, colidir com o direito ao suicídio.
Não entendo o suicídio como uma forma razoável de se terminar uma vida. Nesse aspecto, estou inteiramente de acordo com os cânones religiosos. Penso que a vida é demasiado valiosa para que se possa pensar em terminá-la. No entanto, entendo que há muitas pessoas que não pensam isso, e que encaram o suicídio como sinal de demência ou sofrimento, o que não deixa de ser verdade. Mas o caso da eutanásia é diferente. Há efectivamente pessoas a desejarem terminar com anos, por vezes, décadas, de sofrimento indescritível. E esse direito, por ser apenas seu, deve ser-lhe proporcionado. E acreditem-me, ninguém recorrerá à eutanásia de ânimo leve.
Quanto às palavras do Papa, reflectem tão somente a política oficial do Vaticano em relação a esta questão, e em nada me chocam. É apenas a outra face da moeda. No entanto, o modo como as coisas são ditas conta muito. Para mim, contam mesmo muito. E, mais uma vez, Bento XVI foi infeliz. Raramente este Papa é feliz quando abre a boca, diga-se de passagem. A maior parte das vezes diz alarvidades do tamanho deste mundo. Mas como já é de provecta idade, temos de lhe dar um desconto. Este "ninguém é dono da sua própria vida" é arrepiante. Não porque não tenha razão quando se dirige aos crentes, pois os crentes católicos (alguns deles, evidentemente) entregam todas as desgraças que lhes acontecem nas mãos de Deus e do Diabo, por forma a serem desculpados de todas as atrocidades que presenciam e pelas quais muitos são responsáveis. É uma forma interessante de encarar a vida, pois torna-os quase completamente irresponsáveis perante a sua própria existência, já que foram criados por Deus, viveram segundo as cruzes que Deus lhes deu e morrem por vontade de Deus. Logo, a sua responsabilidade nesta coisa toda que é a vida é muito limitada.
Mas Bento XVI diz "Ninguém". É evidente que tem razão, se olharmos para tudo o que nos pode fazer o simples azar, as coincidências, a sorte ou a própria natureza, coisas contra as quais podemos fazer pouco. Mas, em última instância, em última perspectiva e sendo dono das minhas faculdades mentais, queira desculpar-me, sr.Papa, mas a minha vida pertence-me e dela farei, sempre que as circunstâncias o permitirem, o que muito bem entender. A minha vida não é de Deus, ou do Diabo, nem mesmo da sorte ou do azar. Isto porque as primeiras são desculpas de mau pagador e as segundas fazem-se, trabalha-se de forma a evitar o azar e a conquistar a sorte.
Penso que estas palavras são de cariz medieval. Nessa altura, as vidas dos servos eram dos senhores, as dos senhores eram dos Reis e as dos Reis eram da Igreja e do Papa. Acordem Bento XVI, penso que ele está a sonhar com os gloriosos dias negros da Inquisição. Desde que entrou para Juventude Hitleriana, pelo menos e senão ainda mais cedo...



