quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

PAPAS GREGAS E BOLOS EUROPEUS

Ilustração Marco Joel Santos

            Não adianta dizer que não sou daqueles que gostam de dizer “eu avisei”. Porque sou e quando tenho de cobrar normalmente não deixo passar a ocasião de “mandar a boca”. Bem, a verdade é que avisei da pouca seriedade e até uma alta taxa de desonestidade intelectual que rodeou a negociação havida entre o Eurogrupo e o novo governo grego.
            Tal como antes deste primeiro e insignificante desfecho, as conclusões que cada facção tirou desta novela grega está toldada pelo radicalismo político. O perigo não está naquilo que se diz, mas sim a quem se diz. E a verdade é que ninguém está a falar para os políticos, nem para comentadores mais ou menos políticos. Está-se a falar para o povo. E o povo, esse, e como bem sabemos, emprenha facilmente pelos ouvidos e dá à luz, regularmente, nados-mortos chamados governos. Adiante, basta de tristezas.
            A direita portuguesa congratula-se com o resultado das negociações porque tudo o que a Grécia estava obrigada a fazer se mantém com este novo governo. Alegam que apenas as palavras mudaram, de austeridade para reformas estruturais e de Troika para instituições. A esquerda portuguesa que se identifica com o Syriza reclama vitória porque este novo governo grego acabou com a austeridade e com a Troika.
            Nenhuma destas facções tem razões para ter ficado satisfeita, na verdade. E por razões óbvias que não custa referir e vislumbrar.
            A visão da manutenção da austeridade é parcialmente verdadeira, mas não de forma cabal e inegável. Antes de mais, porque uma das mais importantes imposições da Troika caiu mesmo, a meta do saldo primário, que teria de ser 3% este ano e 4,5% em 2016. Ficou-se por um valor de 1,5% para este ano e provavelmente manter a mesma meta indefinidamente. O que quer isto dizer? Simples, a Grécia obteve uma estagnação da austeridade, e alguma margem para medidas que vão no sentido do crescimento económico e não apenas da contracção do consumo com vista a pagamentos de dívida. Na prática, a Grécia fica obrigada a pagar a dívida com 1,5% do saldo primário, e não 3% nem 4,5%, como previsto anteriormente, ou seja, se conseguir crescer no futuro, a Grécia conseguirá folga para investimento. No fundo, atingiu, parcialmente, o seu grande objectivo, que, relembro, era o de pagar a dívida conforme o seu crescimento económico. Não conseguiu exactamente isso, mas o resultado líquido pode ser muito parecido.
            Por outro lado, as medidas de austeridade que se mantêm no acordo mudaram o alvo. Ao invés de incidir na descida de salários, passam a incidir na obtenção de impostos. Pode parecer uma medida simples, mas não é, face à postura omissa dos empresários gregos em termos fiscais. A supressão de empregos também passou à eficiência do aparelho de Estado. Tarefa ainda mais hercúlea, dada a corrupção que grassa no aparelho estatal grego. No papel, parece tudo bem. No papel.
            A visão do fim da austeridade é igualmente insuficiente. Há que lembrar que a Grécia se compromete a não parar as privatizações em curso – que são muitas e estratégicas, mormente nos transportes. O governo grego aquiesceu em implementar uma reforma do mercado laboral que siga as melhores práticas europeias, ou seja, vai efectivamente flexibilizar o mercado de trabalho. Eu não gosto destas expressões, porque o trabalho não é um mercado e não existe flexibilização. O que existe, segundo as melhores práticas europeias, é a precarização do emprego. Ponto.
            Ainda no acordo aparecem os célebres cortes, disfarçados de “racionalização de custos”, em áreas como a saúde, a educação ou a justiça. Não é difícil, teoricamente, cortar custos no sistema grego, uma vez que a sua ineficiência é já de si garantia que a poupança é possível sem haver grandes mudanças estruturais. O problema é, lá como cá, a corrupção, grande e pequena, que grassa, e não será nada fácil mudar as mentalidades, mesmo que se controle a corrupção. Por isso, é provável que estas poupanças se possam vir a reflectir em medidas como a execrável perda de direito de acesso ao sistema de saúde por quem esteja desempregado há mais de três meses.
            É triste, por esta e muito mais razões, que de ambos os lados se assista ao espectáculo a que se assistiu nos últimos dias em Portugal. O país extremou-se, e devo dizer que nunca vi tantos bloquistas nem tantos defensores da austeridade como agora. A situação, como referi, não agradou nem a um lado nem a outro. Por razões igualmente simples.
            Este desenlace não agradou à direita porque, independentemente das conclusões económicas, o grande objectivo era ver uma Grécia esmagada em pleno Eurogrupo. Isso não aconteceu, e não aconteceu porque o povo pode ser estúpido, mas nem sempre é obtuso. O povo português viu um ministro grego negociar com o Eurogrupo, ou seja, com os seus pares, seus iguais, enquanto se lembra das tristes visitas de funcionários boys da Troika, a mandar e desmandar quando aterravam na Portela. Nem esquecerá tão cedo a postura de poodle abanando o rabo e com a língua de fora da nossa ministra das finanças, mostrada em montra de concurso canino pelo senhor Schauble. Isso conta muito, mas mesmo muito, e isso é uma coisa que a direita europeia não entende desde Churchill: o orgulho nacional consegue apagar muita fome. Por outro lado, a Grécia obteve algo. Se calhar, só obteve 5% do que inicialmente apregoava querer conseguir. Mas 1% de melhoria seria muito bem-vinda por qualquer português, nesta altura…
            A esquerda não se sentiu satisfeita porque simplesmente os seus sonhos ruíram por terra. Aquilo que o Bloco de Esquerda poderia capitalizar à custa da mudança radical na Europa e na sua relação com os Estados não se concretizará porque a Europa não mudou nada. O que mudou foi a Grécia, e não conseguiu tudo o que queria. Na verdade, vamos mesmo assistir ao ocaso destas correntes de esquerda nas próximas eleições. Por outro lado, muita gente desta esquerda mais ou menos caviar ainda não percebeu que a Europa não se rege minimamente pelos seus valores, nem por valores de esquerda, sejam eles quais forem. E que só poderá haver mudança nacional, nunca uma mudança europeia. A Europa não mudará, a menos que se acabe de vez. Entendam isso e facilmente passarão a viver de bem com os ideais de esquerda.
            A insignificância deste desenlace é óbvia. A Europa está convencida que a Grécia vai continuar a cumprir um grande programa de austeridade, que tem por objectivo único o eclipse de qualquer interesse geopolítico da Grécia como potencial económico nacional, mas antes transformar a Grécia numa pequena plataforma giratória e logística para as operações das grandes empresas e lobbys no leste da futura Europa que inclui as ex-Repúblicas Soviéticas. Como a Monsanto está a adquirir a Ucrânia, por exemplo. Por outro lado, a Grécia não vai cumprir com nada do que acordou, vai disfarçar e olhar para o lado, travar o mais que pode neste caminho de destruição da sua economia e ameaçar, as vezes que achar razoável, com a saída do Euro e o provável fim do mesmo.
            E toda a gente vai assobiar para o lado. Cá estaremos para ver, nós, os pacóvios do costume. Com papas e bolos se enganam os tolos.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

PANINHOS QUENTES EM COSTAS RASGADAS

Ilustração Marco Joel Santos

            A diferença entre um Junkers e um Juncker é um c e um s. Assim à vista desarmada. C de corrupto e s de salafrário. É evidente que um Junkers aquece água, trata-se de uma marca de esquentadores bastante conceituada, um “made in Germany”, como se quer nestes produtos industriais. Não acreditem em nada disto, um Junkers é apenas um Vulcano com outra etiqueta e são todos feitos ali em Cacia. Um Juncker é bem diferente, é um burocrata oriundo do Luxemburgo, aquele país que vive à custa do dinheiro dos outros países, neste particular bem acompanhado regionalmente, aliás. Quem me souber dizer qual o grande produto de exportação luxemburguesa leva um brinde.
            A semelhança entre os dois é mais que o nome. Um produz água quente, o outro produz paninhos quentes. Juncker parece ter tido uma epifania, depois de ter sido primeiro-ministro do Luxemburgo, acumulando a pasta das Finanças, ter presidido ao Conselho Europeu e ter tido grande influência no Eurogrupo. Evidentemente que o facto de ter perdido a oportunidade de prolongar o seu reinado no Luxemburgo nada terá tido que ver com o escândalo financeiro em que se viu envolvido, e nada o faz parar, sendo agora o Presidente da Comissão Europeia, lugar burocrático europeu sem influência legislativa mas com belo efeito de jarra, que se encontrava vago há dez anos. Este personagem veio afirmar que a Troika pecou contra a dignidade dos povos.
            Isto levava-me tão longe… mas adiante.
            Antes de mais, quem é a famosa Troika? É um grupo de instituições que integra a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Ora, se assim é a Troika é, quando não mais, dois terços União Europeia. É por demais interessante verificar que um dos senhores que mandava na União Europeia venha agora falar dos excessos da Troika, quando ele próprio a terá orientado em grande medida. Do FMI estamos conversados, é aquele fundo que está a transformar a Ucrânia em duas regiões distintas, a República da Monsanto e o Donbass.
            Prosseguindo, imaginemos que a troika, de facto, atentou contra a dignidade dos povos. Qual a situação mais indigna que podemos imaginar? Muitas, com certeza, mas a mim ocorrem-me assim de repente, duas: a indignidade do Holocausto e a indignidade da Escravatura. Sim, já sei que as comparações são relativas, mas é apenas uma analogia. Imagino, por exemplo, o africano vergado sobre um tronco numa qualquer fazenda norte-americana, ou mina sul-americana, ou roça africana, a levar chicotadas nas costas. E agora imaginemos que, depois de ter as costas desfeitas pelos golpes de chicote, o senhor do escravo se lhe chega aos ouvidos e murmura-lhe: “Pequei contra a tua dignidade”.
            Mas agora imaginemos que o escravo se dirige ao amo e lhe refere que o seu amo deve estar doido e que está a ser muito infeliz nas suas palavras, pois nunca por nunca sentiu que a sua dignidade foi sequer ameaçada, e não é por ter as costelas à mostra e se estar a esvair em sangue que alguma vez duvidou da justeza do castigo. Não parece ter sido o que fez o nosso infeliz primeiro-ministro, mais o seu governo e o seu partido?
            Não, nem por sombras. As costelas à mostra por entre os rasgões na pele e na carne não são dele. São nossas. O nosso povo foi alvo dos pecados da Troika, mas todos nos devemos lembrar que os pecados deste governo são maiores do que os da troika, pois era para além dela que o governo queria ir e foi. Num país devastado, com um sistema de justiça destruído por uma louca, um sistema de saúde devastado por um monstro funcionário dos Seguros de Saúde (que muitos diziam ser o melhor ministro deste governo), em que a probabilidade de ser atendido numa urgência em tempo útil é tão remota como a de o Sporting ser campeão, um sistema educativo entregue à anarquia, à mercê de um mercenário que só quer entregar o ensino a privados, quem é que, afinal, tem as costas ensanguentadas?
            Não é o coelho, nem o seu pseudo-governo, nem o seu partido de extrema-direita que sofre. Esses estão bem. Até conseguem ser os únicos assalariados com aumentos reais de vencimento em três anos de misérias salariais. O escravo somos nós, não são eles. Eles são apenas os capatazes da fazenda, e a Troika é apenas o chicote. O senhor da fazenda é o Schauble. O gajo da cadeira de rodas, um deficiente rancoroso de merda, que para além de deficiente ainda é portador de deficiência, e que não se lembra que a Europa sempre perdeu com a presença do seu país xenófobo e racista no seu seio. O país que começou as guerras mais devastadoras que alguma vez o mundo já viu, o país que foi humilhado pelo resto do Mundo que, num gesto de magnanimidade, o ajudou a erguer-se das mais tenebrosas sombras ideológicas e das cinzas físicas. As feridas físicas desapareceram. O resto permanece. Não confundo, no entanto, a Alemanha com os alemães. Mas porque raio havemos nós de confundir a Grécia com os gregos? E porque razão hei-de eu dizer mal a torto e a direito dos gregos, que nunca fizeram mal a ninguém, e hei-de reverenciar os alemães, o povo mais genocida da História? Não faria mais sentido odiar os alemães? Bem, seja como for, não os odeio, apenas tenho asco pelo que o seu país representa.
             Quanto ao Junckers, os seus paninhos quentes a mim fazem pouco efeito. Mas pelo menos, não lhes ponha sal.
A Europa em contagem decrescente.

            

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A TRAGÉDIA GREGA

Ilustração Marco Joel Santos

Desgostam-me estes actos a que estamos sujeitos, por parte de uma certa comunicação social nojenta que temos de tolerar, que mais não procura que denegrir aqueles que eles próprios acham nojentos. O governo grego está entre os nojentos eleitos pelas comunicações sociais neo-liberal e fascista que, num dado momento no tempo, que é agora, acharam os seus objectivos alinhados. Igualmente me desgosta a comunicação social de alguns sectores esquerdistas que encaram o mesmo governo grego como o salvador de uma Europa moribunda.
            Na realidade, penso que nenhuma destas correntes tem sequer razão para existir.
            Os comentadores de direita sentem-se ameaçados por algo que não conhecem, mas que também não desejam conhecer. Os comentadores de esquerda passam por cima de um facto que deviam conhecer, mas que fazem por esquecer, quando tanto se esforçaram por o recordar: a Grécia está de rastos, não só e apenas pelo resultado da austeridade cega a que foi sujeita, mas também pelas irresponsáveis políticas anteriores por parte dos principais actores políticos de então, os socialistas e os de centro-direita (já não sei que nome hei-de chamar a estes bois, pois sociais-democratas já há muito não são).
            Não há milagres, penso que todos já percebemos isso. A única proposta realista que vejo por aí a circular é mesmo a do nosso PCP, que quer discutir e preparar uma possível saída de Portugal da zona euro. É um cenário que, agrade ou não a quem quer que seja, é possível e, em face dos acontecimentos mais ou menos graves que se podem vir a desenrolar nos próximos dias e semanas, tem um grau de probabilidade que não pode ser menosprezado. Tudo o resto ou são tresloucados ataques à memória grega e ao seu papel na Europa ou então radicalizações que só fazem sentido como ponto de partida para as cedências durante uma negociação.
            O problema parece ser que todos têm medo do que possa acontecer com a Grécia. Os acólitos do Governo Alemão (e por conseguinte, de Passos Coelho) têm um imenso medo que o Syriza consiga melhorar a condição grega porque isso desautoriza – em absolutamente TUDO – o governo português (aliás, como o espanhol, o italiano e outros mais, mormente o alemão). Além disso, seria a esquerda portuguesa (a extrema esquerda, o BE e o PCP) a capitalizar nas urnas os possíveis sucessos do Syriza, o que poderia inviabilizar aquele que agora parece ser o grande sonho dos socialistas e dos de centro-direita e extrema-direita (PS, PSD e CDS), um gigantesco “consenso” chamado Bloco Central.
            Por outro lado, muita gente dentro de uma certa esquerda pouco popular mas bastante instruída teme o fracasso do Syriza pelas mesmas razões, ou pelas razões inversas: a legitimidade cada vez maior das políticas de austeridade e a impossibilidade de deter o seu próprio ocaso eleitoral.
            No meio disto tudo, está, afinal, a Grécia. Um país. Não é um continente, nem uma federação de países, é apenas um país. Mas que faz parte de um projecto maior, o europeu. É triste vermos alguns tristes comentadores politiqueiros denegrirem todo um povo apenas porque os seus interesses materiais e políticos estão em causa. A esses, devíamos apenas ignorar, porque a liberdade de expressão lhes dá o poder de opinar.
            A Grécia é o berço da civilização europeia. Foi quem deu nome à Europa. Esqueçam a Democracia, isso só surgiu depois, em Atenas. Primeiro surgiu a própria designação do continente, e foram os gregos que a inventaram.
            Conta a lenda que Europa era uma princesa de rara beleza oriunda do Levante, da cidade de Tiro, que era, à altura, governada por seu pai, Agenor. A moça seria tão bela que Zeus lhe apareceu sob a forma de touro branco e a terá iludido a montar o seu dorso, após o que a terá raptado, levando-a para a ilha de Creta, terra natal de Zeus. Europa terá ficado tão apaixonada por Zeus que terá esquecido a sua forma de touro e, ainda antes de este ter assumido a sua forma natural, se lhe teria entregado, daí surgindo o famoso Minotauro. Mais tarde, teriam tido mais dois filhos, um dos quais Minos, o lendário rei de Creta.
            Esta lenda era contada na tradição oral grega ainda os outros europeus nem sequer existiam. Relembremos que a Europa como a conhecemos foi formada essencialmente depois das Invasões Bárbaras, mormente o centro da Europa. Apenas romanos, etruscos e algumas tribos celtas por aqui andavam e já os gregos tinham escrito a Odisseia, a Ilíada e mais obras literárias de fino recorte poético. Também inventaram a tragédia e a comédia. E a sátira.
            Independentemente das raízes culturais gregas, muito ligadas ao que os Dórios encontraram das civilizações egípcia, minóica e micénica, a questão é que não se pode, não se deve, nunca, menosprezar o contributo de um povo para a História universal. Seja qual for o povo, pois todos eles foram importantes, em dada altura, para o desenrolar dos acontecimentos. Desprezar a herança grega não é só desprezar um povo e sua história, é desprezar a História Universal e em particular a História Europeia. Que isso aconteça pelo mais fútil dos motivos, como o de ser director de um jornal de extrema-direita, é ainda pior.

            Pelo enorme respeito que me merece o povo grego e a sua extraordinária herança histórica com que nem portugueses nem espanhóis nem italianos sequer, e muito menos franceses ou alemães, podem sequer sonhar, desejo apenas que o Syriza consiga com que esse extraordinário povo saia da sua miséria actual. Porque, se é bem verdade que devem ser os gregos que devem pagar as consequências do seu acto político de escolher o Syriza para governar, e essas consequências podem ser impostas pela Europa… o que mais lhes podem fazer? Enviá-los para Auschwitz e Birkenau?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O CAVALO DO MAOMÉ VOAVA

Ilustração Marco Joel Santos

            Decorrendo do atentado ao Charlie Hebdo, nunca por nunca se terá falado tanto de religião como nestes últimos tempos. Exceptuando talvez a Idade Média, bem entendido. Interesso-me desde há muito pelo fenómeno religioso, o que me levou a estudar o assunto e concluir a licenciatura em História com o “major” em Religião e Cultura. E se há quem não entenda a relação entre as duas vertentes, então não vive neste mundo.
            Há quem diga que tudo o que se faz é política. Eu digo que se faz por causa da religião. Ou ausência dela, o que estranhamente se assemelha cada vez mais a uma nova religião que, antes de atingir o zénite, já decaiu. Vivemos na nova era religiosa, a era das experiências religiosas pessoais, a era das fés não organizadas que tanto horroriza tanto os ateus como os religiosos. Contudo, o meu interesse pela religião é puramente académico e de alguma forma social, pois rejeito a religião organizada e sinceramente não quero gastar dinheiro em drogas de segunda para ter uma epifania religiosa universo-pessoal ao estilo americano nativo.
            Tendo estas premissas desde já aclaradas, escrevo agora sobre a religião organizada. As pessoas são livres, nesta sociedade a que convencionamos chamar “ocidental”, mas que no fundo não passa da condescendente, vetusta e levemente passada de prazo cultura europeia de cariz judaico-cristão, de professar a religião que muito bem entenderem. Para os agnósticos, laicos ou ateus, seja de que forma se refiram aos que se estão defecando para as religiões, no entanto, não deixa de ser estranha a experiência religiosa, particularmente entender os mitos cosmológicos ou os factos fundadores da Fé.
            A nossa sociedade europeia é, como já referi, de cariz judaico-cristão. Convenhamos que, sendo provavelmente a religião mais numerosa do mundo inteiro, desde que os chineses não se tornem hindus ou os indianos se tornem confucionistas, é também a religião ou continuum religioso mais difícil de compreender. Isto porque acreditar que uma senhora engravidou num sonho de um anjinho e se manteve virgem, e com isto tudo o marido ainda aguentou a família, que uma estrelinha no céu estava por cima do local onde estava o puto daí nascido, puto esse que depois de inspirar Marx e Engels se deixou crucificar para ressuscitar ao terceiro dia e melhor ainda, ascender aos céus quarenta dias depois… Nada mau.
            É verdade que muitas figuras fundadoras de diversas religiões são figuras reais da História. Buda, Jina, Confúcio, Zoroastro, Abraão, José (não o pai de Jesus) e provavelmente Moisés, ou Maomé, por exemplo, são pessoas que existiram efectivamente. Já Cristo, apesar das imensas pressões para que se diga o contrário, não tem uma existência documentada historicamente, a não ser a palavra de honra de uns três ou quatro supostos apóstolos cujos testemunhos foram transcritos entre cem a trezentos anos depois da suposta crucificação. Método de execução que, ao contrário do que se quer fazer crer, era extremamente comum nas províncias romanas e mesmo no Lácio e Roma. A beleza do mito cristão é, no entanto, indescritivelmente prática. Como não há registos independentes que documentem a existência de Cristo, a veracidade da história provar-se-ia se descobríssemos um corpo. Mas o facto de ninguém ter descoberto um corpo prova que a história é verdadeira, pois Cristo subiu aos céus com o corpo. É a chamada pescadinha de rabo no corpo.
            O islamismo aceita tudo o que vem do judaísmo e do cristianismo, mas acrescenta-lhe Maomé e os seus delírios esquizofrénicos. Bem, assim seriam consideradas as famosas conversas com Deus, ou Allah, assim chamado nos tempos idos de Moisés, quando Deus se terá anunciado ao profeta como “Eu sou Aquele que é”, ou seja, Allah. Como todos somos porque somos o que somos, Deus assume aqui a sua faceta de La Palisse em grande estilo de sarça ardente e voz grossa. Maomé sonhava tantas vezes com Allah que temo que o pobre coitado tenha inventado a SPA e os direitos de autor em consequência. E Maomé, apesar de ser uma pessoa efectivamente real, pregava a paz mas fazia a guerra e foi mais um que subiu aos céus com corpo e tudo, e se Cristo o teria feito em Jerusalém, Maomé não era homem para menos e fez o mesmo no mesmo local. Apesar de ter morrido em Medina, uns bons kms a sul.
            O islamismo prega a paz, mas não é menos verdade que em cem anos conquistou à lei da espada meio mundo conhecido. E se é bem verdade que períodos houve em que a liberdade religiosa era garantida pelo Califado, e não será demais lembrar os tempos da Catedocracia judaica, de Maimónides e das Academias, precisamente sediadas nas Babilónias – Bagdade, sede do Califado e Cairo, um pólo islâmico importante, onde fixou capital, mais tarde, o próprio Saladino, também é verdade que a tradição oral veio endurecer paulatinamente as posições políticas do Islão, e a imposição islâmica não é nenhuma ficção na actualidade.
            Ao patrocinarmos (Ocidente) o abate dos regimes laicos de alguns países islâmicos, como a Líbia, a Tunísia, o Egipto e a Síria, antes já precedidos por Líbano e Turquia, patrocinamos igualmente a prévia fuga de clérigos radicais destes países, onde eram perseguidos ou ignorados (para eles é igualmente atroz) para a tal Europa cândida e multiculturalista, tão segura da sua identidade que ingenuamente recebeu todos estes asilados políticos que subterraneamente exercem a sua influência junto das comunidades emigrantes. Ao mesmo tempo, com a eclosão da Primavera Árabe, que na realidade não passou de um gigantesco conjunto de golpes de Estado perpetrados pelo tal Islão radical, deixamos que se instalassem no poder desses países os tão famigerados fundamentalistas. Com os resultados óbvios, como se vê pelo Estado Islâmico.
            A verdade é que todos dizem que não devemos confundir o fundamentalismo com o radicalismo, não devemos confundir islâmicos com islamitas. Obviamente, o politicamente correcto que ninguém em seu perfeito juízo pensa e muito menos pratica. As Cruzadas não foram feitas por todos os cristãos, mas foram feitas pelos Cristãos. Os judeus europeus não foram aniquilados por todos os alemães, mas foram sujeitos ao holocausto pelos Alemães. A Ibéria não foi invadida por todos os árabes, mas foi invadida pelos Árabes. Os arménios não foram massacrados por todos os turcos, mas foram-no pelos Turcos. Os sérvios não foram aniquilados por todos os croatas, mas foram aniquilados pelos Croatas. Por isso, é ingénuo quem diz que isto não é uma guerra motivada pela religião, ou pelo choque de culturas, porque é. E não tenham dúvidas que provavelmente, em caso de guerra aberta, as populações seguem quem conhecem, não seguem os inimigos do outro lado da fronteira.
            Quanto ao Charlie Hebdo, é um pasquim de extrema-direita que nunca me foi particularmente simpático. Não me chocou a reacção, chocou-me a execução. Eu não sou Charlie Hebdo, porque sou pela liberdade de expressão, e liberdade de expressão é dizer o que se passa, no caso da imprensa, em todas as direcções. Quando é só numa, além de tudo, é monótono.

            Por fim, a figura ou símbolo de Maomé inspira-me, como a de Cristo ou Buda, todo o respeito, apesar das brincadeiras acima retratadas. Mas estou-me literalmente cagando para o que pensam os islâmicos ou islamitas ou o que quiserem chamar a parte da sociedade dos países islâmicos, por quem tenho uma enorme ternura e afecto, acerca do seu sagrado Maomé, e eles deviam estar a cagar-se para o que eu penso – mas não estão. Para mim é apenas mais uma figura histórica, o primeiro Califa que não se sabe muito bem em que genro delegou o poder à hora da morte – e possivelmente antes do delírio final da elevação do corpo aos céus e da fantástica viagem de Medina a Jerusalém num cavalo voador que lerpou depois de lá chegar, uma história inspiradora (porra, nós também temos o Adamastor e o D.Sebastião). Naquele tempo, está já provado que o ópio era da pesada e não devia ser fumado conjuntamente com o consumo de bebidas alcoólicas…

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A RENDIÇÃO DE PORTUGAL AO ISLÃO RADICAL




            O novo Califado está em marcha, dizem-nos as notícias vindas do Próximo Oriente. O chamado Estado Islâmico está em expansão na Síria e no Iraque, e as notícias das atrocidades cometidas em nome do Islão são recorrentes. Aliás, não era já necessário que nos chegassem estas notícias, pois já sabíamos que o Islão tem um longo historial daquilo a que chamamos barbárie humana na sua mais pura essência.
            A novidade parece prender-se apenas com a oportunidade, e com a força que o movimento apresenta. Nem sequer é novidade o objectivo do movimento, a restauração do Califado. O que é o Califado? Era um reino teocrático, com sede em Bagdade, presidido por um Califa que, de uma forma mais ou menos clara, era descendente da família próxima de Maomé. Abrangia todo o Próximo Oriente, Norte de África, parte do sudeste da Europa, a Península Ibérica, Pérsia, Afeganistão, Grande parte das ex-repúblicas soviéticas do sul, parte da Índia e mesmo da China. Um império.
            A situação na Península Ibérica foi vantajosa para os povos envolvidos em quase todas as vertentes, pois os avanços em quase todos os domínios que os sarracenos trouxeram fizeram do sucessor do grande Califado na Península, um novo califado conhecido por Al-Andalus, a idade de ouro da Península Ibérica, que só retomou algum do seu brilho com a unificação de Espanha e com os Descobrimentos.
            No entanto, o fundamentalismo islâmico pouco ou nada tem a ver com os tempos áureos do Al-Andalus, a não ser uma vaga pretensão do Estado Islâmico à posse da península. Vaga mas, dizem, real. A conquista da península ibérica por este grupo de energúmenos da pior espécie seria uma catástrofe inimaginável. Mas uma catástrofe que não acontecerá por certo. O profundo desprezo por tudo o que não caiba na Sharia – não necessariamente no Corão, pois são coisas diferentes – é um facto real nas vidas destes fundamentalistas idiotas. Não só nas deles, mas nas de muitos islamitas por esse mundo espalhados. O que mais ressalta é o profundo desprezo pela mulher, o rebaixamento do sexo feminino à condição animal, quando muito.
            Será escusado, no entanto, o Estado Islâmico pensar em invadir a Península Ibérica, ou pelo menos Portugal, para instaurar a Sharia e o rebaixamento das mulheres portuguesas à condição de propriedade masculina. A verdade é que Portugal há muito se rendeu a essa condição. A passividade do país inteiro, incluindo movimentos caritativos ou de promoção dos Direitos Humanos à verdadeira tragédia que se desenrola em torno das mulheres portuguesas, ou uma boa parte delas é sinal de que Portugal há muito se rendeu ao fundamentalismo islâmico. Ou hindu, ou cristão, ou judaico. Qualquer fundamentalismo religioso, na realidade, pois todos eles rejeitam a igualdade das mulheres.
            É impressionante o número de fundamentalistas islâmicos que Portugal já comporta. Todos nos relembramos dos fundamentalistas de S. João da Pesqueira e de Carrazeda de Ansiães, aplaudidos à saída do Tribunal depois de aplicarem a Sharia às mulheres da sua própria família. O número de queixas de mulheres sujeitas a violência doméstica em Portugal é assombroso, e este é um daqueles assuntos de que Troika ou OCDE nenhuma fala. É uma vergonha ser português, ao constatar aquilo que se passa neste particular.
            E as que não apresentam queixas? E aquelas mulheres que se dirigem às autoridades para ouvirem que podem ir para casa “lavar a louça”? Não, não é ficção. É o Estado teocrático em que vivemos, o Estado fundamentalista, uma sociedade podre em que podem cair os tomates a qualquer “chefe de família” se não mandar uns berros à sua “mulher”, e não lhe “acertar o passo” de vez em quando, ou de quando em vez e até todos os dias. Como reportar estes abusos, se as autoridades bebem uns copos com o criminoso no café da aldeia? Sim, é que Portugal não é só Lisboa e Porto…
            E que dizer das mulheres que, miraculosamente, conseguem provar a violência doméstica? Vêem os seus agressores castigados com risíveis multas ou penas suspensas, e ainda por cima perdem os filhos, se os houver, porque o “lar não reúne as melhores condições para a co-habitação de menores”...
            Isto não é a Síria nem é o Iraque, nem o Afeganistão. As nossas mulheres não andam de burka nem de nikab. Mas caem nas escadas muitas vezes. Isto é Portugal, e isto é uma vergonha com que nos devíamos preocupar. Muito, mas muito mais do que com o distante Estado Islâmico… 

PS: Parece que só combinando as palavras Islão e Radical se consegue chamar a atenção das pessoas. Acho que o assunto merece o "engano".

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

BACKLASH

Ilustração Marco Joel Santos
Ouvir, dizem, é uma virtude. Por vezes, acredito. A capacidade de ouvir outra pessoa com certeza não será a pior das virtudes. Mas mesmo assim, por vezes saber ouvir não passa de um exercício de masoquismo. Terá, com certeza, a ver com a pessoa que ouvimos. E também, em larga medida, com a coerência do discurso que ouvimos. Ouvir algumas pessoas falar é decerto penoso, ou porque já nada têm para dizer, ou aquilo que dizem entra em conflito directo com aquilo que lhes ouvimos noutras alturas, mais ou menos recentes. Ou seja, aquilo que os anglo- saxónicos referem como sendo backlashes, ou seja, o retorno daquilo que se faz ou diz.
E não é por demais evidente que a sociedade portuguesa está cheia destes fenómenos? Pois bem, é só escolher. Quando a crise no GES estourou, tanto Cavaco Silva como Passos Coelho como ainda uma figura tão obscura como inútil chamada Carlos Costa asseguraram ao povo português que uma coisa era o GES, outra, bem diferente, era o BES. Podia confiar-se na almofada de não sei quantos milhões de euros não sei de onde. Até certos comentadores do Eixo do Mal acreditavam ser assim, como a Clara e o Pedro. A realidade desmentiu-os a todos. Mais grave é o facto de que as três primeiras figurinhas que citei terem tido conhecimento de tudo já quase há um ano.
O endeusamento de algumas figuras, que não tive grande pejo em classificar, no passado, como medíocres e representativas do estado triste a que esta nação chegou, por parte de boa fatia da nossa excelsa bancada de comentadores económicos e políticos, havia de chegar ao ponto BACKLASH. Zeinal Bava, por exemplo, um dos grandes gestores portugueses, que se revelou, afinal, como o coveiro de uma das maiores empresas portuguesas, laboriosamente construída ao longo de décadas pelo Estado português, a PT, ou o senhor mais que tudo e todos Ricardo Salgado mais os primotes, que destruíram o BES. Não é que as pessoas que os bajulavam e endeusavam agora pretendem sempre os terem detestado, e terem sempre avisado para a sua fraca qualidade?
Soares dos Santos afirmou, alto e bom som, que detesta o investimento chinês em Portugal, que não traz coisíssima nenhuma. Não explicou que coisíssima traz a Portugal pagar os impostos sobre os lucros da sociedade a que preside ao estado holandês. Por outro lado, afirma ainda que Portugal tem de deixar de ser uma aldeia fechada para ser uma economia aberta ao mundo. Não explicou como impedir o investimento chinês numa economia aberta. Diz que não consegue transferir pessoas que tem a trabalhar na Polónia para cá porque o corte na qualidade de vida dessas pessoas seria, por via fiscal, incomportável. Não explicou porque razão não os compensaria para evitar esse corte. Afirma que Portugal precisa de mudar a sua estratégica política, mas não explica porque razão gostaria de ver perpetuados no poder os partidos que gerem os destinos do país há mais de 40 anos.
Passos Coelho afirma - com toda a razão, diga-se - que a Constituição revela exactamente quando se devem realizar eleições legislativas, e que por essa razão, não entende os que clamam por eleições antecipadas (eu também não, confesso. Acho que o povo português ainda merece sofrer um pouco mais, pelas escolhas que fez). Mas Passos Coelho esquece que a sua interpretação da Constituição devia ser escrutinada. É que descobrir que este país tem uma Constituição neste momento é descobrir três anos tarde demais.