Domingo, 4 de Março de 2012

PRIMAVERA DE ANGÚSTIAS



No dia-a-dia, na azáfama diária, habituamo-nos a queixar sobre as coisas mais triviais.  É bem verdade que ultimamente temos tido coisas menos triviais que o costume, que dantes não iam muito além da bola e das novelas com um ou outro problema mais bicudo para resolver. Hoje, os problemas são maiores, e enquanto assistimos a uma cavalgada para o abismo, agarramo-nos ao passado e ao conforto da fé para negar a evidência.
No entanto, Portugal é um jardim à beira mar plantado. Mediterrânico a sul, mais temperado a norte, às vezes seco, outras vezes nem por isso, com zonas de deserto e outras desertificadas. É tudo uma questão de manter a fé e a crista levantada. Mas um país onde, cada vez menos, se pode viver. Cada vez menos, mas ainda.
Aqui há dois anos, tive o prazer de voltar ao Médio Oriente. Tenho esse prazer quase todos os anos, mas nessa altura visitamos a Jordânia. Para além das óbvias visitas a Petra, ao Wadi Rum, ao Monte Nebo e Mar Morto, a Jordânia oferece muitos motivos de interesse. Amman é uma cidade bonita, totalmente branca, antiga Filadélfia grega. Tivemos a oportunidade, nas várias noites de permanência na capital, de passear pelas ruas de uma cidade vibrante, cheia de vida, simpática num estilo despreocupado e nada interessado naquele casal de estrangeiros que ali vai.
Dizia eu que há mais motivos de interesse. Desde as imediações da fronteira com o Iraque até Jerash, a maior cidade greco-romana que alguma vez vi na minha vida, em excelente estado de conservação, e toda a zona envolvente, incluindo os castelos cruzados e islâmicos, frente a frente. Trata-se de uma região aprazível, de sombras refrescantes, às margens do Jordão. E onde nos foi servido o mais apetitoso e abundante repasto, ao lado do forno de pão ázimo sempre a sair quente e à sombra das parreiras.
Pode dizer-se que é um risco um casal se aventurar sozinho num país do Médio Oriente, na companhia de dois jordanos (um guia e um motorista), mas a verdade é que o risco é mínimo e de outra forma teríamos de andar de autocarro e não numa confortável berlina com ar condicionado só para nós… Belas sestas. Contudo, apenas a uns 20-30 kms de Jerash (Gerassa em latim – cidade dos velhos – uma história que poderei contar noutra altura), ficam as fronteiras de Israel, Líbano e Síria, e, logo ali, a cidade de Daraa, uma das primeiras que se sublevou ao regime de Assad, na Síria.
Se iria novamente a Jerash, hoje mesmo? Possivelmente não, porque está muito frio por lá – nevou este fim-de-semana – mas apenas por isso. Iria sim, e provavelmente faria as malas num ápice. A guerra civil que se instalou na Síria não merece a nossa indiferença, e fugirmos da realidade não nos leva ao seu conhecimento. Toda a chamada Primavera Árabe pode vir a condicionar as minhas viagens, para os destinos que mais gosto, e que aprendi a amar quase como se se tratasse do meu país. Talvez tenha a ver com a consciência que tenho que foi naquela região que toda a nossa cultura nasceu.
Tenho esperado para ver no que dá esta revolução árabe. Desde as escaramuças na Tunísia e Egipto, às guerras da Síria e da Líbia, passando pela intervenção armada da Arábia Saudita no vizinho Bahrein para prevenir o alastramento aos países do Golfo, tenho esperado. Não teci comentários antes porque ainda não percebi quem e como vai mandar na Tunísia, na Líbia, no próprio Cairo, a luz cultural de todo o mundo árabe. Não sei se quem vai mandar vai ser a democracia ou um bando de milícias armadas em senhores da guerra. Não sei ainda se substituímos ditadores facínoras por regimes democráticos ou por regimes islâmicos.
Mas o que se passa na Síria, e, em boa medida, o que se passou na Líbia, passa os limites de uma espera silenciosa – não comprometida, mas de facto prudente. E deixa-me estupefacto a soberba humana de meia dúzia de sujeitos que aceitam o fardo de serem enviados por uma qualquer entidade superior, religiosa ou laica, para servirem de salvadores das suas pátrias. Assad cabe nesta descrição de um mentecapto que não se apercebe da sua própria mortalidade, da sua impotência para evitar que um dia passe à História como o filho sanguinário de um ditador. Porque Assad nem sequer é um ditador. É apenas o filho de um. E mais cruel que o pai.
Se Kadhafi já era um facínora, se Ben Ali era um corrupto que se aproveitou da obra de Bourghiba, e o mesmo se passou com Mubarak, a verdade é que todas estas personagens não são iguais. Kadhafi era um ditador à moda antiga. Reprimia a oposição, mantinha o país com um nível de vida invejável (para os padrões africanos, note-se) à custa do petróleo – e não, como por aí se diz, matava o povo de fome, até porque a Líbia era destino de emigração de todos os países da África, incluindo o vizinho Egipto – e via-se a si próprio como um semideus que nunca poderia ser derrubado. Ben Ali era apenas um corrupto, que governava a Tunísia de forma indolente e que tolerava uma oposição também ela indolente e pouco expressiva. A crise de 2008 deitou tudo a perder. Mubarak era outro caso ainda. Uma espécie de padrasto do povo, simultaneamente amado e odiado, alvo de anedotas constantes pelas constantes operações plásticas que aos 80 anos o conservavam com uma imagem jovem. Mão de ferro? É certo, mas um ferro que raramente matava e que acabou por abrir o Egipto ao Ocidente e conteve os ímpetos daqueles que querem ver toda a região sob a lei corânica. Enquanto houve pão a bom preço, não houve revolução. Mais uma vez, a crise de 2008 foi determinante.
Todos eles se arvoraram, no entanto, em eternos governantes dos seus países. E aí está a soberba. Além do mais, a soberba. E só pela soberba merecem ser destituídos. Mas não souberam sair, não souberam reconhecer que os seus ciclos chegaram ao fim, não souberam capitalizar aquilo que de bom fizeram pelos seus países para tentar encobrir todo o mal terrível em que igualmente os mergulharam. Já diz a Bíblia que nem só de pão vive o homem. É bem verdade – não há bem mais precioso ao espírito humano que a liberdade. Só ainda não sei se é esse o caso que aqui se prefigura. Sei que não é o caso da Bíblia.
Em todo o caso, Assad é pior que os outros três juntos. E parecia que não fazia mal a uma mosca. Sabe-se – ou aventa-se – das ligações sírias ao Irão e ao Hezbollah, das exportações de petróleo, do turismo que começava a florescer, e relembra-se a pressão a que a Síria é igualmente sujeita, desde muito cedo, pela presença da Nato a escassos kms da fronteira norte, na imensa base de Adana. Em todo o caso, e apesar de tudo isso, a Síria manteve-se um país esguio, muitas vezes neutral perante a opinião internacional, longe dos fundamentalismos iranianos, sauditas, do Hezbollah ou do Hamas – mas com ligações a todos eles. Agora, a verdadeira face do ditador sanguinário é revelada em todo o seu horror. Não pela repressão religiosa, mas sim pela força pura das armas. E ninguém faz nada. Porque ninguém sabe verdadeiramente quem ou o quê pode vir a suceder a Assad. Há, como nas outras revoluções árabes, fundamentalistas à espreita. E ninguém sabe, muito menos o Ocidente, o que vai acontecer depois da deposição certa de Assad. E, importante mesmo, ninguém sabe como vão ficar, no meio de tudo isto, Israel e o Irão. Só se sabe uma coisa – o povo sírio está sofrer e a morrer – e nós sem saber o que fazer.

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

TRATADO DA SONOLÊNCIA

Ilustração Marco Joel Santos
 Tenho muitos anos de formação académica. Desde os seis anos de idade. Sim, desde os seis anos de idade porque nessa altura não havia pré-escola, seja lá o que isso for ou seja qual for a utilidade dessa aberração que teima em se manter obscura para mim. Ora, desde essa idade, penso que o tempo máximo que estive sem estudar foi de três anos, e foi apenas uma vez. Outra parece-me ter sido uma paragem de dois anos.
         Pelo que expus, é natural pois que tenha tido aulas dadas pelos mais diversos tipos de professores. Tive-os severos, autoritários, brandos, interessantes, apelativos, chatos, motivadores e muitos com outras diversas características. Tive um professor que interrompia a aula porque se tinha esquecido de registar o totoloto. Tive outro que era simplesmente aquilo a que chamávamos, na altura, um regador. Era mentirosa como tudo, a moça. Tive professoras bonitas, tive professoras abortos, tive um professor de História que ainda hoje considero um dos melhores que apanhei, fui aluno do extraordinário Júlio Pedrosa e do saudoso Manuel Monteiro.
         Evidentemente que tive aulas em que preferia não estar lá. Por várias razões. Algumas por não perceber simplesmente do que se falava. Em outras, por simplesmente achar que estava a aprender algo de errado, intrinsecamente mau e transmitido como se fosse a base de todo o conhecimento, como Gestão Financeira. Acabei por verificar, passados anos, que afinal eu estava mesmo certo e quem não percebe um caracol do mundo são os professores de Economia e de Gestão Financeira, sem dúvidas os mais arrogantes e mais disparatados de todos. Disparatados porque de facto só dizem disparates e conseguem ser muito bons nisso. Naquela altura, eu era apenas um aluno e já tinha a sensação de estar a aprender algo que não batia – nada – certo. Hoje, tenho quase a certeza absoluta que tudo o que aprendi em gestão financeira ou economia é disparate puro. Baboseiras que filmes admiráveis ajudaram a perpetuar, com os resultados catastróficos conhecidos por todos.
Competência académica à parte, disparates em que se acreditem (ou não, penso que eles próprios não acreditam minimamente no que ensinam e defendem), a verdade é que há professores excelentes e outros atrozes. Há professores que conseguem com facilidade transmitir a matéria e manter o interesse dos alunos e há o Vítor Gaspar. Engraçado como gente que ninguém conhece é sempre reputada como “excelente” académico. Mas a verdade é que se eu tivesse aulas com o Vítor Gaspar – inteligência dele e capacidade de compreensão minha à parte – cortava os pulsos. E sou contra o suicídio – firmemente. O meu cérebro está habituado a trabalhar.

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DOS FILHOS DA PUTA


Ilustração de Marco Joel Santos
É provável que vivamos num país de gente forte. Como aquele do bebé fote e do bebé mago e do bebé que manda o outro bebé fazer-se sexo. Vivemos num país de gente galharda, de heróis inesperados, de muitos salvadores e poucos salvados. Até porque quem precisa de ajuda num país com tanta oportunidade de subir a escada social ou é coxo ou mentiroso, e bem sabemos que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. Não sei se é bem assim, porque conhecia um coxo que corria pouco e eu apanhava-o sem grande dificuldade. Se estivesse bêbado, ainda o apanhava mais rapidamente. Se ele estivesse bêbado, caía para o lado e deixava de ter graça. Por acaso era meu primo afastado e sempre lhe chamaram o “maneta”, coisa estranha para um gajo que só era coxo, mas tinha as duas mãos. Mas o facto permanece que quando nos encontrávamos um de nós estava sempre bêbado, pelo que ou o apanhava facilmente ou ele caía para o lado... Também acontecia defrontarmo-nos à paulada, mas nunca teve grandes consequências, pois ele já era coxo e eu estava bêbado.
Escrevia eu que num país onde as oportunidades para se subir na vida são infinitas não faz sentido alguém pedir ajuda. E essas possibilidades são tantas que só me ocorrem algumas. Subir na vida em Portugal pode ser conseguido através das escadas dos prédios, que é subir à custa do nosso esforço, ou de elevador, que é subir à custa dos chineses. Também se pode subir na vida se nos mudarmos para um andar acima daquele em que vivemos, se visitarmos a Serra da Estrela fora do Carnaval e se as estradas estiverem abertas do Sabugueiro para a Torre, se estivermos realmente perto de um bombista suicida no momento da estupidez, ou até mesmo se viajarmos num daqueles comboios de dois andares que há a circular ao redor de Lisboa. Também podemos subir na vida se dermos o real pacote e entrarmos para a Maçonaria, pois passamos de indigentes a donas de casa com aventais coloridos, coisa que não me atrai grandemente. Também se pode subir na vida se formos para a Opus Dei, mas ouvi dizer que as vergastadas doem como o catano e não estou para aí virado. Não sou Cristo nem Portas.
Por isso não percebo por que razão o Pedro Passos Coelho, que dizem ser primeiro sinistro de Portugal, e um excelente candidato à reencarnação do salvador da pátria, e não se iludam, que não é um rei desconchavado do século XVI desaparecido numa tarde de nevoeiro e com tendências floristas, mas antes um iconomista de Santa C*** Dão, resolveu chamar piegas ao povo deste país. Não entendo. Não é de salvador da pátria que se preze chamar nomes aos que salva. Durante uma operação de salvamento, devemos incutir confiança na vítima, e não chamar-lhe nomes. A menos que a vítima esteja morta, e nesse caso podemos descarregar o vocabulário futebolístico do fim de semana, que poupamos porque o árbitro até se portou menos mal, que ela não leva a mal. Na verdade, já terá levado durante a vida, mas não foi a mal nem a bem. Só porque é uma vítima portuguesa, o mais certo é já ter levado no cu umas poucas de vezes.
Além disso, “piegas” não é nome que homem que se preze chame aos outros. Não percebo. Se o gajo está genuinamente zangado porque alguns portugueses ainda dizem um “ai” sumido aquando da inserção da sua grande glande ideológica no buçal e calejado esfíncter plebeu do dizedor de ais compulsivos, podia enveredar eventualmente por um adjectivo menos colorido e mais másculo, como... sei lá... “Seu merdoso”, ou até talvez “Seu grande Cavaco!”.
Sim, e isto porquê? Porque não há pieguinhas maior em Portugal que o seu pseudopresidente (bate na madeira) e as suas dificuldades com as reformas parcas de 10.000 deles... Aguardo, pois, que na próxima audiência do pseudopresidente ao primeiro sinistro salazarento este último brinde o primeiro com um sonoro “Deixa lá de ser piegas, ò avô mija-para-os-socos cavaquinho!”
Tudo para dizer apenas uma coisa: como é belo este país! Como são corajosos os nossos líderes, que nos avisam que nos vão pôr a viver pior para que possamos viver melhor! Como é lindo e democrático quando as pessoas modestas com ordenados de seis mil euros, fora o que roubam por inerência ao cargo, insultam os mais ricos da sociedade, esses malfeitores dos trabalhadores que auferem o fabuloso salário mínimo ou pouco mais que isso.
Como é bom ser filho da puta neste país! Há países assim. Há países em que é insustentável a leveza dos filhos da puta.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

PORTUGAL AGORA, PORTUGAL DE OUTRORA

Ilustração de Marco Joel Santos
25 de Janeiro de 2012 – Não que Portugal mereça ter uma língua inteira só para si. Não vou invocar a História de Portugal. Todos nós a desconhecemos bem.
Este país provavelmente não merece ter a língua que tem. Talvez os Baptistas americanos, os Polibãs lá do sítio, é que tenham razão – nós falamos muito mal o espanhol, seja lá o que for essa língua desconhecida.
Mas, no fundo, lá estou eu a cair nos maiores vícios portugueses, a auto-comiseração e o auto-flagelamento. Um português que não diga mal de Portugal não é um português decente. É provavelmente um descendente de algum mouro que por cá tenha ficado a arrotear para D. Afonso I, ou então de algum romano mal disfarçado ou até, quem sabe, o resultado de um estranho cruzamento com o chauvinismo arrogante que impera do outro lado da fronteira.
Contudo, pensemos bem. Eu tinha motivos para gostar de Portugal. Tinha, mas sinceramente começam a escassear. Gostava do Portugal onde o Benfica era campeão pelo menos ano sim ano não. Agora há campeões programados.
Gostava do Portugal onde se ia à praia gozar o sol de Verão. Agora, dizem-me que o sol envelhece e que o cancro espreita.
Gostava do Portugal onde se comia decentemente. Agora, há pratos para o colesterol, para a hipertensão e para as hemorróidas, todos a saberem ao mesmo – a palha.
Gostava do Portugal onde as crianças ainda iam todos os dias para a escola. Agora, os carros entopem as ruas em que as escolas recebem os pais que não se esquecem de levar os filhos. Gostava do Portugal em que esses filhos eram mais uns putos que iam à escola. Agora são os reis lá de casa.
Gostava do Portugal em que havia crise constante. Agora, tenho saudades de uma boa crise – bons velhos tempos.
Gostava do Portugal ruidoso de manhã, em que buzinas de automóveis se misturavam com pregões de varinas. Agora, vamos ao Pingo Doce comprar peixe chileno e não se pode buzinar porque não é politicamente correcto.
Gostava do Portugal bonito, aquele que demorava uma eternidade a percorrer. Agora, temos estradas que nos levam a nenhures, estamos em Lisboa em três horas e se formos de Alfa nem para babar um sono temos tempo.
Gostava do Portugal das cidades cheias e vibrantes, da confusão das gentes que as habitavam, das suas ruas sujas e vivas. Agora, moram todos em gaiolas nos subúrbios desenhados a régua e esquadro.
Gostava do Portugal às seis, quando zuniam as sirenes para “arrear” do trabalho e as casas se enchiam de famílias famintas com muito para contar dos seus dias. Agora, não têm hora para chegar.
Gostava de Portugal cantinho da Europa, esquecido por todos excepto pelos emigrantes chegados para um mês de pausa no suplício. Agora, somos apenas periféricos, mas todos nos conhecem.
Gostava do Portugal onde os doentes hepáticos iam para Coimbra e sobreviviam com órgãos portugueses. Agora, morrem em Madrid à espera de órgãos… portugueses.
Gostava do Portugal em que um doente oncológico tinha tratamento a duzentos quilómetros de distância. Agora, ou se gasta no transporte ou no funeral – ou nos dois – em todo o caso nada resta para comer.
Gostava do Portugal dos Presidentes da República que subiam para cima de carros ao som de tiros. Agora, queixam-se das reformas.
Gostava do Portugal dos Primeiros-ministros que se dispunham a visitar localidades em que sabiam não serem bem vindos. Agora, não sabem sequer onde isso fica, apesar de ser em todo o lado.
Gostava do Portugal onde se gritava a plenos pulmões “25 de Abril, sempre! Fascismo nunca mais!”. Agora, anseia-se pelo germinar de um novo Salazar.
Gostava do Portugal onde os estudantes eram a reserva moral do povo e os precursores da mudança. Agora, aprendem economia e gestão financeira nas Universidades.
Gostava do Portugal onde quem tomava estupefacientes era drogado. Agora, o toxicodependente é um doente, e o fumador, um criminoso.
Gostava do Portugal dos gordos e dos doentes coronários. Agora somos todos saudáveis mas estão milhões com stress.
Gostava do Portugal dos restaurantes que cheiravam a comida. Agora cheiram a Harpic.
Gostava do Portugal onde os poetas declamavam na TV. Agora apenas vemos e ouvimos excelsos financeiros e economistas errarem previsões. 
Gostava do Portugal com defeitos. Hoje somos todos perfeitos.
As salas das morgues também são perfeitas.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

ACORDO PORNOGRÁFICO

Ilustração de Marco Joel Santos
25 de Janeiro de 2012 – Foi mesmo assim, com “J”, escrito o mês de Janeiro. Porque não é janeiro, é Janeiro. É um mês, é uma espécie de avô nas datas, e os avós merecem-nos respeito. Tal como as estações do ano, que desde tempos imemoriais traçam os ciclos de vida dos homens, também não são primaveras e invernos. São Verões e Outonos.
Não me queiram tirar o prazer de escrever na minha própria língua. Bem sei que a língua evolui, que muda, que se adapta. Não por decreto, não por acordo. Muda naturalmente, evolui – é a palavra certa – num sentido conhecido, numa direcção suave e elegante. Não porque quem fala e escreve noutros locais deseje ver os seus erros ortográficos legitimados pelo poder económico e financeiro! Não, nunca! A minha língua é a minha pátria – e querem fazer de mim um apátrida. Um pária no mundo das letras.
Não, não me tirem o prazer de escrever no português de Portugal!

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

ANIMALS - PORCOS...

Era manhã cedo, e ele olhou e viu o homem aproximar-se.
O homem que todos os dias, desde que ele nascera, lhe vinha dar de comer.
Era o mesmo homem que para além de o alimentar, lhe limpava a pocilga onde chafurdava todo o dia, lhe mudava a palha onde se deitava, e que lhe dava de beber sem nunca lhe pedir nada em troca.

Ele nunca se interrogou porque é que tinha um tratamento diferente do dos vizinhos.
Às vacas, o homem também alimentava, limpava e mudava a palha, mas em troca elas davam-lhe leite todos os dias.
Dos cavalos, o homem também tratava, mas em troca eles puxavam-lhe a carroça e as alfaias agrícolas.
As galinhas pagavam o sustento com ovos diários.
Mas a ele, porco, o homem nunca pediu nada. E cada dia lhe dava mais comida. E, há medida que o tempo passava, era maior o fardo de palha com que lhe aconchegava a cama. E cada vez mais era a porcaria que ele porco fazia, e ele, homem limpava. E sempre sem nunca lhe pedir nada em troca.
E ele, porco, não se preocupava. Comia, dormia, chafurdava e engordava. Ele era melhor que os vizinhos. Dele, o homem, gostava mais que das vacas, que dos cavalos, que das galinhas. A ele não lhe pedia nada em troca. E assim foi sempre, e assim deveria ser sempre, porque assim, para ele, porco, é que devia ser e estava bem assim.
 
Hoje, o homem aproximava-se, mas vinha diferente.
A roupa não era a habitual, nas mãos não trazia a lata com a comida, nem nos braços vinha a palha e não lhe viu a enxada com que costumava limpar-lhe a pocilga.
Hoje, o homem sorria e abriu-lhe a porta da pocilga.
E ele, saiu.
Correu, e viu-se encurralado por miúdos que o tentavam apanhar. Gostou da brincadeira. Gostou das gargalhadas.

Mas, depois veio outra vez o homem, e trazia outros homens, e encurralaram-no.
E ele assustou-se.
E ataram-lhe as patas, e pegaram nele, em braços (os mesmos que lhe deram de comer e lhe limparam a pocilga e lhe mudaram a palha), e deitaram-no num banco de madeira.
E ele teve medo.

E depois veio outro homem, e ele viu a faca enorme que lhe brilhava na mão.
E depois viu a faca a aproximar-se do seu couro duro.
E ele entrou em pânico. E gritou. Gritou alto, mas ninguém fez caso dos seus gritos.

E a faca entrou-lhe no couro, passou-lhe a camada de gordura (aquela que ele acumulou desde que nascera e o homem o alimentara), e ele sentiu quando lhe chegou ao coração e o perfurou...

... E foi só nessa altura que ele percebeu, porque é que durante todo o tempo em que foi vivo o homem lhe limpou a pocilga, lhe mudou a palha, o alimento e o engordou, e sem nunca lhe pedir nada em troca... foi para aquele dia... ele valia muito mais depois de morto do que valeu enquanto foi vivo.

Era dia de festa na aldeia... era dia de matança do porco...


Malena calharam os cães, a mim calharam-me os porcos)