segunda-feira, 30 de novembro de 2009

HÁ 74 ANOS

Morreu a 30 de Novembro de 1935

THE WALL - 30 ANOS



.The Wall Concert, Earl's Court, 1980.

Passam hoje 30 anos sobre a edição do álbum The Wall. É o último álbum de Pink Floyd com a sua formação habitual. Acima de tudo, é um álbum de Roger Waters. Ironicamente, a única faixa da autoria de outro músico da banda é esta. Chama-se Comfortably Numb e foi recentemente eleita como a melhor faixa rock de todos os tempos.

The Wall é o álbum temático por excelência. Mas, ao contrário do Dark Side of the Moon ou do Animals, é um álbum que não elege um tema por si próprio, é antes uma colecção de temas sob o rótulo Waters. No fundo, é uma biografia de Roger Waters, dividida em quatro partes completamente diferentes. A primeira versa a infância, o trauma da perda do pai na II Guerra Mundial e o controlo exacerbado da mãe:



.The Wall Concert, Earl's Court, 1980.

A segunda parte conta como era a vida de um adolescente na Inglaterra, e junta a primeira e a terceira partes na trilogia Another Brick in the Wall. Trata-se do primeiro afloramento político do álbum, tão forte que a faixa mais poderosa ficou para sempre associada à rebeldia estudantil:



.The Wall Concert, Earl's Court, 1980.

Entretanto, a parede em que se enclausurava Roger Waters começava a fechar-se à sua volta. O casamento falhado e o refúgio na música tornavam-se novos motivos de autocensura e trauma. Tudo servia, nessa altura, para atenuar o fardo. É a terceira parte de The Wall, quando a parede já está fechada, depois da sua despedida do mundo. Waters não se suicida, mas deixa de viver em sociedade. Torna-se um recluso da sua própria loucura, já bem patente nos álbuns Dark Side e Animals. O trauma com o casamento serve de desculpa para as mais desregradas iniciativas:



.The Wall Concert, Earl's Court, 1980.

Finalmente, a última parte. A parte em que Roger se compara ao genocida que tirou a vida ao seu pai. Mas também onde chama a atenção do mundo dos novos movimentos absolutistas que estavam a erguer-se, talvez uma referência velada à então chamada Comunidade Económica Europeia e aos poderes ocidentais. É também agora que Waters é julgado e condenado. Não à morte, mas a sair da parede, a mostrar-se a todos como é. O seu grande medo, revelado dois anos antes em Toronto, torna-se realidade e a parede é arrasada. Dez anos antes do Muro, Waters derruba um outro muro, o seu próprio muro, e assina a sentença de morte dos Pink Floyd. Para sempre.



.The Wall Concert, Earl's Court, 1980.

The Wall aproxima-se dos 40 milhões de cópias vendidas, sem contar com as reedições ao vivo e em vídeo, e não dá sinais de parar de vender. A tournée foi memorável, mas pequena, resumindo-se a cinco localizações, quatro na Europa e uma nos EUA. Isto ficou a dever-se a diversos factores. Primeiro, porque a logística envolvida era tão massiva que se tornou incomportável transportar o palco e o muro. Por outro lado, as relações entre Gilmour e Waters estavam finalmente a ponto de romper definitivamente.

A digressão acabou por ser quase estática, não sendo por isso menos concorrida. O facto de ter de ser levada a cabo em espaços fechados levou a que o espectáculo se repetisse ao longo de vários meses nas mesmas instalações. O espectáculo foi imaginado por Storm Thorgesson e animado com os famosos cartoons e insufláveis de Gerald Scarfe, incluindo, além da mãe, do professor, da mulher e do juiz, o célebre porco voador, desta vez com os martelos cruzados no dorso. Passaram a ser, além do muro construído em palco à medida que o show se desenrolava, o ícone identificativo de The Wall.

Depois, veio o filme. Mas isso... é outra história!

domingo, 29 de novembro de 2009

ANTECIPANDO

Foto Rolling Stone Magazine

Em 1977, os Pink Floyd estavam no auge da sua criatividade. Depois do poderoso Dark Side of the Moon de 73, passaram a ser a banda mais reconhecida do Mundo. Em 75, o álbum Wish You Were Here consolidou essa fama, misturando regressos intensos às origens, registados com Welcome to the Machine e Shine on You Crazy Diamond 6-9, com sons mais melodiosos em Wish You Were Here ou em Shine On 1-5, faixas que rapidamente se tornaram ícones da música contemporânea. Depois disto, o que havia para fazer? Bom, havia o Animals.

Animals é o mais brutal álbum de Pink Floyd, e ainda hoje um dos mais duros álbuns de sempre do rock. Não pelo seu som, mas também, mas mais, muito mais, pelas suas letras. Waters passou ao papel a sua ideia de sociedade de então, distinguindo os seres humanos em três raças distintas: as ovelhas, os cães e os porcos. Não cabe aqui uma análise mais profunda do tema, até porque já antes havia alguns modelos bem conhecidos deste tipo de associação. Mas os porcos passaram a ser mais um ícone da já vasta iconografia floydiana. Se em 73, foram as pirâmides de Gizeh, em 75 o Mar Morto, em 77 foram definitivamente os Porcos Voadores.

A Animals Tour foi pensada por Storm Thorgesson, o homem dos cartoons floydianos, e incluía dezenas de porcos voadores, como aquele que se vê na foto. Waters levou mesmo a moda ao extremo ao voar num dirigível com a forma de porco cor de rosa por cima de Londres. Num dos concertos londrinos, um dos animais soltou-se e causou sérios problemas de navegação aérea em Heathrow. Mas o facto que mudou definitivamente a vida artística de Roger Waters estava ainda por vir. No concerto Animals em Toronto, Canadá, um fã entusiasmado aproxima-se demasiado do palco, até um escasso metro de Roger. A reacção não foi nada simpática, e Waters cuspiu no fã. Já fora do palco, Waters ficou tão abalado pela sua reacção que desejou que essa tournée terminasse imediatamente, ou então teria de tocar atrás de uma parede que o não deixasse encarar a multidão. Além de tudo, achava que tinha chegado onde jurara nunca chegar, ao ponto em que uma estrela rock pudesse ter um poder quase ilimitado sobre uma multidão que se encontrava totalmente submissa à sua frente. Fazia-lhe lembrar outros estádios e outros protagonistas e isso angustiava-o profundamente.

A tour continuou e com enorme sucesso. A notícia do arrependimento e recolhimento de Waters trazia ainda mais gente aos concertos, mas Waters cada vez se sentia com mais medo de encarar a multidão e do poder que cada vez mais sentia nas suas mãos. Desejou muitas vezes tocar atrás da parede. Mas nesta tournée nunca chegou a acontecer. Depois de terminada a digressão Animals, os problemas na relação entre os diversos elementos da banda, nomeadamente entre Waters e Gilmour, que nunca foram famosas, agudizam-se. A banda parte para um novo álbum conceptual, mas desta vez totalmente (ou quase) da autoria de Waters. E conseguiu aquilo que queria... tocar atrás da parede.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

TUDO BONS CRISTÃOS

Imagem Wikipédia

A investigação que decorre na Irlanda acerca de abusos sexuais, físicos e psicológicos a menores , conhecida por Ryan Report, aproxima-se do seu final. Amanhã, em princípio, sairão as conclusões da investigação deste caso. Ou seja, ainda não se sabe se a ordem católica Irmãos Cristãos, ou Christian Brothers, será ou não condenada por estes crimes. A acusação envolve abusos sexuais, tortura física e psicológica e trabalho clandestino de menores à guarda desta organização, desde 1940 até aos dias de hoje. Pelo menos 450 menores foram abusados, e estes são apenas aqueles que deram a cara, pois como sabemos, não é fácil sair cá para fora para falar destas experiências.

Apesar de ainda não ser conhecido o veredicto, a Christian Brothers fez um comunicado hoje, dia 25 de Novembro de 2009, a anunciar que indemnizará os visados dos abusos perpetrados pelos religiosos ao seu serviço num montante de 161 000 000 de euros. Sim, são mesmo cento e sessenta e um milhões de euros! Naquilo que pode ser legitimamente considerado como uma operação de lavagem de imagem, a organização católica dispõe-se, desde já, a indemnizar, e ouvir o veredicto depois. É necessário relembrar que esta organização tem ramos e filiais nos cinco continentes.

Apesar de tudo, a Christian Brothers sublinha que “Este conjunto de medidas expressa o nosso reconhecimento, vergonha e dor causados pelas revelações do ‘Relatório Ryan’. Sabemos e lamentamos que nada do que possamos dizer ou fazer fará com que as vítimas dos abusos sexuais se esqueçam do que viveram passado”. E, de facto, isto é verdade. E sabemos que organizações destas, espalhadas por todo o mundo, sob a capa do humanismo e caridade, perpetraram crimes hediondos contra a dignidade e integridade física de milhares, se não milhões de menores. Nada do que poderão fazer poderá devolver essa dignidade aos envolvidos, nada do que possam agora anunciar poderá alguma vez lavar as memórias de milhares de crianças violentadas e para sempre marcadas no seu íntimo. Tudo feito em nome da Fé, tudo feito sob o protectorado da Igreja Católica e de outras Igrejas e outras religiões.

Pergunto até quando as pessoas deixarão estas situações repetir-se, quanto faltará para se darem conta dos crimes imensos, contra toda a Humanidade, que a religião perpetrou e ainda perpetra? Quando se ouvirá um NÃO a este estado de coisas? Mais, pergunto como pode uma organização religiosa, supostamente destinada à caridade e à misericórdia, além dos crimes que cometeu, dispor de 161 milhões de euros para pagar indemnizações? Em que mundo vivemos? Será que não será legítimo perguntarmo-nos para onde vai o nosso dinheiro dado a estas instituições?

A suprema ironia está em que a Christian Brothers pertence à Igreja Católica. A mesma Igreja que deseja impedir uma lei que permita o casamento homossexual em Portugal tem no seu seio uma organização que gere orfanatos para rapazes, que tem 161 milhões de euros para pagar em indemnizações referentes a actos que, além de pedófilos, preconizam a homossexualidade dos seus perpetradores. Pelo menos os homossexuais que se casarão poderão ter relações deste género de forma consensual e mutuamente consentida e desejada, coisa que nem perguntaram às centenas (?) de rapazes abusados na Christian Brothers. Como pode a hipocrisia falar tão alto?

Fica o link para a notícia.

São tudo bons rapazes, são tudo bons cristãos. 161 milhões deles...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DORMIA TÃO SOSSEGADO...

Imagem RTP

Dormia tão sossegado. Eram por aí umas sete e meia da manhã, dei um descanso ao despertador e virei-me. Mais meia hora. Oito e é hora de levantar. Um duche quente, e estou na cozinha a tomar o pequeno almoço. Nestum? Nestum. Com mel. Ligo a TV da cozinha, pois não há TV a não ser na sala e na cozinha. RTP. Notícias. Forum não sei de quê não sei das quantas, tinha a ver com economia e eu, agora desperto pelo duche, mas ainda em câmara lenta, tentava acertar na boca com uma colher. Raio de colheres com pegas de plástico! Parecem legos! Enquanto procurava uma colher como deve ser, aparece esta carinha laroca a ocupar boa parte do visor. Sorri, uma vez que é sempre bom começar o dia com stand up comedy.

Dizia o homem que lhe parecia ser necessário, de modo a controlar o défice orçamental, “um aumento de impostos, não em 2010, mas até 2013”. O Nestum soube-me bem e já estava naquela fase em que comemos a parte mais grossa e fica uma espécie de pó mais fino a flutuar no leite. Enquanto rapava a tigela, ia reflectindo naquilo que ouvia. Bem, o entendido é ele, que hei-de eu dizer? Ele é que nos avisou que o sector imobiliário estava sobrevalorizado, ele é que nos avisou sobre as fraudes bancárias, ele é que previu a crise... Comecei a ficar preocupado, enquanto esfregava um olho ao mesmo tempo que fazia festas na gata. E eu que dormia tão sossegado...

De repente, fiquei mais animado, uma vez que este senhor não nos avisou da sobrevalorização do imobiliário, não nos avisou sobre as fraudes bancárias, e não tinha sequer noção que havia uma crise, mesmo depois dela estalar com força. Portanto, se o homem dizia que ia haver uma subida de impostos, é porque não ia haver subida nenhuma. Desliguei o aparelho e decidi-me a enfrentar o dia de trabalho com força e boa disposição, coisa que é perfeitamente normal.

Jantar. Fui o último a chegar a casa, caso raro. Normalmente sou o primeiro. Comecei o jantar, que se fez com entreajuda e alegria. Notícias. RTP. Reacções às baboseiras de Constâncio. Uns dizem que não, os outros dizem que não também. Empresários dizem que sairão do país se houver aumento de impostos, economistas dizem que Constâncio deve estar louco, pois a economia não comporta um aumento de impostos, o cidadão comum é comum e não apareceu às entrevistas, mas ficou no ar um leve ar de preocupação. De novo Constâncio. Afinal, veio dizer que não disse nada, que não disse que os impostos iam aumentar e que as suas palavras foram mal interpretadas. Aquelas lá de cima, as tais “um aumento de impostos, não em 2010, mas até 2013” . Afinal, ele não disse estas palavras. Ele não disse estas palavras de manhã, embora à tarde confirmasse que disse as palavras de manhã, mas à noite desmentiu que à tarde tivesse dito que tinha dito aquelas palavras de manhã. Pensei logo que há economistas que de manhã deviam estar calados à tarde e silenciosos à noite para não sair asneira de madrugada.

Comecei novamente a ficar preocupado, pois se ele disse que não disse o que disse, equivale a dizer que não disse nada. Ou equivale a dizer que disse o contrário do que disse quando disse que disse à tarde e não disse à noite? Porque se ele de manhã disse que ia haver aumento de impostos e confirmou à tarde que disse de manhã, mas desmentiu à noite o que disse à tarde a confirmar que disse de manhã, no fundo o que disse ele? Que interessa? Alguém lhe liga ainda? Por muito que ele disse, nós mais dizemos dasse.

Preocupado fiquei mesmo foi quando ouvi as reacções do Primeiro quando soube que o Constâncio disse que ia haver aumento de impostos, embora depois ele tenha dito que não disse o que disse. Disse o Sócrates que não haverá aumento de impostos. Fiquei para morrer. É que se o Sócrates disse que não vai haver aumento de impostos, tendo em conta que ele disse que não foi engenheiro ao domingo, disse que não assinou projectos na Cova da Beira, disse que não está envolvido no Freeport, disse que não despediu a Manela Moura Guedes e o marido, disse que não governava em minoria, disse que não gerava menos de 300 000 empregos (ser sócio do Benfica ainda não é emprego, pá!), disse que não deixaria de telefonar aos amigos e até disse que não percebeu se é legal ser escutado ou não, tudo na negativa, não será de desconfiar que vem por aí mais imposto?

E eu que dormia tão sossegado...