Foto GoogleÉ o Livro Sagrado. Um verdadeiro best-seller. É o livro mais vendido de sempre, o primeiro a ser impresso, um dos primeiros livros do Mundo. Poucos há que sejam mais antigos, mas mesmo esses desapareceram quase por completo sob o peso da Bíblia Sagrada. Livros como o Livro dos Mortos, os Vedas indianos ou a Epopeia de Gilgamesh são mais antigas, mas não têm tantos seguidores nem tanta força. A Bíblia Sagrada é a base das três grandes religiões monoteístas, também chamadas religiões do "Livro": o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, por ordem de aparecimento.
O Livro sagrado do Judaísmo, a Torah, é composta pelos primeiros cinco livros da Bíblia; A Bíblia por inteiro é o livro sagrado do Cristianismo; O Islão baseia a sua doutrina na Bíblia, e a sua prática no outro livro sagrado desta religião, o Corão. Sagrado para todas.
Há dias, e foi assunto que não me mereceu uma postagem, um grande escritor português, ateu por sinal, veio a terreiro afirmar que a Bíblia é uma espécie de manual de instruções para os maus costumes, e que não preza grandemente o Deus da Bíblia, mesquinho e cruel. São as palavras dele, não as minhas. E nem vou aqui julgá-las, já foram demasiado julgadas por todos.
Conheço a Bíblia. Não de cor, porque aquela coisa é grande que se farta! Mas li-a, por duas vezes, por puro interesse. Tal como o Corão e alguns dos Vedas, que constituem as escrituras de uma das grandes religiões politeístas actuais, o Hinduísmo. Uma análise textual do Livro dá razão, quer queiramos, quer não, ao tal escritor. Querem alguns exemplos?
"E [Deus] à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará." Gen, 3, 16
"Mais ou menos três meses depois, vieram dizer a Judá: "Tamar, tua nora, conduziu-se mal: vê-se que está grávida." Judá respondeu: "Tirai-a para fora, que ela seja queimada!". Gen, 38, 24
Ou seja, Deus condenou a mulher a eternamente ser objecto de desejo para o seu marido, sob a sua dominação. No segundo caso, Judá condena a sua nora a ser queimada viva por se encontrar grávida de outro que não seu filho (o que, por acaso, era mentira). Nem falo na morte da criança, que, pelos vistos, já tinha ultrapassado todos os prazos para o aborto... Aqui temos belos exemplos da mais cristã piedade. E estes foram escolhidos à sorte, abrindo o livro e lendo meia dúzia de versículos. Podem imaginar o que por ali vai. Depois, há os fenómenos incríveis. Quem não se lembra da Criação em seis dias? Do apartar das águas por Moisés? Da queda das muralhas de Jericó apenas por se terem tocado as trombetas? Das Dez Pragas do Egipto? Da sarça ardente? Da transfiguração de Moisés e de Cristo? Da estrela que anunciava o nascimento do menino? Dos milagres de Cristo?
Ora, afinal, estávamos todos enganados, vieram alguns doutores da Lei elucidar as mentes inquisitivas dos curiosos e maledicentes. Afinal, estas demonstrações de crueldade eram comuns na altura, mas não podemos esquecer que já foi há muito tempo, para aí para cima de uma porrada de séculos, e que devem ser vistas como usos que agora não se justificam. Aliás, algumas destas demonstrações de extrema crueldade e estes fenómenos que relatei são metáforas das quais devemos apenas retirar o seu sentido poético ou moral e não o sentido literal. A Bíblia, vieram elucidar-me, não pode ser retirada do seu contexto e não devemos esquecer que através destas metáforas é que ela mantém a sua actualidade.
Ok, funcionou. Percebo agora porque os muçulmanos e os judeus não se exaltaram muito com o caso. Mas não percebo como pode um cristão falar assim do seu Livro Sagrado. Cristão que se preze não pode negar todo o fundamento da sua fé. Os acontecimentos fantásticos, como a destruição de Sodoma, as Pragas, a Criação, são apenas metáforas do poder de Deus, que o demonstram plenamente. Pena é que o maior desses acontecimentos (em escala) tenha ocorrido mesmo, negando assim os próprios doutores que encontraram a explicação. Estarão agora a pensar que estou doido. Não estou, o Dilúvio aconteceu mesmo! Mas tudo bem, por o Dilúvio ser real, não quer dizer que todas as outras coisas não sejam metáforas. Estão a ver as brechas a aparecer?
Mas o principal acontecimento bíblico, aquele que motivou todo o Cristianismo, a pedra basilar da Fé Cristã, que respeito mas não acarinho, é outro. Não é o Êxodo, como para os Judeus. Nem a colocação da primeira pedra da Caaba por Abraão, que a retirou da "primeira pedra do Mundo", para os islâmicos (essa primeira pedra está em Jerusalém, debaixo da Cúpula da Rocha - talvez se perceba melhor por que razão a cidade é santa para o Islão, não?). Nada disso!!
O principal alicerce da fé cristã, a pedra basilar do Cristianismo é um acontecimento invulgar, tão invulgar que nunca foi testemunhado nem nunca foi repetido. E esse acontecimento, virtualmente impossível, como a destruição de Sodoma, ou a abertura das águas por Moisés, ou as Pragas ou a Sarça Ardente, mas ainda mais estonteante, ainda mais inverosímil, ainda mais fantástico, dá-se no Novo Testamento.
Será que estes teóricos da Bíblia, afinal, negam por completo toda a sua Fé, ao nos dizerem que a Ressurreição de Cristo não passa de uma metáfora? Será que a fé cristã não se baseia quase exclusivamente na Ressurreição de Cristo, crucificado, trespassado, com os joelhos desfeitos a golpe de maça, passados 3 dias da sua morte? Será que este evento é um acontecimento real, ou apenas mais uma "metáfora"?
Em que ficamos, acreditamos literalmente no que nos diz a Bíblia e em todos os seus horrores, mas também na Ressurreição de Cristo, ou desvalorizamos tudo, como "metáforas" que são e deixa de existir Cristianismo? Em que ficamos, meus senhores?