sexta-feira, 24 de junho de 2016

EUROSÃO

Desenho Original de Marco Joel santos
A Grã-Bretanha vai sair da União Europeia. As consequências, dizem, vão ser tremendas para os súbditos de Sua Majestade. Piores serão ainda para todo e qualquer estrangeiro apanhado nas ruas britânicas. A União Europeia continuará o seu caminho impávida e serena perante este pequeno revés. Os bifes é que as vão pagar.
            As reacções de um lado e outro do Canal são do mais cómico que já vi. Tendo em conta aquilo que se escreve todos os dias por aí em jornalecos, e se opina frequentemente em canais televisivos de duvidosa índole, já me ri um bom par de vezes hoje. A verdade é que fui dormir com a vitória do tá-se bem e acordei com a vitória do fuck off.
            O UK, e que bela sigla é esta, votou pela saída da EU. Note-se – VOTOU. Não foi um processo decidido por nenhum político, nem sequer pela rainha de Inglaterra. Foi decidido pelo voto do povo. Que glorioso é o sentido democrático de todos quantos acham “triste”, “racista”, “precipitada” e outras coisas até bem piores, esta decisão do povo britânico. Que lindo, sermos nós a qualificar aquilo que um povo inteiro decidiu. Que superiores somos, que moral elevada temos, quão excelsa é a nossa opinião, o quanto somos os mais sábios dos mortais! Hoje, quase toda a gente esqueceu, neste país, que mora no cu da Europa, na latrina alemã, onde os alemães só aparecem para fazer merda, e que esta Europa, que ainda ontem era um massivo directório pouco franco – muito alemão, hoje é o paraíso na Terra e que os ingleses, afinal, é que são os maus da fita. Adivinhem: provavelmente estão-se marimbando para o que deles dizem. Nós é que somos os que estão sempre preocupados com o que de nós dizem os outros no estrangeiro, não eles.
            Qual o receio dos britânicos? Voltar a tempos antigos? Ao isolacionismo proporcionado pela sua insularidade? Que a sua economia baqueie e o reino mergulhe numa crise nunca vista? Talvez. Longe vão os tempos do Império Britânico, pelo que agora são só mais um pequeno país na pontinha de um pequeno continente chamado Europa. Desenganem-se. Assim tivesse Portugal um décimo da influência britânica no Mundo… e qual o receio dos europeus, afinal? Que tenha desaparecido da EU o único país europeu que sempre pagou para a Europa mas nunca recebeu? Ou que a economia britânica baqueie e arraste parte da sua? Desenganem-se, não há economia europeia, só há economia alemã. Não perceber que o projecto europeu falhou, que aprofunda diferenças, atiça ódios, lança radicalismos e tentar agora acusar os britânicos disso não é ingénuo. É, pelo contrário, de má-fé. Falhou. Move on.
            A legitimidade da decisão, como já referi, é do povo britânico. Não de uma comissão europeia comandada por um luxemburguês despedido por corrupção constantemente em estado etilicamente debilitado, em que ninguém votou e que ninguém conhece, colocado na função por jogos de conveniência. Não foi decidido por radicais de esquerda ou de direita, pois 52% de um povo não pode ser radical. O reino votou massivamente na saída, enquanto Londres votou para manter a City a funcionar e os escoceses votaram contra os ingleses. Nada de novo, vindo do país que está de olho no petróleo do Mar do Norte, pretendendo-o como propriedade exclusiva dos seus quatro milhões de habitantes.

Cada um tem as suas razões. Quem votou pela saída não votou por ser racista ou xenófobo, pois a zona com mais imigrantes votou pela permanência. Não votou porque lhe apeteceu agora dar um piparote na política europeia. Votou porque decidiu assim, votou de acordo com aquilo que tinham e sempre tiveram no seu país e que a UE paulatinamente tem vindo a retirar – serviço universal de saúde, pensões, etc. Mas, mais que tudo o mais, VOTOU! Quando foi a última vez que vocês, tristes profetas da desgraça alheia que não olham a calamidade que se vive no vosso seio, aqui, em Portugal, quando foi essa última vez que votaram para decidir o destino do vosso triste país? Grow up!

PS: texto para o desenho original de Marco Joel Santos

quarta-feira, 1 de junho de 2016

UM FELIZ DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Dia Mundial da Criança, dia 1 de Junho de 2016. Um dia celebrado por muitas crianças e mais ainda por muitos, demasiados adultos. A verdade é que os dias instituídos para nos sentirmos alegres, alerta, apreensivos ou qualquer outra coisa são dias de hipocrisia. Quem tem um filho pequeno não precisa que lhe lembrem que existe um Dia Mundial Da Criança. Mal vai se todos os dias não são dias da criança. Todos os dias são dias da criança.
O que faz com que os nossos filhos sejam especiais face às demais crianças é o facto, simples, de serem nossos filhos. Esquecemos que isso normalmente é norma corrente em todo o mundo, e seja o filho de um americano, de um português, de um russo, angolano ou sírio, esse filho é sempre especial aos olhos dos seus pais. O resto é conversa furada. As crianças, de forma geral, têm os mesmos comportamentos em todas as partes do mundo, aprendem todas a caminhar, a falar, a escrever, a correr e a jogar à bola – pelo menos os meninos.
Comemorar o Dia Mundial da Criança quando, por bestialidade humana, milhares de crianças – sim, dessas especiais, filhas de alguém, dessas que aprendem a caminhar e a falar e a jogar à bola – se afundam silenciosamente no Mediterrâneo, muitas vezes acompanhadas pelos pais, outras ainda na mais completa solidão da sua última viagem, com dois ou três anos de existência, por vezes meses… fica bem a qualquer europa. Por isso, tenham um excelente Dia Mundial da Criança.

sábado, 23 de abril de 2016

A RIDÍCULA PROPOSTA DO BLOCO DE ESQUERDA



Ilustração Marco Joel Santos
            Muito se falou da proposta do Bloco de Esquerda de mudar a designação do Cartão de Cidadão para cartão de Cidadania. Na verdade, muitos homens falaram. E muitos homens escreveram. Ouvi e li o que tinham a dizer sobre o assunto poucas mulheres. O que não deixa de ser interessante quando a proposta visa, essencialmente, não discriminar as mulheres. Se calhar devíamos, neste caso, ouvir mais mulheres. Sei lá, se calhar até têm opinião e a gente não sabia disso…

            Seja como for, a proposta é ridícula. Mudar a designação de um cartão não protege a identidade feminina ou masculina do seu portador ou sua portadora. A culpa é da língua. O português é uma língua difícil, arcaica, descritiva. O português, ou língua portuguesa, não vá alguma deputada do BE sentir-se ofendida por falar português, discrimina género em quase tudo. O inglês, por exemplo, não tem esse problema, pois um citizen feminino é igual a uma citizen masculina, ou vice-versa, que este assunto dá para confundir. A mesma palavra aplica-se ao feminino e ao masculino e designa, no geral, os adeptos do Manchester City.

            Ora acontece que, em Portugal, cidadão é uma palavra que, para algumas pessoas do BE, não se aplica às mulheres. Claro, têm razão. As mulheres são cidadãs. São diferentes. São cidadãos, mas femininos. Não são portugueses, são portugueses femininos, o que, logo, os torna algo especiais. Mesmo assim, tenho arrepios quando relembro a forma cínica que cavaco utilizava para começar os discursos, “Portugueses e portuguesas”, em vez da solenidade rígida mas empática do General Eanes quando começava com “Portugueses” apenas.

            Isto pode ir longe. Logo, assim de repentemente, lembro-me das Lojas do Cidadão. Nunca percebi porque se chamam assim, já lá fui algumas vezes e nunca consegui comprar um cidadão. Se calhar fui ao local errado e devia ter ido a uma qualquer sociedade de advogados. As Lojas do Cidadão terão de se chamar Lojas de Cidadania. O que piora as coisas. Se nunca lá tinha comprado um cidadão (ou cidadã), muito dificilmente comprarei cidadania, a julgar pela falta dela da generalidade das pessoas que lá se amontoam. Mas nem só de cidadãos vive o homem. E os beneficiários e beneficiárias? Também teremos de ter um cartão de Beneficiária. E cuidado com os mais iletrados, porque aí a coisa piora. Não é pouco usual as pessoas mais iletradas se referirem aos homossexuais como “homens sexuais”. Piorou, porque nunca lhes ouviram a expressão “mulheres sexuais”. Primeiro, porque para grande parte dessas pessoas uma relação homossexual entre mulheres é impensável e segundo porque, para queles que assim não pensam, é mais fácil dizer que “batem pratos”. Que é uma expressão extraordinária que não quer dizer absolutamente nada.

            Se pensarmos ao contrário, as coisas também podem ir longe. Não devemos poder mais dever dinheiro às Finanças, se formos homens. Queremos o direito a dever também aos Finanços. E se forem finados, melhor, pode ser que esqueçam a dívida. Cuidado com a palavra “pessoa”. É feminina e os homens podem querer não ser tratados por pessoas, mas antes como indivíduos. Assim ficaria pessoas para as mulheres e indivíduos para os homens. Os homens podem querer também não serem incluídos na Humanidade, já que a palavra é feminina. Obviamente, as mulheres podem não querer igualmente pertencer ao Homem quando a palavra é utilizada para designar a raça humana.

            Os livros de História têm de ser todos mudados. Não pode haver mais a referência ao Homem de Cro-Magnon, pois também devia haver mulheres de Cro-Magnon. O Homem não apareceu em qualquer altura da pré-história, pois a mulher também deve ter aparecido mais ou menos na mesma altura. Considerando os atrasos mais típicos das senhoras, deve ter aparecido dez minutos depois. Cuidado com expressões paternalistas como “os putos”. Pode haver meninas no grupo e quererem ser tratadas por putas. Nos hipermercados, teremos de ser mais criteriosos e pedir no talho 1 kg de carne de porco ou de porca, de vaca ou de boi, de peru ou de perua, de frango ou de galinha.

            É óbvio que a proposta é ridícula. Mas há 150 anos, uma mulher ter direito a voto era ridículo. Na verdade, em Portugal, só votava quem, nessa altura, tivesse suficiente fortuna pessoal comprovada, o que hoje seria ridículo. Há 50 anos apenas, era ridículo um preto entrar pela mesma porta do autocarro que um branco, ou sentar-se nos mesmos bancos, em países tão diversos como a África do Sul, Portugal ultramarino ou os EUA. Era ridículo, há quinze anos atrás, pensar que poderíamos publicar detalhes da nossa vida privada para um público de milhões de pessoas. Tudo isto era ridículo. Era ridículo, em Portugal, noutros tempos, falar de política em público, e até em privado. Era ridículo uma mulher conduzir, era ridículo uma mulher ser sequer advogada ou militar.

            Por outro lado, era usual, em Portugal, até há bem pouco tempo, atirar lixo para o chão, fumar em locais públicos fechados, bater em crianças que não nos nossos filhos ou não colocar o cinto de segurança.

            A cidadania faz-se de pequenos ridículos. Tudo o que fazemos hoje numa sociedade avançada pareceria ridículo aos nossos antepassados. Trabalhar pareceria ridículo a um aborígene, ter eleições pareceria ridículo a D.Afonso Henriques. Na verdade, tudo é ridículo. Mas nós fazemos isso tudo. Mais um ridículo não nos faz mal nenhum. Mas que é ridículo, é. Principalmente ridículo. Ridícula não sei se é, não ouvi ainda nenhuma mulher pronunciar-se. Mas também é certo que nós, homens, é que sabemos o que é bom para as mulheres. E isso não nos parece ridículo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

COUNTDOWN

O Banco de Portugal afirma a pés juntos que está atento à questão do BANIF e os depósitos no banco estão seguros. Confio em Carlos Costa, é daquelas personagens que me inspira confiança e que me assegura que este tipo de questão será com toda a certeza tratada da melhor forma.
Outra certeza que tenho é que o cavaco ainda não se pronunciou sobre a situação, e ainda não disse que podemos confiar no BANIF. Portanto, e à partida, tudo correrá pelo melhor.

Só não sei para quem.

Entretanto, e só pelo sim, pelo não, façamos a contagem decrescente para o fecho do Banco e mais uma carrada de gente enganada constituir mais um movimento de lesados.

10... 9... 8...

P.S.: o gajo da Guiné não tinha salvo o banco aqui há um anito? Ou tirou tudo de lá para fora para pagar o ordenado ao JJ?

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A CAVAQUEIRA

Ilustração Marco Joel Santos
O que retenho da noite das eleições legislativas são já apenas fogachos com uma intensidade pouco moderada, confesso. Lembro-me de todos se congratularem com a baixa abstenção, nas eleições legislativas mais abstencionistas de sempre. Lembro-me da festa amarela na sede da coligação, e derrota imensa de António Costa. São já sensações passadas que se apagam perante os resultados e, sobretudo, acontecimentos pós-eleitorais.
            Confesso que o meu nível de desencanto com os resultados eleitorais foi tal que me mantive apenas dormente e sem dar grandes opiniões sobre as deambulações de Passos e Costa para formarem um governo. Mas tenho uma opinião. E é apenas uma opinião e é minha.
            Enquadrando a opinião, tenho de começar por dizer que sou comunista. Sou marxista, embora pouco leninista. Votei nesta eleição como já votei em muitas eleições, na Coligação Democrática Unitária, liderada, como se sabe, pelo Partido Comunista Português. Não sou comunista porque é moda, nem porque me convém nem porque sou “comodista e não comunista”, como dizem algumas bestas fascistas que por aí andam. Sou marxista porque li Smith, li Landes, li Marx. E preferi, de longe, Marx. Por isso, sou comunista por convicção ideológica e não por qualquer capricho momentâneo da política portuguesa ou comportamento de cata-vento. Este é o enquadramento pessoal.
            Quanto ao enquadramento institucional, lembrem-se das palavras de Cavaco. Só daria posse a um governo maioritário. São palavras dele, não estou a inventar nada. SÓ dá posse a um governo estável e maioritário – relembro. Tudo o resto é o que conhecemos.
            Antes de mais, quem ganhou as eleições foi quem teve mais votos. A coligação Portugal à Frente, que deve ser chamada a formar governo (se consegue ou não formar governo maioritário, logo se verá). Quem perdeu as eleições foram todos os outros. Claro que isto dito desta forma parece a coisa mais simples do mundo. Mas não é. Na verdade, a coligação Portugal à Frente perdeu uma maioria clara que detinha antes das eleições (52%) e detém agora cerca de 38% dos votos e menos uma catrefada de deputados. O PS foi o principal derrotado das eleições, que seriam as mais fáceis de vencer desde sempre em Portugal. Não conseguiu vencer nem chegar perto sequer e, aliás, perderia para o PSD se este concorresse isoladamente. Mesmo assim, ganhou votos e deputados face às eleições de há quatro anos e meio. O BE perdeu as eleições mas duplicou tudo o que tinha ganho (ou perdido) há quatro anos. Ameaça tornar-se um partido de verdadeira vocação governativa. O partido em que votei manteve os deputados que já tinha e ganhou meia dúzia de votos.
            Perante este cenário, o que fazer? Bem, Cavaco não pode dar posse a um governo PaF. Devemos lembrar-nos que para se ser mais honesto que Cavaco tem de se nascer duas vezes. Se der posse a um governo PaF, fica afinal provado que Cavaco é apenas mais um desonesto, um mentiroso como muitos que grassam no seu partido, o BPN, ou outros partidos. Mas pode Cavaco dar posse a um governo de esquerda? Na minha opinião, pode. A um GOVERNO de esquerda, não a um governo do PS com acordos à esquerda. Isso seria o mesmo que dizer que hoje temos governo, amanhã pode ser que não. Lembram-se do irrevogável Portas? Pois, pode acontecer de novo, mas desta vez quem roer a corda não precisa de não ser irrevogável, pois não precisa, se não estiver no Governo, de ter um cargo mais importante do que o “daquela vaca loura arrogante de merda”. E neste caso pode não ser nem uma vaca nem loura nem arrogante de merda. Basta uma das três.
            O que vai acontecer? Na minha opinião, Cavaco vai dar posse ao governo minoritário de Passos Coelho. O quê? Faltar com a palavra? Quem, Cavaco? Pois, isso da palavra era antes das eleições e antes de saber que o Costa afinal é um bocado de esquerda a mais para os gostos cavaquistas. É que a ideia cavacóide era a de empossar um governo PSD/CDS/PS. Que é lá isso de BE e CDU?! A seguir, o governo cai no Parlamento, por força da maioria contra de toda a esquerda. Marcam-se novas eleições, ou agora ou daqui a seis meses, sem problemas. E Cavaco espera dar a maioria absoluta a Passos, com a conivência do burro povo português, que sempre teve e sempre vai ter peninha dos “que querem fazer mas não os deixam”. Vide Sá Carneiro, o próprio Cavaco ou até, em larga medida, Guterres e Sócrates…
            Ora, a esquerda, perante este caminho de destruição da validade eleitoral por parte da presidência da República, só pode avançar com a sua proposta de governo, não com uma proposta de governo PS apoiado pela esquerda, como já disse. Isto porque sabe que o eleitorado premeia quem cai com maiorias absolutas, principalmente o eleitorado mais idoso. E, adivinhe-se, há bué de idosos em Portugal. Só que Cavaco não dará nunca posse a um governo de esquerda que integre elementos do PCP. Do BE, ainda vá que não vá… Agora do PCP, que é lá isso?
            Os argumentos da direita portuguesa contra a presença do PCP num governo de esquerda são do mais engraçado que há. Primeiro, não são um partido democrático! Claro que não, são comunistas. Aliás, devem lembrar-se dessa grande comunista Manuela Ferreira Leite, a que ameaçou suspender a democracia por seis meses. Provado. Depois, os comunistas querem é o poleiro! Estranho, para um partido que foi acusado vezes sem conta de nunca assumir responsabilidades de governação… Aliás, acho peregrino que se diga que “o que Costa quer é ser Primeiro-Ministro”. Passos não quer ser Primeiro-Ministro. Nem sequer concorreram às eleições, nem nada. Além disso, os comunistas dão injecções atrás das orelhas aos velhinhos para eles morrerem. Os comunistas, toda a gente sabe, comem criancinhas ao pequeno-almoço! Ao almoço comem as mães das criancinhas e ao jantar, para não ser indigesto, comem os pais. Depois, se os comunistas estiverem no governo, com quem vão protestar os sindicatos? Ora, a preocupação com os direitos sindicais e laborais dos trabalhadores portugueses, por parte da direita, toca-me profundamente. Descobriram que afinal há sindicatos em Portugal!
            Sabem que mais? O Cavaco vai ter de engolir o sapo. Faça o que fizer, vai ter ou de voltar com a palavra atrás ou simplesmente empossar os inimigos de estado do Cavaquistão no governo. Ou simplesmente, terceira opção, fazer o que faz melhor, ou seja, uma ponta de um corno e o Marcelo que feche a porta, pois depois de ter assassinado o Rio, não lhe falta coragem. Quanto a mim, chega de cavaqueira. Já tenho uma criancinha no bucho, comi uma mãe pelo lanche e agora vou para a sobremesa comer um avô a quem injectei creolina por baixo do sovaco.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O PORTUGAL DESCONHECIDO

Ilustração Marco Joel Santos
           A mais que previsível crise de refugiados que varre as imediações do Mare Nostrum deixou-me, devo confessar, em estado de choque. Não pela dimensão, ou pela intensidade de chegada de navios à Europa. Os refugiados sírios, cerca de quatro milhões e meio deles, enchem desde há muito as ruas de Amman, do Cairo ou de Istanbul. A pequena minoria deles que ousa atravessar o Mediterrâneo ou o Bósforo para se aventurarem na Europa são isso mesmo, uma pequena minoria. A juntar aos sírios, há os nigerianos, somalis, sudaneses do sul ou malianos.
            Só no Cairo, e antes desta vaga de refugiados acontecer, já vivem, na Cidade dos Mortos e arredores, cerca de seis milhões de refugiados, entre palestinianos, iraquianos ou libaneses. Convenhamos que numa cidade com vinte e dois milhões, é obra. Na Jordânia, e antes da guerra na vizinha Síria, já viviam um milhão e meio de refugiados iraquianos e palestinianos. Num país com sete milhões de habitantes. De Jerash vi Deerah, a cidade que viu começar a guerra civil síria. Um ano antes desta começar.
            Por tudo isto, a ideia de ter duzentos ou trezentos ou até meio milhão de pessoas a chegar à Europa não me choca muito. Como dizia Harrison Ford nos Salteadores, sou um cientista, nada me choca. Mas é mentira. Há coisas que me chocam profundamente, não amiudadamente, mas assim como que de vez em quando. E choca-me profundamente a enorme campanha feita pelos defensores e pelos detractores dos refugiados. Distancio-me de ambas as posições, porque sou o que sou: um agnóstico que apenas reconhece pessoas – boas e más – e não religiões ou “raças”.
            A Europa, principal culpada e instigadora de uma guerra fraticida que destruiu por completo a parte oriental da Síria e aparenta vir a destruir o resto, não pode sacudir a água do capote. Tem culpas, enormes culpas, como tem culpas, enormes culpas, no que se passa na Ucrânia, na Líbia, na Tunísia e por esse mundo fora. Colhe agora o que semeou, na sua ganância por mercados e produtos. Mas também não pode, neste momento, deixar de filtrar os que nela querem entrar. É bem-vindo quem vem por bem. E o que é isto de vir por bem? Bem, para mim, é qualquer muçulmano que entenda que me estou literalmente cagando para o que disse Maomé. Pronto, é assim, simples e direitinho. Estou-me cagando para o que diz o Corão, como me estou cagando para qualquer fantasia que envolva naves espaciais, ressurreições do mundo dos mortos e demais contos da carochinha – sim, também essas historinhas de fadas que vêm na Bíblia. E conheço-as muito bem, foram a minha escolha para finalizar o curso – Religião e Cultura. Ora assim se evitam problemas futuros. Lembrem-se do local onde estão e tudo correrá bem. Comecem a querer viver de acordo com a Sharia e a coisa corre muito mal.
            Os defensores dos refugiados não entendem que basta que no meio de meio milhão de boas pessoas apareçam meia dúzia de radicais para que a segurança de todos nós esteja em risco. Se já com os nossos é o que é (lembram-se do alto e loiro Brejvik?), não precisamos de mais problemas com maluquinhos que acreditam em homenzinhos verdes como o do TGV de França. É preciso registar, é preciso investigar, é preciso despistar. E temo que nada disto venha a ser feito. Para os defensores dos refugiados, apenas interessa o lado humano. Mas esquecem-se que eu também tenho um lado humano, a minha família tem um lado humano e bem, até eles próprios, apesar de nunca terem precisado de distinções dessas (bom sinal), também têm um lado humano. E estes lados humanos são para preservar na nossa santinha paz de cantinho à beira mar plantado.
            Já os detractores dos refugiados são outra história. Há-os, pelo que me foi dado ver, de dois tipos, que se aliaram numa causa perigosamente comum. Uns são os extremistas religiosos, mormente evangelistas e demais protestantes, mas também bons chefes de família católicos. E há os de extrema-direita – uma fatia considerável da nossa população, cerca de 40%, embora ninguém queira admitir tal facto. Apareceram as mais díspares notícias sobre os refugiados, a maior parte deles vindas de sites religiosos, anti-semitas (os árabes são semitas) ou de extrema-direita. E tudo foi comprado como verdadeiro, quando na realidade nem 10% seja verdade. Até a notícia de que os refugiados traziam telemóveis – como se o telemóvel fosse um aparelho do demo vindo de outro mundo ou simplesmente um artigo de luxo que seria impensável encontrar num país árabe. Desiludam-se, os árabes são malucos por tecnologia, particularmente por telemóveis. Estranhamente parecidos com os portugueses.
            Vêm também com uma conversa de que se não ajudamos os nossos sem-abrigo não podemos ajudar os refugiados. Até percebo a lógica. Se não há para os nossos, não há para os outros. Aparentemente tudo correcto. O problema é quando vemos pessoas que nunca fizeram uma ponta de um corno para ajudar fosse quem fosse, quanto mais um sem-abrigo, falar assim à boca cheia. Se se enchessem de moscas elas não notariam diferença em relação ao que em que costumam pousar.
Depois a conversa de que aqui querem mesquitas e lá não deixam construir igrejas e outras do género. Porra, é-me indiferente ser acordado pela vozinha irritante do muezin a chamar para a oração ou pela merda dos sinos das igrejas que não se calam (e aquelas aldeias que têm o hino de Fátima a tocar a cada hora?). Por mim, era tudo arrasado, e bem razão tinha o velho Karl quando disse que a religião é o ópio do povo. Mas devo dizer que nos países árabes onde estive, os maiores edifícios das grandes cidades são igrejas (cristãs, também católicas, como em Tunis, mas essencialmente coptas, como na Jordânia, Síria ou Egipto). Aqui em Portugal é que só há uma mesquita. Salvo erro.
            No fundo, o que quero dizer com esta lengalenga toda é que quem vier para a Europa deve adoptar plenamente os valores europeus. Conheço mulheres que na Jordânia nunca usaram sequer um véu e que quando foram morar para os EUA começaram a usar burqa. Por outro lado, não são 3500 refugiados que vos vão tirar empregos (para isso temos um milhão de desempregados prontinhos) ou o pão da boca ou até as vossas ridículas crenças em fantasmas e espíritos do além. Quando acabou a guerra colonial levamos com dois milhões de retornados, uns mais esclavagistas que outros, e não se passou nada. Esta gente é mesmo de um Portugal desconhecido…
            Por fim, dizer o seguinte: se a merda que governa a Europa fosse decente, nada disto estaria a acontecer. Como ninguém se mexe para correr com a merda da banheira, agora aguentem que é serviço.
            PS: e sim, a foto do miúdo afogado chocou-me. Podia ser o meu filho ali. Podia ser o vosso. Pensem nisso e não digam mais merda a esse respeito, por favor. Deixem, pelo menos, as pessoas sofrer em paz.