segunda-feira, 8 de março de 2010

SOL NA EIRA, CHUVA NO NABAL

Imagem Google

Não sou de extremos, embora por vezes pareça. Só não gosto de incongruências. E quando elas acontecem comigo, porque também as tenho, fico irritado. É que não pretendo ser portador de nenhuma verdade universal, nem tenho pretensões de ser citado seja por quem for, tipo filósofo moderno, que diz as mais completas barbaridades sob laivos de culta e insofismável verdade absoluta. Nesse aspecto, estamos a aproximar-nos, pelo lado contrário, dos dogmas da Igreja, quando não nos apercebemos que aquilo que afirmamos como verdade é apenas uma conjectura ou opinião. É puramente nesse sentido que este blogue existe. Não para dizer verdades, porque não as conheço, embora deseje.

Ah! Sim, perdi-me completamente com esta distinção entre opinião e verdade. Pois isto a propósito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego e seguidas, em menor escala, pelo governo português, agora que foi anunciado o PEC. Já aqui tinha escrito, por várias vezes, que as pessoas deste e de outros países não se aperceberam ainda da situação para a qual nos dirigimos a passos largos.

Quer-me parecer que ninguém ainda se terá apercebido que nada poderá ser igual ao que antes existia. O clima de consumismo, de crédito fácil, de dinheiro para tudo e para todos, tem os dias contados. Nem poderia ser de outra maneira, num planeta com 7 biliões de seres humanos, com condições para albergar, quando muito, metade disso. Se nunca chegou para todos, agora tudo se torna escasso. A crise internacional não é uma causa em si mesma, é apenas o reflexo dos desequilíbrios de recursos a nível mundial e da própria demografia.

Estamos a pagar pelas políticas expansionistas, quando o que nos espera não é a economia do crescimento, mas sim a economia do salve-se o que se puder e sobreviva quem possa. No meio disto tudo, está o povo. Português e outros. Vamos pagar? Certamente vamos pagar. Temos culpa?? De tudo não temos com certeza, mas de algumas coisas, também. A velha máxima de assegurar a próxima geração é uma das abolições que teremos de praticar. Diminuir a população a nível mundial é mandatório. E não porque não tenhamos todos o direito a ser felizes e de ter os rebentos que entendermos. É que as próximas gerações também têm o direito de ser felizes e não morrerem à fome e sujeitarem-se à mais vil forma de indignidade: a pobreza extrema.

Quanto às medidas para corrigir os défices da Grécia, é evidente que algo tem de ser feito e compreende-se o desespero de um governo que vê cair por terra todas as suas contas. Não interessa de quem é a culpa, agora há que fazer-se algo. Mas vejamos: cortes de 30% nos salários da função pública? Não será, pergunto eu, uma medida contraproducente? Claro que reduz substancialmente a despesa pública, evidentemente parece ser uma medida desesperada, dura, mas necessária. Mas… o privado não vai seguir essa norma, não terá essa liberdade? Se a seguir, não será verdade que tanto a poupança como o consumo descerão a níveis catastróficos? Se tal suceder, qual a receita de impostos directos e indirectos esperada a seguir a uma hecatombe do mercado? E este mercado não é o virtual, o da Bolsa. Falo na vida quotidiana. Então pode presumir-se que se corta na despesa uns 15% para se deixar de receber menos uns 50% da receita em impostos? Sei lá, são números atirados para o ar. Cada um apanhe aquele que quiser.

quinta-feira, 4 de março de 2010

OS DEUSES DESCEM À TERRA


--> -->
Ilustração Marco Joel Santos
Uma noite, como qualquer outra. Fria, longa, aclarada pela refulgente lua de Fevereiro, lá em cima, qual moeda de prata aos pés de Judas, que brilha, que resplandece para a todos lembrar a derradeira traição. A noite, fria e clara, longa de Inverno, com uma luz macabra, mortiça, vinda das veredas que circundam a aldeia, cobertas de alva neve.
As árvores sem folhas ganham novas protuberâncias, pingentes de cristal, que mais ainda reflectem e fazem sentir a presença da lua, prenhe de vinte e oito dias. Esta não é terra cristã. As velhas vão à missa, bem cedo amanhã, proclamar uma Fé em que não acreditam. Porque esta terra não é cristã. Esta terra é da noite, desta e das imemoriais noites da história remota, que esquecida seria se a terra fosse cristã. Mas esta terra não é cristã.
Esta lua pressagia a desgraça, enquanto se vai pondo, quase tocando os cumes dos montes. E vai-se tornando vermelha, cada vez mais vermelha, até nos parecer esvair-se em sangue vivo e borbulhante, que cai sobre a terra e a contamina. É nestas noites, dizem as velhas que vão à missa amanhã bem cedinho, que os demónios descem à terra para a assolar, é nestas noites que o gáudio dos deuses substitui a quietude da montanha. É nestas noites, em que as deusas se ocupam dos vinte e oito dias de gestação de sua mãe, que os deuses descem à terra enquanto o seu pai não acorda e não desponta o seu esplendor pelos céus.
Sós, os deuses estão livres para demonstrar o seu poder. Numa noite como aquela, fria, longa de Inverno. Os seus passos ecoam pela neve, ao redor da aldeia. As janelas estão fechadas, as trancas estão postas a todas as portas, o povo jaz nos seus catres, incapaz de dormir, adivinhando a presença dos devastadores filhos do sol. Os lobos aproveitam a quietude geral para assaltar as ruas, espalhando a matilha pelas ruelas estreitas. Os deuses revolteiam agora em redor da igreja, símbolo da Fé que pretendeu substituí-los na memória dos homens. Mas os homens não esquecem. Não podem esquecer. Bastar olhar para cima para ver a mãe prenhe. Os seus filhos andam à solta na noite de fim de ciclo.
O lobo parou. Perscrutou o limite da rua. Elevou o focinho negro e farejou. E farejou. E viu. A figura subia a rua ao seu encontro, com passos lentos e seguros, pesados de confiança. O lobo estava quieto. O lobo não desviou os olhos daquela figura, ainda encoberta pelas sombras do casario alto. Pelas frestas de luar entre telhados, o lobo vislumbrou a figura, e apercebeu-se da sua hedionda compleição. Viu o vulto agigantar-se na rua, ao seu encontro, cada vez mais perto. O lobo sabia que era tarde demais para fugir. O fascínio dominava o medo. O vulto ia recolhendo, nesta e naquela porta, as ofertas que os aldeãos semeavam pelas ruas, tentando aplacar a sua ira. Era pelas ofertas que o lobo ali estava. Tinha-as farejado. Mas agora não, não tinha tempo para desviar o olhar do deus que subia a rua, recolhendo o sacrifício humano.
O deus vestia vermelho vivo, os seus gestos eram elegantes e lentos, majestosos como quem sabe ser aquela a sua noite, como quem sabe que o seu poder até pelos lobos é conhecido. E o lobo, parado, observava os movimentos, tentava estabelecer contacto com os olhos do deus. Quando lhe viu a face, deitou-se em sinal de medo e de respeito. Pois que a face do deus era de vermelho vivo, e seus olhos tão vivos que o lobo temeu o seu olhar. E o sangue que lhe escorria lânguido pela cara.
O deus parou em frente ao lobo. Olhou-o demoradamente. Observou aquela criatura, das mais temidas da terra, a prestar-lhe o seu tributo. Atirou-lhe uma oferenda, afagou-lhe o focinho, sentindo-lhe os caninos com um polegar gélido, e afastou-se.
O lobo esperou pelos primeiros raios de sol para abocanhar a oferenda e rumar aos montes onde a alcateia se reuniria e voltaria a reinar nos próximos vinte e sete dias e noites. Ainda conseguiu aterrorizar as velhas que iam para a missa, bem cedinho.
Porque esta terra não é cristã, esta terra é dos mitos que a povoam. Quase lhes sentimos a presença, quase vislumbramos as suas faces vermelhas e os seus movimentos lânguidos. Porque esta terra não é cristã. É terra de Deuses e Lobos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA!


Feel the force, young Skywalker! Let the force take over! Behold the power of the dark side!

Não resisti. Por falar em rainhas de colmeia…

SERÁ QUE RESULTA?

Quando chegamos à idade adulta, perdemos demasiado. Perdemos a acutilância, a espontaneidade e a sinceridade. Perdemos aquilo que mais nos caracterizava na infância: a honestidade e a enorme capacidade de improviso. Tornámo-nos máquinas calculistas, sempre a medir os riscos desta ou daquela acção. Quando éramos crianças, as coisas pareciam-nos mais simples e bem mais reais. Como adultos, vivemos num mundo artificial, no qual a aparência é mais importante que propriamente aquilo que pensamos ou somos na realidade. Na verdade, perdemos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de viver a vida em nosso proveito, para passarmos a viver em função dos outros, sejam-nos ou não queridos.

Por esse motivo, a sinceridade de uma criança serve para demonstrar como perdemos o nosso rumo ao longo da vida. Passamos a viver cheios de medo. Medo dos outros, medo das instituições, medo do estado, medo da natureza, medo da religião. Medo de tudo, porque temos a sensação de que tudo nos pode desabar na cabeça, que o mundo está de olhos postos em nós, quando na realidade, e como dizia John Cleese, “I don’t give a flying fart about you. Don’t even know you”.

O medo da política é bem real. Todos dizemos mal dos políticos, mas sabemos bem que qualquer acção menos própria contra um deles poderá ser o fim dos nossos problemas e o início do fim da nossa vida. Esta menina de nove anos pensa de forma diferente, pois é criança. Não mede as consequências das suas acções porque pensa que não tem de prestar contas a ninguém, apenas o seu bem estar conta, não trabalha na gigantesca colmeia do mundo actual, que fez de nós abelhas operárias, perdendo a individualidade em prol de um colectivo que insiste em sobrepor-se, em espezinhar sentimentos e pensamentos, em desprezar os que efectivamente tomam os seus destinos nas suas próprias mãos. Evidentemente, não estou com isto a afirmar que deveríamos viver nos nossos mundos de criança, mais ou menos autistas, alheios ao mundo. Mas afirmo de viva voz que o mundo poderia infantilizar-se um pouco, e só haveria vantagens nisso.

Hoje, tudo é muito sério. Hoje, ninguém pode brincar com nada. Hoje, não podemos abrir o bico sob pena de sermos imediatamente postos de lado e silenciados, acusados de verborreia e de insulto grátis. Assim, seguimos o nosso caminho caladinhos e amordaçados, porque todos os outros são pessoas de bem e temos de os respeitar. Ainda que pensemos o contrário, não podemos dizê-lo alto, porque então seremos esmagados pelos outros insectos operários que defendem a sua rainha gorda poedeira de milhares de ovos. As crianças são diferentes. As crianças dizem a verdade, mesmo mentindo. O mundo visto pelos olhos de uma criança é muito mais próximo da realidade que aquele que vemos.

Só trocaria uma coisa ao desejo desta criança. Não pediria a demolição de um edifício físico, mas sim da demolição do edifício social abjecto em que sobrevivemos. À falta de melhor, e tendo de ser um edifício físico, então que fosse a Assembleia da República, nos mesmos moldes em que a menina faz o pedido. Arranjar os nomes não deve ser difícil…





Recebida por E-mail, LP

terça-feira, 2 de março de 2010

UM TIQUE BEM PORTUGUÊS #2

Foto Google

A sorte do português perante todos os azares que acontecem está bem patente nesta saga:

O Toni já não via o Zé há uns anitos. Um grande bacalhau, três berros de satisfação e a pergunta que se impunha:

- Então, Zé, e o teu irmão, o Chico?

- Morreu…

- Eh pá Zé, espero que tenha tido a sorte de não sofrer, pá…

- Mais ou menos…

- Mas como é que ele morreu?

- Pá, arranjou um emprego como tratador na piscina da Câmara…

- Sorte a dele pá, grande emprego!!

- Pois… Um dia estava a limpar a última prancha, a de doze metros e caiu…

- Eh pá, estatelou-se de chapa na água!!! Porra, coitado…

- Nada disso, teve sorte! A piscina estava fechada para obras e sem água!

- Eh pá, pelo menos teve a sorte de não se molhar… olha lá, então partiu-se todo no mosaico cá em baixo…

- Nada disso, teve sorte. Enfiou a cabeça num dos ralos da piscina!

- Bem, pelo menos não se partiu todo… Então morreu sufocado?

- Nada disso, morrer sufocado devia ser horrível, mas ele teve sorte… Ninguém deu por nada por dez dias e ali ficou ele, de cu para o ar e com a cabeça entalado no ralo…

- Ah! Bem, então teve sorte. Acabou por morrer de fome, não??

- Eh pá, de fome não, pá, só pensas em merdas dessas???? Nada disso, teve sorte…

- Então como morreu ele???

- As ratazanas comeram-lhe a cabeça! Teve sorte…

- Desculpa lá, ò Zé, mas isso não é sorte pá!!! É mesmo fodido!!!

- Achas??? Pelo menos não sentiu o colega de trabalho dele, o Tibúrcio, a ir-lhe ao pacote quando veio de férias… Já estava morto!

- Eh pá, Zé, que sorte, pá!!! Fico mais descansado! E uns tremoços??

- Bora lá, pá!!!

Isto é pura ficção e de mau gosto, bem sei… é só para demonstrar a “sorte” do português…

segunda-feira, 1 de março de 2010

UM TIQUE BEM PORTUGUÊS

Capa de "In Sorte Diaboli" - Dimmu Borgir

Os portugueses têm tiques. Sim, têm, não vale a pena estarem a responder negativamente. Sim, vocês os três aí, que lêem o que escrevo. Não era uma pergunta, era uma afirmação. Estão com falta de atenção ou faltaram às aulas de português… Dizia eu que os portugueses têm tiques. O que, por si só, não vai além da curiosidade. O problema é quando queremos estender os nossos tiques a outros povos. Aí já a porca torce o rabo e o caldo entorna (pode acontecer sem haver ligação directa entre os dois factos).

Ora um tique bem português é o tique de ter sorte. Os portugueses têm muita sorte. Têm sorte em praticamente tudo o que fazem. O português é apanhado a 160 na auto-estrada, é multado em 300 euros, paga e não bufa (bufar bufa, mas não lhe adianta ponta de um chavelho) e vai para o café. E vai fazer o quê? Comer tremoços e beber mines, está bem, eu merecia essa. Evidente. Mas também vai contar a aventura! E como acaba a aventura? Ora, “tive uma sorte do catano, momentos antes tinha ultrapassado um Lamborghini que ia pelo menos a 220!” Pois é, teve sorte. E teve, a acreditar na história. Não teve azar nenhum de ter topado com a polícia e ter arrotado 300 postas! Ou o juízo de ir a 140… Já não digo 120…

Querem outro exemplo? “Se não tivéssemos canalizado as ribeiras, a baixa do Funchal tinha desaparecido!”. Uma bela maneira de dizer que tivemos sorte! Ora, o que aconteceu na Madeira até foi uma sorte, podia ter sido bem pior!!! Claro, se nada tivesse acontecido, era um azar da treta! Até chegamos ao cúmulo de dizer que as pessoas que morrem de ataque cardíaco tiveram uma sorte danada, pelo menos morreram rápido! Ou um paraplégico, cuja condição resulta de um acidente rodoviário “teve sorte, podia ter ficado tetraplégico!”. E esta dói-me na alma, pois deu-se muito perto de mim.

Um outro acidente que se deu perto de mim foi o de um primo meu, que a atravessar, ao volante do seu automóvel, uma pista de aviões em Paramos, levou com um avião em cima. Enquanto chorava a sua morte, ainda no local do acidente, alguém me disse que teve sorte, pelo menos morreu carbonizado, enquanto o piloto do avião estava a sofrer em coma! Há sortes para tudo. O português tem sorte, o português quase nunca teve um azar do catano, o português vê sempre o lado positivo da coisa. Quando acontece uma tragédia, evidentemente. Quando acontece algo de bom, já o lado positivo não aparece tanto.

O rol de desgraças que tem acontecido ultimamente, no Haiti, na Madeira, no Chile, na Argentina e agora em França dá azo a que o português pense que esses povos tiveram sorte! É verdade!... Já ouvi que os haitianos tiveram sorte porque já andavam a matar-se uns aos outros, os madeirenses tiveram sorte por aquilo que já referi atrás, os chilenos tiveram sorte por o sismo ter sido no mar, os argentinos tiveram sorte por ter sido um sismo “só” de 6.4 e até os franceses tiveram sorte porque “lá, nesta altura do ano, faz sempre mau tempo. Se fosse no Verão é que era mau!”. Tanta sorte, por Rá!! Tanta sorte temos nós em sermos portugueses!