sábado, 27 de fevereiro de 2021

Dos prazeres do passado e das saudades do futuro

Ilustração Marco Joel Santos

Do passado guardo os prazeres, do futuro guardo as saudades.

Não é uma má vida viver. Como costumo dizer, o Dark Side é a história da nossa vida, e é uma história triste. Mas entre acordes e recordações, continuamos a ter uma vida que contar. Todos temos uma vida que contar. Nesta altura, depois de tantas provações de doença à mistura com retiros obrigatórios, todos pensamos que de facto temos vidas para contar. E temos. E temos.

Do passado guardo os prazeres. E todos temos prazeres que recordamos com deleite. Provavelmente o maior prazer do passado foi mesmo o de partir, e depois o de chegar. Não partir de um sítio específico, ou o de chegar a um local determinado. Mas antes o prazer de partir apenas, e o prazer de chegar somente. Mas é apenas isso? Partir e chegar? Claro que não é apenas isso.

Houve alturas em que parti para grandes destinos, e que prazer tirei dos destinos que escolhi! Mas sempre que regressei, igualmente retirei o prazer do retorno à zona de conforto, do regresso a casa. E não é que a nossa casa é tantas vezes o nosso local preferido no universo?

Mas tenho saudades do futuro, por certo. Tenho saudades do momento em que voltarei.

Por força das circunstâncias, desde há seis anos que não viajo verdadeiramente, há mais de seis anos que não regresso aos meus locais, às minhas cidades, aos cheiros, cores e matizes que amo profundamente, às gentes que toleramos e aprendemos a amar também. E tenho saudades desse regresso, não a dois como no passado, mas a três no futuro. Bem sei, porque raio deixei para a quarta década de vida cumprir o desígnio último da biologia? Não deixei, são outras histórias, outras recordações, não particularmente prazeres. Mas aqui chegado, não mudaria nada. Não, não creio, não mudaria nada. Até porque nada foi minha escolha. Excepto os destinos, e os prazeres.

Mas voltemos às viagens, voltemos às saudades do futuro. Quero de novo partir. Tenho a vaga noção que aquilo que fiz no passado não poderei repetir no futuro. Há que ser responsável, diria. Há uma alminha pequena que não tem culpa das loucuras dos pais, por isso, "vai com calma". Mas quero aventurar-me novamente, ir El Khalili fora numa noite cálida, desembarcar de comboio naquela estação do lado de cá do rio, na sombra das três senhoras, deixar-me navegar indolentemente rio acima, explorar Karnak. Quero perder-me novamente no Grande Bazar, atravessar o Bósforo, comer milho assado em Besiktas ou creme de arroz na Taksim. Quero poder trautear a música do Indiana Jones enquanto percorro o corredor de Petra, sentir as águas quentes do Mar Morto na pele, comer humus e pão ázimo a sair à sombra de uma parreira, de preferência sem ouvir os tiros do outro lado da fronteira. Quero ver novamente as Taurus e as praias do Egeu, admirar a bela silhueta do Ararat, meditar em Kairouan, perder-me em Fez e comprar relógios genuinamente falsos em Éfeso ou Marraquexe. Ver a Cúpula novamente, nem que seja de novo ao longe.

É deste futuro que tenho saudades. De ir, mas também de levar. De aprender, mas também de ensinar coisas sobre os locais que estudei com tanto prazer. E devo dizer que já me contentava com uns dias em Sevilla a emborcar cañas, pistos e colas de touro, à vista da Giralda ou sentado numa ruela do bairro mouro...

Há mais futuro para se ter saudades. Muito mais. Mas para já é este o futuro que mais saudades me deixa. Porque de resto... casa é o meu local preferido no Universo, onde até estão as minhas pessoas preferidas. Um dia destes partimos e regressamos. E convertemos saudades em prazeres.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

terça-feira, 4 de julho de 2017

Queres? Então pega lá!

Serve isto para que as pessoas que defendem certas ideias pacóvias e provincianas pensem duas vezes antes de falar. Se calhar não serve para nada, até porque se essas pessoas falam sem pensar muito mais falam sem ler. Aliás, muitas delas não sabem ler. Embora saibam juntar letras.
A primeira ideia que quero referir é uma daquelas que toda a gente concorda. Ou quase. A de que "o Estado é como uma empresa". Trump governa o Estado, nos EUA, como uma empresa. Basta?
A segunda ideia é ainda mais disseminada: "É preciso menos Estado e melhor Estado"! Tomem lá Pedrogão Grande, peguem Tancos. Menos e melhor. Não era o queriam? Temos pena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

AINDA HÁ DOIS ANOS ERAS RICO


Impostos são tão antigos quanto o sedentarismo, e tão certos como a morte. É daquelas coisas que nunca se desejam mas sempre acontecem. Dito isto, há que distinguir entre impostos bons e impostos maus, do ponto de vista do simpaticamente designado contribuinte. Assim, os impostos maus são aqueles que temos de pagar, os bons não existem. Já do ponto de vista da AT, impostos bons são todos os que se recebem, os maus não existem. Conciliar estas duas posições é impossível, e está assim provado por diversos estudos de académicos reputados que me escusarei a recitar ou sequer nomear. Mas devem existir ou, por falta de interesses que paguem os estudos, deviam existir. Se calhar não existem. Não sei, nem interessa.
                O anúncio de um possível novo imposto pôs o país político a ferro e fogo. O imposto sobre o património imobiliário cujo valor seja superior a um milhão de euros, ou meio milhão, ou qualquer outro número com muitos zeros. Indigna-me este imposto. Indigna-me que alguém pense em tributar património. Além do mais, considerar como rico alguém que tem uma casa de um milhão de euros é, nas palavras dos “desobrigados”, abusivo. Porra, qualquer um de nós tem uma casa de um milhão de euros! Toda a classe média portuguesa mora em casas de valor, pelo menos, de um milhão de euros. E isto de tributar a classe média tem de parar!
                Quer dizer, andam aqui pessoas a poupar dinheiro para um dia ter uma casa de um milhão de euros e agora ainda tem de pagar sobre o milhão que poupou? É uma pouca-vergonha, senhores – é o que é! Uma vida inteira de trabalho para se ter algum conforto e, logo a seguir, pimba, imposto! Não há direito! Como explicar ao homem do lixo, ao pescador, ao vendedor de castanhas, ao mecânico, ao recepcionista, ao jornaleiro, ao empregado de limpeza, ao pedreiro, ao estucador, ao cofrador, ao atendedor de posto de combustíveis, ao operário fabril, e a tantas outras pessoas de ambos os sexos que têm a possibilidade de juntar vários milhões de euros ao longo da vida, que o milhão de euros que pouparam vai ser tributado na forma de imposto sobre a sua casa, não própria nem de férias (uma 3ªcasa, portanto)?
                Haja, pois, pessoas que defendam estas pessoas que juntam ao longo da vida uns escassos milhõezitos de euros, esses pobres de classe média portuguesa, que além de tudo descobriram o milagre da multiplicação dos peixes e pães que dizem ter sido preconizado por Jesus Cristo, gente engenhosa que consegue de salários de 500 euros fazer vários milhões! Haja quem defenda estas pessoas – e há. Provavelmente aquele que há uns dois anos defendia que outras pessoas, os ricos, com patrimónios acima de um milhão de euros, pagassem mais impostos – palavras que o vento levou, pois coragem para isso sempre faltou, ou de outra forma choveu. Mas há dois anos, pessoas com um milhão de euros eram ricas. Hoje, são pobres de classe média e diligentes aforradores que toda a vida pouparam. Ou um outro capítulo da “desobrigação”.
E se fossem gozar com o membro sexual masculino, significação brejeira da palavra caralho, que antes designava o cesto da gávea das saudosas embarcações dos Descobrimentos?

sexta-feira, 24 de junho de 2016

EUROSÃO

Desenho Original de Marco Joel santos
A Grã-Bretanha vai sair da União Europeia. As consequências, dizem, vão ser tremendas para os súbditos de Sua Majestade. Piores serão ainda para todo e qualquer estrangeiro apanhado nas ruas britânicas. A União Europeia continuará o seu caminho impávida e serena perante este pequeno revés. Os bifes é que as vão pagar.
            As reacções de um lado e outro do Canal são do mais cómico que já vi. Tendo em conta aquilo que se escreve todos os dias por aí em jornalecos, e se opina frequentemente em canais televisivos de duvidosa índole, já me ri um bom par de vezes hoje. A verdade é que fui dormir com a vitória do tá-se bem e acordei com a vitória do fuck off.
            O UK, e que bela sigla é esta, votou pela saída da EU. Note-se – VOTOU. Não foi um processo decidido por nenhum político, nem sequer pela rainha de Inglaterra. Foi decidido pelo voto do povo. Que glorioso é o sentido democrático de todos quantos acham “triste”, “racista”, “precipitada” e outras coisas até bem piores, esta decisão do povo britânico. Que lindo, sermos nós a qualificar aquilo que um povo inteiro decidiu. Que superiores somos, que moral elevada temos, quão excelsa é a nossa opinião, o quanto somos os mais sábios dos mortais! Hoje, quase toda a gente esqueceu, neste país, que mora no cu da Europa, na latrina alemã, onde os alemães só aparecem para fazer merda, e que esta Europa, que ainda ontem era um massivo directório pouco franco – muito alemão, hoje é o paraíso na Terra e que os ingleses, afinal, é que são os maus da fita. Adivinhem: provavelmente estão-se marimbando para o que deles dizem. Nós é que somos os que estão sempre preocupados com o que de nós dizem os outros no estrangeiro, não eles.
            Qual o receio dos britânicos? Voltar a tempos antigos? Ao isolacionismo proporcionado pela sua insularidade? Que a sua economia baqueie e o reino mergulhe numa crise nunca vista? Talvez. Longe vão os tempos do Império Britânico, pelo que agora são só mais um pequeno país na pontinha de um pequeno continente chamado Europa. Desenganem-se. Assim tivesse Portugal um décimo da influência britânica no Mundo… e qual o receio dos europeus, afinal? Que tenha desaparecido da EU o único país europeu que sempre pagou para a Europa mas nunca recebeu? Ou que a economia britânica baqueie e arraste parte da sua? Desenganem-se, não há economia europeia, só há economia alemã. Não perceber que o projecto europeu falhou, que aprofunda diferenças, atiça ódios, lança radicalismos e tentar agora acusar os britânicos disso não é ingénuo. É, pelo contrário, de má-fé. Falhou. Move on.
            A legitimidade da decisão, como já referi, é do povo britânico. Não de uma comissão europeia comandada por um luxemburguês despedido por corrupção constantemente em estado etilicamente debilitado, em que ninguém votou e que ninguém conhece, colocado na função por jogos de conveniência. Não foi decidido por radicais de esquerda ou de direita, pois 52% de um povo não pode ser radical. O reino votou massivamente na saída, enquanto Londres votou para manter a City a funcionar e os escoceses votaram contra os ingleses. Nada de novo, vindo do país que está de olho no petróleo do Mar do Norte, pretendendo-o como propriedade exclusiva dos seus quatro milhões de habitantes.

Cada um tem as suas razões. Quem votou pela saída não votou por ser racista ou xenófobo, pois a zona com mais imigrantes votou pela permanência. Não votou porque lhe apeteceu agora dar um piparote na política europeia. Votou porque decidiu assim, votou de acordo com aquilo que tinham e sempre tiveram no seu país e que a UE paulatinamente tem vindo a retirar – serviço universal de saúde, pensões, etc. Mas, mais que tudo o mais, VOTOU! Quando foi a última vez que vocês, tristes profetas da desgraça alheia que não olham a calamidade que se vive no vosso seio, aqui, em Portugal, quando foi essa última vez que votaram para decidir o destino do vosso triste país? Grow up!

PS: texto para o desenho original de Marco Joel Santos

quarta-feira, 1 de junho de 2016

UM FELIZ DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Dia Mundial da Criança, dia 1 de Junho de 2016. Um dia celebrado por muitas crianças e mais ainda por muitos, demasiados adultos. A verdade é que os dias instituídos para nos sentirmos alegres, alerta, apreensivos ou qualquer outra coisa são dias de hipocrisia. Quem tem um filho pequeno não precisa que lhe lembrem que existe um Dia Mundial Da Criança. Mal vai se todos os dias não são dias da criança. Todos os dias são dias da criança.
O que faz com que os nossos filhos sejam especiais face às demais crianças é o facto, simples, de serem nossos filhos. Esquecemos que isso normalmente é norma corrente em todo o mundo, e seja o filho de um americano, de um português, de um russo, angolano ou sírio, esse filho é sempre especial aos olhos dos seus pais. O resto é conversa furada. As crianças, de forma geral, têm os mesmos comportamentos em todas as partes do mundo, aprendem todas a caminhar, a falar, a escrever, a correr e a jogar à bola – pelo menos os meninos.
Comemorar o Dia Mundial da Criança quando, por bestialidade humana, milhares de crianças – sim, dessas especiais, filhas de alguém, dessas que aprendem a caminhar e a falar e a jogar à bola – se afundam silenciosamente no Mediterrâneo, muitas vezes acompanhadas pelos pais, outras ainda na mais completa solidão da sua última viagem, com dois ou três anos de existência, por vezes meses… fica bem a qualquer europa. Por isso, tenham um excelente Dia Mundial da Criança.

sábado, 23 de abril de 2016

A RIDÍCULA PROPOSTA DO BLOCO DE ESQUERDA



Ilustração Marco Joel Santos
            Muito se falou da proposta do Bloco de Esquerda de mudar a designação do Cartão de Cidadão para cartão de Cidadania. Na verdade, muitos homens falaram. E muitos homens escreveram. Ouvi e li o que tinham a dizer sobre o assunto poucas mulheres. O que não deixa de ser interessante quando a proposta visa, essencialmente, não discriminar as mulheres. Se calhar devíamos, neste caso, ouvir mais mulheres. Sei lá, se calhar até têm opinião e a gente não sabia disso…

            Seja como for, a proposta é ridícula. Mudar a designação de um cartão não protege a identidade feminina ou masculina do seu portador ou sua portadora. A culpa é da língua. O português é uma língua difícil, arcaica, descritiva. O português, ou língua portuguesa, não vá alguma deputada do BE sentir-se ofendida por falar português, discrimina género em quase tudo. O inglês, por exemplo, não tem esse problema, pois um citizen feminino é igual a uma citizen masculina, ou vice-versa, que este assunto dá para confundir. A mesma palavra aplica-se ao feminino e ao masculino e designa, no geral, os adeptos do Manchester City.

            Ora acontece que, em Portugal, cidadão é uma palavra que, para algumas pessoas do BE, não se aplica às mulheres. Claro, têm razão. As mulheres são cidadãs. São diferentes. São cidadãos, mas femininos. Não são portugueses, são portugueses femininos, o que, logo, os torna algo especiais. Mesmo assim, tenho arrepios quando relembro a forma cínica que cavaco utilizava para começar os discursos, “Portugueses e portuguesas”, em vez da solenidade rígida mas empática do General Eanes quando começava com “Portugueses” apenas.

            Isto pode ir longe. Logo, assim de repentemente, lembro-me das Lojas do Cidadão. Nunca percebi porque se chamam assim, já lá fui algumas vezes e nunca consegui comprar um cidadão. Se calhar fui ao local errado e devia ter ido a uma qualquer sociedade de advogados. As Lojas do Cidadão terão de se chamar Lojas de Cidadania. O que piora as coisas. Se nunca lá tinha comprado um cidadão (ou cidadã), muito dificilmente comprarei cidadania, a julgar pela falta dela da generalidade das pessoas que lá se amontoam. Mas nem só de cidadãos vive o homem. E os beneficiários e beneficiárias? Também teremos de ter um cartão de Beneficiária. E cuidado com os mais iletrados, porque aí a coisa piora. Não é pouco usual as pessoas mais iletradas se referirem aos homossexuais como “homens sexuais”. Piorou, porque nunca lhes ouviram a expressão “mulheres sexuais”. Primeiro, porque para grande parte dessas pessoas uma relação homossexual entre mulheres é impensável e segundo porque, para queles que assim não pensam, é mais fácil dizer que “batem pratos”. Que é uma expressão extraordinária que não quer dizer absolutamente nada.

            Se pensarmos ao contrário, as coisas também podem ir longe. Não devemos poder mais dever dinheiro às Finanças, se formos homens. Queremos o direito a dever também aos Finanços. E se forem finados, melhor, pode ser que esqueçam a dívida. Cuidado com a palavra “pessoa”. É feminina e os homens podem querer não ser tratados por pessoas, mas antes como indivíduos. Assim ficaria pessoas para as mulheres e indivíduos para os homens. Os homens podem querer também não serem incluídos na Humanidade, já que a palavra é feminina. Obviamente, as mulheres podem não querer igualmente pertencer ao Homem quando a palavra é utilizada para designar a raça humana.

            Os livros de História têm de ser todos mudados. Não pode haver mais a referência ao Homem de Cro-Magnon, pois também devia haver mulheres de Cro-Magnon. O Homem não apareceu em qualquer altura da pré-história, pois a mulher também deve ter aparecido mais ou menos na mesma altura. Considerando os atrasos mais típicos das senhoras, deve ter aparecido dez minutos depois. Cuidado com expressões paternalistas como “os putos”. Pode haver meninas no grupo e quererem ser tratadas por putas. Nos hipermercados, teremos de ser mais criteriosos e pedir no talho 1 kg de carne de porco ou de porca, de vaca ou de boi, de peru ou de perua, de frango ou de galinha.

            É óbvio que a proposta é ridícula. Mas há 150 anos, uma mulher ter direito a voto era ridículo. Na verdade, em Portugal, só votava quem, nessa altura, tivesse suficiente fortuna pessoal comprovada, o que hoje seria ridículo. Há 50 anos apenas, era ridículo um preto entrar pela mesma porta do autocarro que um branco, ou sentar-se nos mesmos bancos, em países tão diversos como a África do Sul, Portugal ultramarino ou os EUA. Era ridículo, há quinze anos atrás, pensar que poderíamos publicar detalhes da nossa vida privada para um público de milhões de pessoas. Tudo isto era ridículo. Era ridículo, em Portugal, noutros tempos, falar de política em público, e até em privado. Era ridículo uma mulher conduzir, era ridículo uma mulher ser sequer advogada ou militar.

            Por outro lado, era usual, em Portugal, até há bem pouco tempo, atirar lixo para o chão, fumar em locais públicos fechados, bater em crianças que não nos nossos filhos ou não colocar o cinto de segurança.

            A cidadania faz-se de pequenos ridículos. Tudo o que fazemos hoje numa sociedade avançada pareceria ridículo aos nossos antepassados. Trabalhar pareceria ridículo a um aborígene, ter eleições pareceria ridículo a D.Afonso Henriques. Na verdade, tudo é ridículo. Mas nós fazemos isso tudo. Mais um ridículo não nos faz mal nenhum. Mas que é ridículo, é. Principalmente ridículo. Ridícula não sei se é, não ouvi ainda nenhuma mulher pronunciar-se. Mas também é certo que nós, homens, é que sabemos o que é bom para as mulheres. E isso não nos parece ridículo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

COUNTDOWN

O Banco de Portugal afirma a pés juntos que está atento à questão do BANIF e os depósitos no banco estão seguros. Confio em Carlos Costa, é daquelas personagens que me inspira confiança e que me assegura que este tipo de questão será com toda a certeza tratada da melhor forma.
Outra certeza que tenho é que o cavaco ainda não se pronunciou sobre a situação, e ainda não disse que podemos confiar no BANIF. Portanto, e à partida, tudo correrá pelo melhor.

Só não sei para quem.

Entretanto, e só pelo sim, pelo não, façamos a contagem decrescente para o fecho do Banco e mais uma carrada de gente enganada constituir mais um movimento de lesados.

10... 9... 8...

P.S.: o gajo da Guiné não tinha salvo o banco aqui há um anito? Ou tirou tudo de lá para fora para pagar o ordenado ao JJ?

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A CAVAQUEIRA

Ilustração Marco Joel Santos
O que retenho da noite das eleições legislativas são já apenas fogachos com uma intensidade pouco moderada, confesso. Lembro-me de todos se congratularem com a baixa abstenção, nas eleições legislativas mais abstencionistas de sempre. Lembro-me da festa amarela na sede da coligação, e derrota imensa de António Costa. São já sensações passadas que se apagam perante os resultados e, sobretudo, acontecimentos pós-eleitorais.
            Confesso que o meu nível de desencanto com os resultados eleitorais foi tal que me mantive apenas dormente e sem dar grandes opiniões sobre as deambulações de Passos e Costa para formarem um governo. Mas tenho uma opinião. E é apenas uma opinião e é minha.
            Enquadrando a opinião, tenho de começar por dizer que sou comunista. Sou marxista, embora pouco leninista. Votei nesta eleição como já votei em muitas eleições, na Coligação Democrática Unitária, liderada, como se sabe, pelo Partido Comunista Português. Não sou comunista porque é moda, nem porque me convém nem porque sou “comodista e não comunista”, como dizem algumas bestas fascistas que por aí andam. Sou marxista porque li Smith, li Landes, li Marx. E preferi, de longe, Marx. Por isso, sou comunista por convicção ideológica e não por qualquer capricho momentâneo da política portuguesa ou comportamento de cata-vento. Este é o enquadramento pessoal.
            Quanto ao enquadramento institucional, lembrem-se das palavras de Cavaco. Só daria posse a um governo maioritário. São palavras dele, não estou a inventar nada. SÓ dá posse a um governo estável e maioritário – relembro. Tudo o resto é o que conhecemos.
            Antes de mais, quem ganhou as eleições foi quem teve mais votos. A coligação Portugal à Frente, que deve ser chamada a formar governo (se consegue ou não formar governo maioritário, logo se verá). Quem perdeu as eleições foram todos os outros. Claro que isto dito desta forma parece a coisa mais simples do mundo. Mas não é. Na verdade, a coligação Portugal à Frente perdeu uma maioria clara que detinha antes das eleições (52%) e detém agora cerca de 38% dos votos e menos uma catrefada de deputados. O PS foi o principal derrotado das eleições, que seriam as mais fáceis de vencer desde sempre em Portugal. Não conseguiu vencer nem chegar perto sequer e, aliás, perderia para o PSD se este concorresse isoladamente. Mesmo assim, ganhou votos e deputados face às eleições de há quatro anos e meio. O BE perdeu as eleições mas duplicou tudo o que tinha ganho (ou perdido) há quatro anos. Ameaça tornar-se um partido de verdadeira vocação governativa. O partido em que votei manteve os deputados que já tinha e ganhou meia dúzia de votos.
            Perante este cenário, o que fazer? Bem, Cavaco não pode dar posse a um governo PaF. Devemos lembrar-nos que para se ser mais honesto que Cavaco tem de se nascer duas vezes. Se der posse a um governo PaF, fica afinal provado que Cavaco é apenas mais um desonesto, um mentiroso como muitos que grassam no seu partido, o BPN, ou outros partidos. Mas pode Cavaco dar posse a um governo de esquerda? Na minha opinião, pode. A um GOVERNO de esquerda, não a um governo do PS com acordos à esquerda. Isso seria o mesmo que dizer que hoje temos governo, amanhã pode ser que não. Lembram-se do irrevogável Portas? Pois, pode acontecer de novo, mas desta vez quem roer a corda não precisa de não ser irrevogável, pois não precisa, se não estiver no Governo, de ter um cargo mais importante do que o “daquela vaca loura arrogante de merda”. E neste caso pode não ser nem uma vaca nem loura nem arrogante de merda. Basta uma das três.
            O que vai acontecer? Na minha opinião, Cavaco vai dar posse ao governo minoritário de Passos Coelho. O quê? Faltar com a palavra? Quem, Cavaco? Pois, isso da palavra era antes das eleições e antes de saber que o Costa afinal é um bocado de esquerda a mais para os gostos cavaquistas. É que a ideia cavacóide era a de empossar um governo PSD/CDS/PS. Que é lá isso de BE e CDU?! A seguir, o governo cai no Parlamento, por força da maioria contra de toda a esquerda. Marcam-se novas eleições, ou agora ou daqui a seis meses, sem problemas. E Cavaco espera dar a maioria absoluta a Passos, com a conivência do burro povo português, que sempre teve e sempre vai ter peninha dos “que querem fazer mas não os deixam”. Vide Sá Carneiro, o próprio Cavaco ou até, em larga medida, Guterres e Sócrates…
            Ora, a esquerda, perante este caminho de destruição da validade eleitoral por parte da presidência da República, só pode avançar com a sua proposta de governo, não com uma proposta de governo PS apoiado pela esquerda, como já disse. Isto porque sabe que o eleitorado premeia quem cai com maiorias absolutas, principalmente o eleitorado mais idoso. E, adivinhe-se, há bué de idosos em Portugal. Só que Cavaco não dará nunca posse a um governo de esquerda que integre elementos do PCP. Do BE, ainda vá que não vá… Agora do PCP, que é lá isso?
            Os argumentos da direita portuguesa contra a presença do PCP num governo de esquerda são do mais engraçado que há. Primeiro, não são um partido democrático! Claro que não, são comunistas. Aliás, devem lembrar-se dessa grande comunista Manuela Ferreira Leite, a que ameaçou suspender a democracia por seis meses. Provado. Depois, os comunistas querem é o poleiro! Estranho, para um partido que foi acusado vezes sem conta de nunca assumir responsabilidades de governação… Aliás, acho peregrino que se diga que “o que Costa quer é ser Primeiro-Ministro”. Passos não quer ser Primeiro-Ministro. Nem sequer concorreram às eleições, nem nada. Além disso, os comunistas dão injecções atrás das orelhas aos velhinhos para eles morrerem. Os comunistas, toda a gente sabe, comem criancinhas ao pequeno-almoço! Ao almoço comem as mães das criancinhas e ao jantar, para não ser indigesto, comem os pais. Depois, se os comunistas estiverem no governo, com quem vão protestar os sindicatos? Ora, a preocupação com os direitos sindicais e laborais dos trabalhadores portugueses, por parte da direita, toca-me profundamente. Descobriram que afinal há sindicatos em Portugal!
            Sabem que mais? O Cavaco vai ter de engolir o sapo. Faça o que fizer, vai ter ou de voltar com a palavra atrás ou simplesmente empossar os inimigos de estado do Cavaquistão no governo. Ou simplesmente, terceira opção, fazer o que faz melhor, ou seja, uma ponta de um corno e o Marcelo que feche a porta, pois depois de ter assassinado o Rio, não lhe falta coragem. Quanto a mim, chega de cavaqueira. Já tenho uma criancinha no bucho, comi uma mãe pelo lanche e agora vou para a sobremesa comer um avô a quem injectei creolina por baixo do sovaco.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O PORTUGAL DESCONHECIDO

Ilustração Marco Joel Santos
           A mais que previsível crise de refugiados que varre as imediações do Mare Nostrum deixou-me, devo confessar, em estado de choque. Não pela dimensão, ou pela intensidade de chegada de navios à Europa. Os refugiados sírios, cerca de quatro milhões e meio deles, enchem desde há muito as ruas de Amman, do Cairo ou de Istanbul. A pequena minoria deles que ousa atravessar o Mediterrâneo ou o Bósforo para se aventurarem na Europa são isso mesmo, uma pequena minoria. A juntar aos sírios, há os nigerianos, somalis, sudaneses do sul ou malianos.
            Só no Cairo, e antes desta vaga de refugiados acontecer, já vivem, na Cidade dos Mortos e arredores, cerca de seis milhões de refugiados, entre palestinianos, iraquianos ou libaneses. Convenhamos que numa cidade com vinte e dois milhões, é obra. Na Jordânia, e antes da guerra na vizinha Síria, já viviam um milhão e meio de refugiados iraquianos e palestinianos. Num país com sete milhões de habitantes. De Jerash vi Deerah, a cidade que viu começar a guerra civil síria. Um ano antes desta começar.
            Por tudo isto, a ideia de ter duzentos ou trezentos ou até meio milhão de pessoas a chegar à Europa não me choca muito. Como dizia Harrison Ford nos Salteadores, sou um cientista, nada me choca. Mas é mentira. Há coisas que me chocam profundamente, não amiudadamente, mas assim como que de vez em quando. E choca-me profundamente a enorme campanha feita pelos defensores e pelos detractores dos refugiados. Distancio-me de ambas as posições, porque sou o que sou: um agnóstico que apenas reconhece pessoas – boas e más – e não religiões ou “raças”.
            A Europa, principal culpada e instigadora de uma guerra fraticida que destruiu por completo a parte oriental da Síria e aparenta vir a destruir o resto, não pode sacudir a água do capote. Tem culpas, enormes culpas, como tem culpas, enormes culpas, no que se passa na Ucrânia, na Líbia, na Tunísia e por esse mundo fora. Colhe agora o que semeou, na sua ganância por mercados e produtos. Mas também não pode, neste momento, deixar de filtrar os que nela querem entrar. É bem-vindo quem vem por bem. E o que é isto de vir por bem? Bem, para mim, é qualquer muçulmano que entenda que me estou literalmente cagando para o que disse Maomé. Pronto, é assim, simples e direitinho. Estou-me cagando para o que diz o Corão, como me estou cagando para qualquer fantasia que envolva naves espaciais, ressurreições do mundo dos mortos e demais contos da carochinha – sim, também essas historinhas de fadas que vêm na Bíblia. E conheço-as muito bem, foram a minha escolha para finalizar o curso – Religião e Cultura. Ora assim se evitam problemas futuros. Lembrem-se do local onde estão e tudo correrá bem. Comecem a querer viver de acordo com a Sharia e a coisa corre muito mal.
            Os defensores dos refugiados não entendem que basta que no meio de meio milhão de boas pessoas apareçam meia dúzia de radicais para que a segurança de todos nós esteja em risco. Se já com os nossos é o que é (lembram-se do alto e loiro Brejvik?), não precisamos de mais problemas com maluquinhos que acreditam em homenzinhos verdes como o do TGV de França. É preciso registar, é preciso investigar, é preciso despistar. E temo que nada disto venha a ser feito. Para os defensores dos refugiados, apenas interessa o lado humano. Mas esquecem-se que eu também tenho um lado humano, a minha família tem um lado humano e bem, até eles próprios, apesar de nunca terem precisado de distinções dessas (bom sinal), também têm um lado humano. E estes lados humanos são para preservar na nossa santinha paz de cantinho à beira mar plantado.
            Já os detractores dos refugiados são outra história. Há-os, pelo que me foi dado ver, de dois tipos, que se aliaram numa causa perigosamente comum. Uns são os extremistas religiosos, mormente evangelistas e demais protestantes, mas também bons chefes de família católicos. E há os de extrema-direita – uma fatia considerável da nossa população, cerca de 40%, embora ninguém queira admitir tal facto. Apareceram as mais díspares notícias sobre os refugiados, a maior parte deles vindas de sites religiosos, anti-semitas (os árabes são semitas) ou de extrema-direita. E tudo foi comprado como verdadeiro, quando na realidade nem 10% seja verdade. Até a notícia de que os refugiados traziam telemóveis – como se o telemóvel fosse um aparelho do demo vindo de outro mundo ou simplesmente um artigo de luxo que seria impensável encontrar num país árabe. Desiludam-se, os árabes são malucos por tecnologia, particularmente por telemóveis. Estranhamente parecidos com os portugueses.
            Vêm também com uma conversa de que se não ajudamos os nossos sem-abrigo não podemos ajudar os refugiados. Até percebo a lógica. Se não há para os nossos, não há para os outros. Aparentemente tudo correcto. O problema é quando vemos pessoas que nunca fizeram uma ponta de um corno para ajudar fosse quem fosse, quanto mais um sem-abrigo, falar assim à boca cheia. Se se enchessem de moscas elas não notariam diferença em relação ao que em que costumam pousar.
Depois a conversa de que aqui querem mesquitas e lá não deixam construir igrejas e outras do género. Porra, é-me indiferente ser acordado pela vozinha irritante do muezin a chamar para a oração ou pela merda dos sinos das igrejas que não se calam (e aquelas aldeias que têm o hino de Fátima a tocar a cada hora?). Por mim, era tudo arrasado, e bem razão tinha o velho Karl quando disse que a religião é o ópio do povo. Mas devo dizer que nos países árabes onde estive, os maiores edifícios das grandes cidades são igrejas (cristãs, também católicas, como em Tunis, mas essencialmente coptas, como na Jordânia, Síria ou Egipto). Aqui em Portugal é que só há uma mesquita. Salvo erro.
            No fundo, o que quero dizer com esta lengalenga toda é que quem vier para a Europa deve adoptar plenamente os valores europeus. Conheço mulheres que na Jordânia nunca usaram sequer um véu e que quando foram morar para os EUA começaram a usar burqa. Por outro lado, não são 3500 refugiados que vos vão tirar empregos (para isso temos um milhão de desempregados prontinhos) ou o pão da boca ou até as vossas ridículas crenças em fantasmas e espíritos do além. Quando acabou a guerra colonial levamos com dois milhões de retornados, uns mais esclavagistas que outros, e não se passou nada. Esta gente é mesmo de um Portugal desconhecido…
            Por fim, dizer o seguinte: se a merda que governa a Europa fosse decente, nada disto estaria a acontecer. Como ninguém se mexe para correr com a merda da banheira, agora aguentem que é serviço.
            PS: e sim, a foto do miúdo afogado chocou-me. Podia ser o meu filho ali. Podia ser o vosso. Pensem nisso e não digam mais merda a esse respeito, por favor. Deixem, pelo menos, as pessoas sofrer em paz.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

EU, TERRORISTA, ME CONFESSO

Ilustração Marco Joel Santos
            Por vezes, a ideia que nutrimos acerca de determinadas pessoas não é a mais correcta. Isso já sabia e não é necessário recorrer demasiado à capacidade de memória para me lembrar de exemplos. Daqueles que conhecemos pessoalmente, é relativamente fácil discriminar os que são genuinamente como os pensamos ou não. Fazemos a seriação naturalmente, baseada no jogo da confiança ganha ou perdida. Já daqueles que só conhecemos pelos media ou pela sua actividade, é mais difícil distinguir os que nos agradam ou não.
            Durante muitos anos, Miguel Esteves Cardoso foi para mim um referencial de fina ironia no tratamento das mais diversas questões, o que só me fez nutrir uma sincera admiração pela sua forma de estar e de, aparentemente, ser. Tanto que, vendo num qualquer escaparate um dos seus últimos livros, o comprei sem grandes hesitações. O palavrão na capa, admito, fez-me aguçar um pouco mais a curiosidade. Li o livro de forma interessada, sempre esperando aquele registo de humor fino e inteligente, de pura ironia roçando o elegante sarcasmo, com que tantas vezes havia identificado o autor nas saudosas Noites da Má Língua. Em vão. Deparei-me com um livro introspectivo, sim, mas pouco interessante e com um tratamento pouco imaginativo dos pensamentos e alusões do autor. Pensei eu que era apenas uma fase má e que tinha tido o azar de o apanhar num mau momento – e ainda penso assim, pois o momento do livro não era dado a grandes lirismos.
            Os artigos de opinião de Miguel Esteves Cardoso sempre me passaram ao lado. Ou por irrelevância quanto ao que se passa neste mundo ou simplesmente, acredito, por irrelevância para aquilo que eu penso. São coisas diferentes que convém distinguir, e provavelmente a menor das culpas será do autor visado. No entanto, este artigo é diferente. E é diferente não porque me vise particularmente, mas antes pelo exercício de boçalidade estéril a que se entrega MEC. Deixo ao critério de cada um procurar saber se está certo ou errado, pois nem isso é o mais importante.
            O importante é como estas figuras, que amiudadamente nos entram pela vida dentro com as suas opiniões, são seguidas acolitamente por muitos outros seres humanos por aí espalhados, que também eles fazem das palavras de um MEC as suas próprias, que apregoam aos quatro ventos como a mais pura das verdades. Ora, no caso vertente, MEC compara os fumadores e utilizadores de telemóvel das esplanadas com terroristas. É o meu caso, e para muitos milhares de acólitos da igreja Mecana, não só para o MEC.
            Aqui estou, então, para assumir a minha culpa como terrorista. Eu, terrorista, me confesso. É verdade que sou pessoa dada a algum recato e aprecio a calma e pacatez do passar dos dias. Por essa razão, vejo sempre como dúbia a possibilidade de descansar ou descontrair numa esplanada de Verão. Mas MEC, quando quer descontrair, quando quer paz e sossego, vai para uma esplanada de Verão. Note-se, de Verão. Não de Inverno ou de Outono, quando estes sítios são de facto aprazivelmente sossegados e contemplativos – pelo menos os que permanecem abertos – mas sim de Verão, quando estão pejados de locais, turistas, emigrantes veraneantes, moscas, cães abandonados que farejam uma magra refeição e ainda de fumadores e portadores de telemóveis.
            Não sou portador de telemóvel nestas ocasiões. O telemóvel é ferramenta de trabalho e pouco mais. À família não se fala pelo telemóvel, visita-se. Aos amigos não se fala pelo telemóvel, convive-se. Se bem que pode dar jeito para combinar qualquer uma das coisas. Falar ao telemóvel em público, no entanto, não é mais prejudicial que falar simplesmente. Ou seja, se estiver numa esplanada posso estar acompanhado – o mais certo - e naturalmente falo. Por que razão MEC se sente intimidado ou incomodado pelas conversas de telemóvel dos outros é para mim um mistério. Logo se juntou uma trupe por essas redes sociais fora a aventar a possibilidade de se legislar o silêncio em esplanadas de Verão e (não sei bem porquê) transportes públicos. Ou seja, passaram estes locais a ser equiparados, por muita gente, a igrejas, hospitais e tanatórios.
            Quanto a fumar, sim, sou terrorista. Porque fumo. E fumo quando muito raramente me sento numa esplanada. Dantes podia-se fumar em todo o lado, agora não se pode fumar em lado algum que tenha tecto e seja de acesso público. Percebo a lógica e ainda bem que assim é. Quando me perguntam à porta do restaurante se quero ir para “fumadores” ou “não-fumadores”, e onde existe essa possibilidade, escolho sempre “não-fumadores”. Porque estou ali para comer e não para fumar. Para fumar, posso sempre ir à esplanada do restaurante – se a tiver. A menos que o MEC lá esteja. Caso contrário tenho de passar de fininho para não incomodar o silêncio sepulcral requerido pelo senhor e ir fumar para o distrito adjacente, pois a distância entre mesas é insuficiente para o olfacto apurado dos buscadores de paz e sossego.
            É caso para dizer que têm tristes casas, estes buscadores. Pois é lá que encontro, normalmente, a minha paz e o meu sossego. Mas somos todos diferentes, e eu até sou terrorista. Não me preocupa estas pessoas me apelidarem de terrorista. É para o lado que durmo melhor. Preocupa-me a febre restritiva que paira nestas cabeças. Preocupa-me o facto de um dia, querer sair de casa e não conseguir fazê-lo sem infringir meia dúzia de leis. Preocupa-me a saúde financeira das operadoras de redes móveis, quando não se puder falar ao telemóvel. Preocupa-me que as pessoas que não querem um fumador na mesa adjacente vão para as esplanadas de Verão de carro, mas não eléctrico.

            Enfim, preocupa-me que estas pessoas vão para o raio que as parta, porque eu não quero que vão. Porque elas são iguais a mim, e eu igual a elas. Com a diferença de elas não serem terroristas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A SUL DO PARAÍSO

Ilustração de Marco Joel Santos
Quando o “não” ganhou no referendo que se realizou na Grécia li e ouvi algumas reacções que me pareceram caídas de um qualquer paraíso cuja percepção se me escapou por um qualquer lapso de raciocínio. Dizia-se que era a vitória da liberdade e da democracia, logo ali, onde ela nasceu.
 Deixem-me esclarecer uma coisa sobre a democracia ateniense (não era democracia em toda a Grécia Clássica, mas sim em Atenas). A democracia ateniense era uma democracia pouco democrática. Votavam apenas homens livres e nascidos em Atenas. Todos os outros – mulheres, estrangeiros e escravos – não votavam. Ou seja, só dez por cento da população de Atenas tinha direito de voto. E mesmo assim, aquilo que se passou na Grécia naquele domingo dia 5 de Julho já havia acontecido em Atenas em tempos muito remotos. Também Dracon, strategos de Atenas, depois de ser eleito, impôs a maior onda de austeridade vista até então, não só em Atenas como em toda a Grécia (o que equivalia a dizer em toda a Europa, pois a Grécia era a Europa, o resto nem paisagem era). Daí o chavão político “medidas draconianas”. Por isso, nada de novo.
Uma semana depois, o próprio governo grego apresenta uma proposta que parecia, depois do não no referendo, absolutamente irreal. Afinal, Tsipras conseguiu transformar uma demonstração de força do povo grego numa demonstração de alinhamento em tudo e mais algum par de botas que Schauble lhe quis enfiar pelo rabo acima. Como sempre disse que iria acontecer inequivocamente. E daqui para a frente, tudo vai correr como é habitual: os gregos a fingir que fazem e a Europa a fingir que não sabe que os gregos não fazem. Tudo na paz dos anjos e mais 82 mil milhões de euros para deitar à fogueira.
Ao contrário de quase toda a gente que escreveu sobre isto, vou focar-me naquilo que ninguém quer saber, mas que toda a gente sabe.
Tsipras e o Syriza são um bando de covardes. Ao contrário do que os seus defensores dizem, ao considerarem aquela malta com os tomates no sítio por enfrentarem Schauble. Não, enfrentar Schauble com a certeza de que vão perder mais uma vez não é coragem, é apenas falta de inteligência. A covardia desta gente consiste numa coisa muito simples: ainda acreditam no Pai Natal. Acreditar que esta UE admite que um governo de esquerda possa governar no Euro é simplesmente ingénuo. Não pode. Apenas dois partidos podem ter governos na UE e esses são a extrema-direita e neoliberalismo. Em que se enquadram os três partidos do arco da governação em Portugal. Não são bons nem são maus, nem os estou a acusar de serem isto ou aquilo. É a realidade.
O Syriza comete o pecado último contra a esquerda europeia, que é o de enfrentar toda esta crise sem a coragem de dar o murro na mesa de forma definitiva e bater com a porta. Sair do Euro e quiçá da UE. Mas isso requer a preparação de um plano B que, por sua vez e manifestamente, requer coragem efectiva. A coragem que, em Portugal, só vejo um partido ter. Não que seja a favor ou contra a permanência de Portugal no Euro. Isso não está em causa (a propósito, sou contra, e sair é quanto antes). O que está em causa é parar de fingir que tudo está bem quando está tudo mal. E isso, nem Syriza nem partido nenhum tem feito. A saída do euro pode ser catastrófica. Ou não. Ninguém sabe, porque nunca aconteceu.
Ora, como pode a saída do euro ser catastrófica para países como Portugal e Grécia, se o próprio Schauble propôs que a Grécia saísse do euro, pusesse as suas contas em ordem e voltasse daqui a uns cinco anos? Bem, se Schauble pensa que um país pode pôr as contas em ordem fora do euro, depois de ter lá estado… se calhar está-nos a escapar alguma coisa aqui. Por outro lado, a proposta de Schauble só pode ser uma de duas coisas: absolutamente revanchista e o supremo castigo para os gregos, se pensa no descalabro financeiro e económico que a saída do euro pode representar. Ou então, o homem é estúpido como uma porta e provavelmente perdeu mais que a capacidade de locomoção no acidente, pois se a Grécia conseguisse melhorar fora do euro, por que razão iria voltar mais tarde…?
Uma saída do euro era a cartada suprema da Grécia, e só poderia ir por aí, se tivesse coragem. Não teve. Nada que me admire muito nestes pseudo-partidos saídos de plataformas disto e daquilo, desde os insatisfeitos aos defensores do caracol. Uma coisa é discutir as coisas entre croquetes e imitações de caviar e outra é pegar o touro pelos cornos. Por isso, a minha opinião é que o Syriza está infestado de uma data de covardes.
O futuro da UE? Não sei. Sei que a Europa é continente da Guerra e do Sangue. Foi aqui que os mais sangrentos conflitos mundiais tiveram lugar. É abusivo pensar que se podem repetir. Mas devemos não esquecer que o principal objectivo da UE foi o de garantir a paz na Europa, ao “orientar” a Alemanha. Com a unificação alemã, passou a ser a Alemanha a “orientar” a UE. Quando a Prússia passou a orientar a Europa, deu-se a segunda guerra continental, a Franco-Prussiana. Quando a Alemanha passou a orientar os eixos coloniais europeus, deu-se a primeira guerra mundial. Quando a Alemanha passou a orientar o “espaço vital” europeu, deu-se a segunda guerra mundial.

E sim, acho que quem deve tem de pagar, mas também quem empresta tem de saber a quem empresta. A Grécia não vai pagar, porque vai desaparecer o pouco que resta da sua economia, e dentro de três anos estaremos todos a assistir a mais uma bancarrota. Dizem que sair do euro agora seria catastrófico para a Grécia. E daqui a três anos? Seria catastrófico porque a dívida está toda em euros, e a moeda que entretanto se arranjaria para circular iria desvalorizar face ao euro, aumentando a dívida todos os anos. Claro que se a Grécia e Portugal e mais alguns que por aí andam saíssem, o Euro iria manter-se forte, não desvalorizaria… Sim, o Pai Natal outra vez… E nós, crentes, sempre dizemos “mas sair era pior”… Pior em quê? Acham que o euro sobrevivia? A forma de reestruturar a dívida é acabar com o euro. Vão ver como as dívidas, de repente, se aligeiram…

terça-feira, 26 de maio de 2015

PROGRAMAÇÃO EM PS++

Ilustração Marco Joel Santos
2015 em Portugal. Quatro anos depois, o resultado que todos sabíamos que teríamos se o país seguisse os caminhos dos “credores”. Um aparte sobre os credores. Quem são os credores? São fundos. Essencialmente, são fundos. Fundos de investimento. Que pagam reformas a pessoas, por exemplo. Entre outras coisas, é verdade, mas uma das coisas que os fundos fazem é pagar reformas a pessoas. Quais pessoas? Essencialmente pessoas que vivem em países sem sistemas que paguem reformas. Simples e eficaz. E assim se explica como alguns andam a trabalhar para outros.
            Quatro anos volvidos, estamos à espera das Legislativas e, naturalmente, do que os partidos têm para nos dizer. Chamam a isso Programas Eleitorais. A arte da programação nunca foi o meu forte. Sempre detestei programar, quer fosse em Pascal, em C++ ou SQL. Nunca percebi para que é que um gestor industrial precisava de aprender a programar. E confirmei que não era necessário, mas – há sempre um mas – a arte de fazer algoritmos por vezes dá jeito. Em teoria, pelo menos.
            O PS apresentou o seu algoritmo. Ainda não é um programa, é apenas um rudimento de um programa. O que lá vem é da responsabilidade exclusiva do PS, não da esquerda. Coisa que dificilmente está a ser entendida. Confundir o PS com a esquerda é como confundir o Mosteiro dos Jerónimos com o Centro Cultural de Belém só porque aparentemente partilham o mesmo espaço. As aparências iludem e as iludências aparudem.
            As iniciativas que o PS decidiu apresentar são de atroz desilusão para quem olhava o partido como uma alternativa à coligação que agora ocupa o lugar de governo do país. As políticas são exactamente as mesmas, e dificilmente um socialista qualquer que o seja pelos ideais reconhecerá qualquer das iniciativas como de cariz socialista. Duas destas iniciativas (acabem lá com a palavra medidas, está mal empregue) são particularmente significativas. A obrigatoriedade de obter uma maioria qualificada de dois terços na AR para aprovar obras públicas (qual o limite do valor da obra que determina esta aprovação?) não passa de uma ponte para um primeiro pacto de regime com a coligação, um dos tais “consensos” de que fala o presidente da República. PS com um olho no burro e outro no cigano, e deixo à imaginação de cada um decidir quem será o burro e quem será o cigano, mas penso que nem burros nem ciganos mereciam tal sorte.
            A segunda iniciativa que destaco é a intenção do PS, caso venha a ser governo, de utilizar 1400 milhões do Fundo de Estabilização da Segurança Social para a reabilitação urbana. Ora, estou farto disto, sinceramente! Já há muitos anos, desde os malfadados governos do actual presidente da República, que não há respeito pelo beneficiário. Mexe-se nos dinheiros descontados por entidades patronais e trabalhadores para assegurar prestações sociais para os mais diversos fins como se fosse dinheiro de impostos. Ainda recentemente, e pela mão da actual ministra das Finanças, foram estes dinheiros absolutamente depenados em perdas com Credit Default Swaps. Outros governos lançaram estes fundos na bolsa para salvar empresas e fundear aquisições de empresas por outras empresas. Aquilo que foi criado para apenas ser movimentado para pagar reformas e subsídios de desemprego, de forma redistributiva, parece ser agora o dinheiro de bolso de qualquer governo. E se fossem brincar com as pilinhas deles, era bem melhor. Com o meu dinheiro é que acho mal. E se o PS acha muito bem mexer no último dos últimos dos dinheiros dos reformados deste país, presentes e futuros, para novamente financiar meia dúzia de amigos de grandes construtoras… Olhem, eu acho mal.
            Muito mais diz o programa do PS. Liberaliza ainda mais, à boa maneira liberal, o “mercado” de trabalho, ignorando totalmente que desde que as leis do trabalho se começaram a liberalizar, ainda no tempo do actual presidente da República, nunca o desemprego parou de subir. Mas como o PS pretende mais emprego, penso que deve querer seguir a política da coligação e arranjar emprego aos portugueses, desde que seja no estrangeiro. Os cortes são para repor, mas de forma gradual e se calhar. Eu até penso que devemos levar a expressão à letra e que o PS deve querer repor cortes e não salários.
            Por sua vez, o PSD vai reagindo com a indignação habitual das suas gentes, sempre ao lado dos bons usos e costumes, e dos pobrezinhos mas honrados. Quer o PSD que o PS sujeite o seu programa à Unidade Técnica para que o povo português saiba que o PS está a prometer flores e vai dar espinhos. Para um partido que foi eleito com as promessas com que foi eleito, nenhuma delas cumpridas, e que nunca teve um programa sujeito a qualquer escrutínio, digamos que é preciso ter não lata, mas um grande bidão na cara. Talvez até um contentor do Porto de Leixões na tromba não seja mal pensado. Mas o PSD aprende, e a coligação também… não é que a ministra das Finanças até já adiou a apresentação de grande parte do programa da coligação para… depois das eleições? Sim, é melhor não prometer nada, é até melhor que nos passem um cheque em branco, porque o nosso trabalho fala por nós. E fala. Não fala é o que imaginam. Mas a capacidade de muita gente de descer à terra e ver a realidade miserável, ao nível do terceiro mundo, em que se encontra este país não é existente. Até a Isabel Jonet, prevendo mudança de ares por S.Bento, agora diz que se calhar a fome em Portugal é alarmante… Pensem nisto.
            Outro sinal do mais puro desnorte que grassa no governo (que já vi que partilham com o PS) é o facto de pôr a ministra das Finanças a falar de um assunto com que nada tem a ver: Segurança Social. A esfera de decisão de uma ministra das Finanças, em Portugal, pode incidir sobre tudo e mais alguma coisa nas decisões do Governo, menos numa: Segurança Social. Os fundos da Segurança Social não fazem tecnicamente e deviam nunca fazer parte do que gere qualquer ministério. A Segurança Social gere os fundos de forma redistributiva, nada mais. Mas sabemos que, tristemente, se faltar dinheiro em qualquer lado, a Segurança Social cobre. Além de imoral é, pela Lei vigente, ilegal. Mas ninguém vai preso, e quem se arrisca a perder milhões da Segurança Social no casino financeiro arrisca-se também a ser ministra das Finanças.

             Em suma: mais do mesmo. Entre PS e PSD a diferença é uma letra, o D. O que quer dizer o D? Não sei, quer-me parecer que PSD deve querer dizer Partido do Seu Dinheiro e PS deve querer dizer Partido dos Seus. Quanto ao CDS, bem, já há muito que não existe, ou pensavam de outra forma? A extrema direita portuguesa foi englobada pelo PSD, nem faz sentido haver um partido de extrema direita em Portugal… Extrema direita no sentido parlamentar, bem entendido…

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A PÁSCOA NO ANO DA MORTE DE J.C.

Ilustração Marco Joel Santos
Mesmo durante as festas da Páscoa, as ruas de Jerusalém encontravam-se, àquela hora, desertas. Já havia findado o burburinho das multidões que se arrastavam, em passo lento ou em longas filas, em direcção ao Templo. Às vozes cansadas juntavam-se os barulhos dos animais que acompanhavam os devotos, destinados ao holocausto. O povo de Deus acorria de todas as partes do mundo judaico à cidade santa para a maior festa religiosa de Israel. E desde que Herodes, o Grande, havia reconstruído o Templo, a festa havia ganho redobrada fé.
            Jerusalém não era um sítio grande para se percorrer, mas era uma cidade grande, a maior daquelas partes, repleta de becos e ruas estreitas, alçada na sua perene colina, brilhando com o Templo à vista de todos. Por isso, decidira pôr as mãos à obra bem cedo, logo após a última hora. Tinha muitas casas para visitar, muitos muros para transpor, e muita mercadoria na qual pôr as mãos.
            Decidira evitar as patrulhas romanas. Não que os romanos se interessassem pelo que andava a fazer. Tinham coisas mais prementes a tratar e tratavam delas com eficácia. Ainda poucos dias antes tinham posto as mãos ao Barrabás, um dos líderes dos revoltosos, e preparavam-se para o executar com requintes de crueldade. Aliás, como era hábito nos romanos. Eram extremamente tolerantes para com a religião e a sociedade que conquistavam, mas não toleravam minimamente afrontas à sua autoridade. Para além do mais, os romanos não tinham a sensação de que a Palestina fosse uma terra que verdadeiramente valesse a pena, apenas a conquistaram para completar a sua colecção de costas mediterrânicas. Em todo o caso, poderia topar com alguma patrulha com zelo mínimo e o fizesse passar uma temporada valente nos calabouços do Pretório.
            Decidira também evitar as patrulhas dos guardas do Templo e do Sinédrio, que eram bem mais zelosos que os romanos, particularmente em tempo de Páscoa. E, pelas suas contas, já pouco mais de uma hora faltaria para o nascer do sol. Já lhe doíam as mãos de tanto trabalho, doíam-lhe as pernas de tanto calcorrear e saltear. Mas tinha de o fazer, tinha de o fazer. Até ao nascer do sol.
            Esperava que aquela fosse a última casa a visitar naquela noite. Achava que já havia visitado todos os seus objectivos. Saltou um muro e, furtivamente, abeirou-se de um pequeno cercado onde dormiam os galináceos. Procurou, com o olhar já habituado àquela escuridão medonha, o maior volume e, num gesto rápido e eficaz, que lhe vinha já dos tempos de içar o peixe para o barco no Mar da Galileia, apertou o pescoço ao incauto guarda da capoeira. O enorme galo nem teve tempo de cacarejar como uma pobre galinha. O pescoço estalou imediatamente por entre os dedos de Simão.
            Nunca entendera por que raio o JC decidira mudar-lhe o nome. Gostava tanto do seu nome! Simão era um nome poderoso, que inspirava respeito. E ele era um homem de respeito! Um grande pescador, um bom homem. Rude, talvez, mas afável o suficiente para seguir Aquele que um dia o chamou para as aventuras dos últimos três anos! Ah, boas memórias, uma vida aventurosa que estava prestes a acabar! Nunca se queixou das agruras do caminho poeirento, ou das camas de pedras onde dormiu tantas vezes. Mas admitia que a sua situação actual era realmente deplorável. Um vulgar pilha-galinhas, cheio de dores no corpo, de roupas esfarrapadas de tanto roçar-se pelas paredes ásperas das ruas de Jerusalém, um fugitivo na noite, com uma meta quase impossível, mas que finalmente havia atingido. Não que o consolasse muito, mas pelo menos era prova da sua determinação.
            Transpôs novamente o muro, agora para o caminho poeirento e pedregoso que conduzia ao centro da cidade e às ruas pavimentadas. Dobrando uma esquina, foi abordado de surpresa por um grupo turbulento que, por milagre, havia escapado às patrulhas. Um dos homens, inebriado e com bafo de cerveja barata, atirou-lhe:
            - Tu és um dos que estava com o Nazareno ainda ontem, aqui no monte defronte da cidade!
Foi apanhado de surpresa, mas teve a presença de espírito para retorquir de imediato:
            - Não conheço tal homem, estás enganado. Vai curar a puta da bebedeira!
            Era já a terceira vez que era confrontado com aquela acusação naquela noite. E, no entanto, e de repente, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Ficou paralisado de horror perante aquele som fantasmagórico, um som vindo de outra dimensão, um choque completo. O cantar de um galo!
            Foi atrás do som. Correu atrapalhadamente pelas ruas, já pouco importado com as patrulhas. Tinha a certeza de que havia matado todos os galos de Jerusalém! Como era possível que lhe tivesse escapado algum? Mais uma esquina, e vislumbra uma patrulha romana. No meio dos seis guardas, seguia uma figura vestida de branco, de longos cabelos e andar cansado. Ao lado dessa figura, seguia Jesus Cristo. E Jesus parou por um momento, virou-se para Pedro e sorriu-lhe, enquanto mostrava um garboso galo nas suas mãos.

            Pedro não evitou o pensamento: “Podes ser o Filho de Deus, mas agora foste foi um ganda filho da…!”