segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ESQUERDO À GREVE


Ilustração de Marco Joel Santos
Costuma-se falar do direito à greve. Mas eu hoje, e volvidos alguns dias da Greve Geral, constituindo este tempo uma espécie de interregno de maturação e reflexão, e podem perfeitamente aquilatar da minha capacidade de emprego de palavreado caro como sinal de reflexão, escrevo sobre o esquerdo à greve. Até porque o facto de haver o direito à greve, e porque politicamente correcto, implica obviamente, numa óptica de não discriminação, um esquerdo à greve.
O que é o esquerdo à greve? Já lá vamos. Antes de mais, penso que deve também existir o esquerdo à indignação, já que tanto se fala igualmente do direito à indignação. Por outro lado, admito perfeitamente o fim da equidade, já que o nosso excelso presidente decorativo tanto fala do princípio da equidade. Eu penso que isto da equidade me cheira a cavalo, mas já me disseram que não tem nada a ver com equitação. Esse parece ser o princípio da hipidade.
Nos dias antecedentes, precedentes, poscedentes, procedentes e proxenetas à greve, pude assistir à discussão do tema pelas ruas do meu país. Ainda é meu, desde que pague aos senhores da Troika onze mil euros, senão posso ver a Serra da Estrela empenhada. O que se dizia então? Discutiam-se arduamente os factos que levaram à convocação de tão grave acto de protesto? Discutiam-se os planos do governo para minorar o sofrimento do povo? Discutia-se a posição algo dúbia do presidente decorativo? Não. Nada disso. Discutia-se antes se se era a favor ou contra a greve. Mas contra esta greve? Não, também não, discutia-se se se deve ou não poder fazer greves em momentos como este, em que os portugueses tanto se queixam dos impostos excessivos e da inflação.
E algumas pessoas, incluindo o primeiro sinistro, defendem que esta altura, em que as coisas estão más e mais sacrifícios ainda se poderão pedir à abastada classe média portuguesa, não é para fazer greves, mas antes para trabalhar muito, cada vez mais, sem parar, para endireitar as contas do país. Ora então, e na visão iluminada destas pessoas, e sei que é iluminada porque ainda há dinheiro para iluminação pública, embora pense que tal não seja eterno, deve fazer-se greves quando tudo está porreiro e na paz dos anjos. Nessa altura sim, mas agora que se cortam direitos elementares ao pessoal que labuta, isso não! É antipatriótico.
Outras defendem que podiam fazer as greves aos fins de semana, de forma a que estas não prejudiquem a produção do país. Ora, no meu entender, e a minha opinião não é já demasiado iluminada, até porque se fundiu uma lâmpada do candeeiro desta divisão, greves que não incomodam ninguém... não incomodam ninguém, certo? Então... para que servem...?
Por outro lado, e este deve ser o lado esquerdo, ouvi com uma certa atenção e sem grande surpresa, grande parte das pessoas se manifestarem simplesmente contra a greve. Contra o direito à greve. Ora, que eu saiba, e apesar de termos, segundo alguns cérebros novamente muito iluminados, uma Constituição comune... comu... comuni... ou essa palavra maldita, o facto é que a Constituição garante o direito à greve. Bem sei que desde que o Sócrates pediu que Portugal passasse a ser um país do terceiro mundo chulado até ao tutano pelo fmi num período em que só decisões de gestão corrente podiam ser tomadas, a Constituição deixou de ser aquilo que era, e até já se conseguiu um feito digno dos anais e dos vaginais dos livros de História, que é o de reduzir remunerações em Portugal. Mas eu penso que as pessoas são contra os assassinatos. Penso que são, mas já não sei. Se calhar até já concordam com matar outro mânfio por não concordar com ele nas regras de trânsito. Penso que as pessoas não concordam com os assaltos. Ou talvez concordem, desde que feitos com jeitinho e nos fins de semana, para não incomodar a produção do país. Isto de discutirem um dos mais básicos direitos humanos e constitucionais confunde-me e tendo, dado o adiantado da minha degradação cerebral, por certo sintoma de ter visto muitos debates pseudo-económicos na TV, a ficar assim confuso dos pensamentos.
Mas agora vos digo: há um direito à greve. Logo, há um esquerdo à greve. Quem faz greve perde um dia de salário. Perde também, muitas vezes, a confiança do seu patrão, o que não faz qualquer sentido, já que uma pessoa que demonstre ser capaz de se defender é capaz igualmente de trabalhar de forma eficiente, enquanto uma pessoa que tal não demonstre apenas mostra uma enorme vontade de lamber cus. Mas percebe-se porque haja gente que até nem faça greve mesmo concordando com ela. Mas eu, que estou um pouco atrasado em relação ao ritmo dos demais membros desta activa e temerária sociedade, venho promover uma ideia. Sim, eu tive uma ideia. Já sei que sim, quem tem ideias é idiota, mas nem todos podemos ser primeiros sinistros.
A minha ideia é simples. Façam-se os verdadeiros registos de quem faz greve ou não. Retire-se a essa pessoas o tal dia de trabalho, como já contempla a Lei. De seguida, e no decurso dessa e de possivelmente outras greves, analisem-se os direitos que foram conquistados por quem fez as greves. Retirem-se esses direitos a quem não fez. Porque esse é que é o tal esquerdo à greve: é todo aquele que mete ao esquerdo direitos pelos quais não lutou. Lei do esquerdo à greve, JÁ!
PS: obviamente, e como todas as boas Leis, esta deve ter efeitos retroactivos; assim sendo, proponho igualmente que, apenas um dia por ano, de forma simbólica, os esquerdos à greve possam ser agrilhoados aos seus locais de trabalho, laborar essas 24 horas com direito a um pedaço de pão e meio copo de água. Devem depois entregar toda a produção ao senhor, retirados, obviamente, dez por cento da mesma para o dízimo à Igreja. No final desse dia, o senhor decidirá se poderão comer no dia seguinte... ou não. Poderia ser, eventualmente, e se não forem demasiado burros, uma forma de lhes mostrar o que as greves e protestos populares conseguiram desde os tempos feudais. Mas só se não forem mesmo muito burros.

domingo, 13 de novembro de 2011

CRÓNICA DE UMA MORTE ADIADA

Ilustração de Marco Joel Santos
Escrever é um acto de liberdade. É um acto que expõe a nossa liberdade perante o mundo, mas, mais que isso, nos liberta de forma pessoal e íntima. É um desabafo, é uma catarse que nos limpa a mente. Escrever é, em última análise, aquilo que nos distingue dos animais, pois combina a organização da nossa comunicação com a capacidade de raciocínio. Uma civilização que não deixou escritos os seus pensamentos não é conhecida ou valorizada.
Após este preâmbulo mais ou menos filosófico, eis-me de volta à escrita, e esperaria eu e quem possa ler estas palavras que quem assim escreve tem por missão, numa altura em que vemos as ameaças pairarem sobre o horizonte, dar alguma esperança e validar a vida. Mas a verdade é que venho escrever sobre morte, e não sobre vida. É inevitável escrever sobre a crise. Há aqueles que defendem que há vida para além da crise. Acredito que tenham essa visão algo ingénua de que podem passar incólumes perante a tempestade que se avizinha. Acredito que essas pessoas acreditam nelas próprias, ao pensarem que alguém, um alguém que ainda não descortinamos, um qualquer D.Sebastião renascido dos nevoeiros das planícies africanas os salve, quando não o país e quando não até o mundo inteiro. D.Sebastião, contudo, está morto e não sabemos se está enterrado, mas esperemos que sim, pois as moscas não distinguem putrefacção real da putrefacção plebeia. E a crise também não contemplará mais os realistas que os optimistas, e não vale a pena chorar constantemente, mas a verdade é que nem isso fará com que os que sorriem sejam tratados de forma diferente. Eu não choro, mas também não tenho a displicência de sorrir e sonhar com melhores dias. Eles não virão. Virão piores, e é melhor que disso estejamos todos certificados.
As “ajudas externas” prestadas a Portugal e outros países europeus não são ajudas. São tentativas de alavancagem financeira, de modo a que estas economias deficitárias possam recuperar a prazo. Os países “intervencionados” têm de pagar a “intervenção”, e com juros caríssimos. E a verdade é que não conheço qualquer caso, no mundo inteiro, em que uma “intervenção” do FMI tenha resultado em qualquer benefício, seja ele qual for, para qualquer desses países “intervencionados”. O problema é que não são acautelados os interesses nacionais. Não há decisões de florescimento económico. E falo em florescimento e não em crescimento.
Poucos se dão conta que o crescimento económico global está a condenar-nos definitivamente como espécie. Não se pode crescer sempre. Por uma razão muito simples – não há recursos naturais suficientes. Isso basta. Mas não chega para explicar tudo. A globalização abriu fronteiras e, enquanto fomos nós, os países desenvolvidos, a aproveitar o facto para escoar os nossos excessos produtivos (Portugal não será um caso paradigmático), tudo correu bem, pois a miséria ficou do lado de lá das fronteiras. Agora, que os miseráveis aproveitam da mesma forma as fronteiras abertas, queixamo-nos de que estamos a perder competitividade. Obviamente. A equação tem dois termos, e nós estamos inseridos apenas num. E nem nos apercebemos de que o equilíbrio é inevitável.
A acrescer a isto, há as apostas milionárias nos casinos. E esses casinos, a que alguns iluminados ousam chamar mercados, reclamam as perdas. São casinos, não são mercados. Mercado é um local salutar, onde se trocam bens por outros bens ou por moeda baseada no valor em bens que representa. Não vos passa pela cabeça o que se aprende em disciplinas como Gestão Financeira, onde perdemos por completo a decência de querer fazer negócio e adquirimos compulsivamente a ideia de querer “fazer dinheiro”. Lavagem cerebral completa, e nas nossas universidades! Instrumentos como warrants ou opções são puras apostas e não precisam de regulamentações para serem colocadas ao serviço da ideia de “fazer dinheiro”, que é em tudo diferente de “ganhar dinheiro”. A primeira é um roubo puro e simples e seria em tempos idos castigada com as galés. A segunda é a nobre ideia de garantir a subsistência através do trabalho e da produção de um bem ou serviço. Os bancos perderam as apostas, não têm como pagar. Os Estados não deixam cair os Bancos e emprestam-lhes dinheiro para cobrir as suas ruinosas apostas. Para tal, os Estados deixam cair por terra os compromissos que firmaram com os seus cidadãos. Estes acabam por provir o dinheiro que os bancos perderam, que já era deles! E se caírem os bancos? Voltaremos à economia real, àquela em que se compram batatas no mercado, ou se trocam nabos por costeletas? Quem tem medo disso? Acabará o mundo? Por certo não, mas acabarão alguns mundos, e provavelmente o das apostas, os dos casinos, esses sim, tenderão a acabar. E também o das empresas que não conseguem criar riqueza por si, mas antes apenas com estruturas de débito na ordem dos 90 ou 95%, como é o caso das maiores empresas portuguesas.
Preservar um sistema que privilegia a finança à economia é fingir que tudo está bem, enquanto os que cobrem os buracos financeiros proveem para aqueles que perderam as apostas, mas que não estão dispostos a pagá-las. Paguemos nós, então. A finança, como o nome diz, não é um instrumento de geração de valor, a própria palavra indica a sua função: dar um fim aos fundos gerados pela economia. Confundir finança com economia é o grande mal dos economistas de hoje em dia. Na realidade, são financeiros, mas não economistas. Por outro lado, puseram de forma descarada a finança a substituir a economia como geradora de fundos e rendimentos. Logo assim, esquecem o mais importante: é preciso comprar melões para que o que os compra valha alguma coisa. O que quero dizer? Simples, não há um décimo de dinheiro real, baseado no seu valor facial com correspondência económica, do dinheiro virtual, criado pelas operações financeiras. Simplesmente não há. Não há valor no mundo inteiro que cubra o valor de dívida que anda por aí. O sistema só tem uma solução: implodir. Não há outra solução, não há outro caminho para o mundo inteiro senão fazer implodir o sistema financeiro. Porque este sistema não existe, simplesmente. Não tem consubstanciação económica, não tem valor agregado aos pseudo-valores gerados em computadores. E quem acredita que virão uns contentores com notas de BCE para Portugal, no valor de 78 mil milhões de euros é mais parvo que um financeiro. Esse dinheiro nunca chegará a ser circulado. Simplesmente porque não existe. São números num computador. E se cada um chegar ao mercado (o real, onde efectivamente se trocam mercadorias por moeda ou outras mercadorias) com um computador a dizer que temos não sei quantos zeros na nossa conta bancária, o mais provável é que alguma peixeira do bolhão nos dê com um robalo na tromba enquanto indaga gentilmente pela massa.
O sistema vai implodir, e disso podemos ter a certeza. Os números catastróficos de países que receberam “ajuda” externa dão-nos um vislumbre do que virá a acontecer. A Grécia entrou no caos, a Irlanda tem números tão maus que não se prevê que nem daqui a 20 anos os irlandeses retomem o seu nível de vida em 2008. Nós seguiremos o mesmo caminho. A Itália, a Espanha e até países tão insuspeitos como a Áustria estão com taxas de juro recorde, que não pararão de subir. O castelo de cartas vai ruir. E vai sobreviver o valor, esse valor económico, que é o do trabalho. E esse é o grande valor que temos, o único de que podemos sempre dispor, e o mais atacado pelos casinos. Os casinos irão com os porcos, o trabalho ficará. Estão preparados?

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Parece que ainda não acabaram outras e estala nova polémica. Agora é com os transportes públicos, e porque parece que as empresas públicas de transportes parecem estar falidas. Ou tecnicamente falidas, que é um termo suavizante para dizer que estão falidas. Aliás, ultimamente temos sido assaltados permanentemente com termos suavizantes, e isso começa a irritar um pouco quem fala apenas o português mais duro e puro, e sem acordos pornográficos. É que é a crise do euro, quando sabemos que não é uma crise, é uma morte. É a crise da dívida soberana, quando sabemos que não é nenhuma crise rainha, mas tão só e apenas activos bancários que foram com os porcos. É Sarkozy, quando sabemos que é um gajo que usa tacões para ficar bem nas fotos. É agricultura portuguesa, quando sabemos que tal coisa não existe desde o Cavaco. É exportações, quando sabemos que isso é a Auto Europa. É concorrência, quando sabemos que é a China. É calhau sem olhos quando sabemos que é Merkel... Enfim, estou farto de termos suavizantes.
Voltando à vaca fria, e não sei se está fria ou não, sei que as empresas públicas de transportes estão falidas. E agora lá se criou uma comissão para estudar a melhor forma de poupar dinheiro nas empresas públicas de transportes, que é mais uma forma suavizante para dizer que a comissão vai estudar os cortes a aplicar nos transportes públicos. Já sabemos que 600 kms de linha férrea vão ao ar. Agora, parece que se estuda a forma de reduzir a rede de transportes públicos de Lisboa. E quem está à frente desta comissão é o homem que esteve à frente da comissão que estudou a forma de aumentar a rede de transportes públicos de Lisboa. Faz sentido, por um lado. Como foi ele que a aumentou, agora sabe exactamente onde cortar para a reduzir. Por outro lado, não faz sentido nenhum pôr a pessoa a quem se entregaram milhões para gastar à frente de uma comissão que quer reduzir os milhões que ele arranjou maneira de pôr a voar. Enfim. São escolhas e nada disto surpreende por aí além.
Ilustração de Marco Joel Santos

Evidentemente que concordo com o corte maciço das redes de transportes públicos. Não só de Lisboa, como do Porto, de Coimbra e de Sernancelhe. Pelo menos estes quatro, senão outros mais, como Mação e Aljustrel. É cortar porque isso é coisa que concordo, por várias razões, e enumerando:
• não utilizo transportes públicos, só utilizo automóvel; por isso, a mim não me afecta em nada;
• são um foco de disseminação de doenças, particularmente de doenças de pobre; nada de gota ou enxaqueca, é mais gripe suína e tuberculose;
• são um transporte mais ecológico que os automóveis, e por isso devem ser pagos mais caro que o custo de andar de automóvel; explica-se facilmente: tudo o que é ecológico é muito mais caro, o que aliás serve de incentivo ao seu uso, não fosse o português apologista do “caro é que é bom”;
• custam impostos de todos e só são usufruídos por alguns, ou seja, o princípio do utilizador-pagador não se aplica; são, por essa razão, contrários ao princípio do Governo, e por essa razão devem ser extintos (ainda de acordo com este princípio, aguardamos o fim de outros serviços que não são pagos pelos utilizadores, ou não são utilizados pelos pagadores – tribunais, Assembleia da República, Presidência da República, etc...);
• em tempos de crise não se devem alimentar vícios; os pobres devem convencer-se de que devem apenas andar a pé ou de bicicleta, ainda que para trabalhar tenham percursos de 20 ou 50 kms;
• porque é saudável andar a pé ou de bicicleta;
• porque é ecológico andar a pé ou de bicicleta, e o Governo pode automaticamente cobrar aos pobres a taxa ambiental porque, recordo, o que é ecológico é mais caro;
• porque é uma receita mais para o Estado – os custos das vias verdes das bicicletas a passar de Gaia para o Porto podem atingir valores astronómicos, e nem se fala das pontes lisboetas...
• finalmente, o fim dos transportes públicos em Portugal é a única decisão que faz sentido, uma vez que dão prejuízo, sendo que obviamente os impostos pagos pelos cidadãos têm fins mais dignos em que ser gastos (Cabo Verde, ilhas Caimão, etc). Aliás, por esta última ordem de ideias, aguarda-se com alguma impaciência o fim de outras coisas que os nossos impostos pagam e que dão prejuízo. As escolas, universidades, hospitais, polícias, estradas e outras coisas do género devem acabar em breve, uma vez que dão prejuízo e estão tecnicamente falidas. Ou pelo menos devem ser privatizadas. Eu proponho desde já uma portagem da Ascendi aqui na minha rua. E com taxa máxima para autocarros da STCP.

sábado, 5 de novembro de 2011

40 ANOS DE MEDDLE

Hoje completam-se 40 anos desde o lançamento do álbum Meddle, cuja capa está a servir de fundo ao blog. Antecipando a data, já há duas semanas que a música que por aqui toca instantaneamente é a primeira faixa desse álbum, One of These Days.
Meddle é um álbum variado, apesar de ter apenas seis faixas, uma das quais com cerca de vinte e três minutos, de nome Echoes.
Apesar de tudo, é provavelmente um dos meus álbuns preferidos. No meu Top 5 de melhores faixas de sempre cabem duas faixas do Meddle. Uma, já toca ali ao lado. A outra é precisamente o Echoes, e penso que, juntamente com Comfortably Numb, é provavelmente a mais perfeita criação de Pink Floyd. Ficam os vídeos de Echoes em Pompeia, no ano seguinte ao do lançamento do álbum, integrados no filme Live In Pompeii:


terça-feira, 1 de novembro de 2011

S.CIRRUS II – O DESAPARECIMENTO


  1. E era que, naqueles dias, e por toda a Judeia, se comemorava a Páscoa; e José e Maria decidiram dirigir-se ao Templo, para adorar o Senhor e pagar umas promessas de umas velinhas em forma de pilinha do Menino, porque o Menino tinha sido operado à garganta;
  2. Ilustração de Marco Joel Santos
    E, sendo longa a jornada, os dois levaram o Menino, para que Ele se familiarizasse com as coisas de seu Pai; e assim se encontraram no Templo que havia sido reconstruido por Herodes, o Grande, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”;
  3. E Viu o Menino que José comprou uma pomba branca e a deu em sacrifício ao sacerdote, que murmurando as palavras santas “Este borra-botas só tem massa para uma reles pomba! Pelo menos não dá trabalho a cortar a goela!”, a degolou e colocou a assar;
  4. Naqueles dias, a cidade do Senhor, Jerusalém, que por acaso foi fundada por um árabe, mas prontos, estava cheia de gente, e José e Maria apressaram-se a dar de frosques antes que acabasse a nota para o regresso;
  5. E eis que tão depressa deram de frosques dali pra fora que apenas deram pela falta do Menino quando estavam quase à porta de casa em Nazaré, a cidade que só quatro séculos depois havia de ser fundada; e a todos procuravam pelo Menino, e ninguém o tinha visto;
  6. E José arrancava a barba aos magotes, e rasgava os seus vestidos, e Maria também arrancava a barba de José aos magotes, mas não rasgava o vestido, até porque já lá estavam trinta e quatro mânfios à espreita do pelo púbico não público;
  7. E Maria desesperava e bradava: “Que raio de pai és tu? Não viste que o órgão sexual masculino do puto não vinha connosco?”, ao que José respondia: “Pai o órgão sexual masculino! Não me tivesses posto esta parelha de cornos com o anjinho do Gabriel e estas fezes não aconteciam!”;
  8. E ambos voltaram atrás, em busca do Menino, e o julgavam já perdido, no meio do reboliço da cidade, e o imaginavam já raptado por especuladores dos mercados ou até por um orfanato católico, ou ainda pior, pela Merkel ou pelo Sarkozy;
  9. E ia ruminando Maria pelo caminho, em preces aflitas ao senhor: “Senhor, protegei o meu Menino, pois este macho de cabra do José está-se marimbando para o puto!”, ao que José igualmente respondia com preces ao Senhor:
  10. Senhor, esta grandessíssima senhora de reputação ligeira não põe os olhinhos no puto e depois eu é que apanho na cornadura! E não esqueças que foi um dos teus que ma pôs assim!”;
  11. E rumaram ao templo, e perguntavam pelo caminho a quantos encontravam, e encontravam gente como o órgão sexual masculino, pois que era a Páscoa, e havia muita gente; e porque a todos perguntavam, demoraram um mês a chegar lá, os estúpidos do órgão sexual masculino!
  12. E quando chegaram ao Templo, encontraram-no já fora de serviço, pois a Páscoa já tinha terminado há um mês; e logo encontraram o Menino, pois que ele estava concentradíssimo a jogar sueca com os sacerdotes e Doutores da Lei;
  13. E os Doutores da Lei tinham muito tempo para jogar à sueca e beber uns cântaros e fumar uns verylights, pois eram Doutores da Lei e a Lei nunca estava doente, e que se estivesse, só para pagar as taxas moderadoras do Relvas a tantos volumes da Lei, seria por certo a Lei enviada para cuidados paliativos e deixava-se a justiça como em Portugal;
  14. E também os sacerdotes tinham muito tempo para jogar sobe e desce e beber uns jarros e fumar umas brocas, pois a Páscoa já havia passado e a única coisa a sacrificar agora eram os subsídios de férias e Natal;
  15. E Maria se abeirou do filho, lavada em lágrimas, e o banho de lágrimas é bonito de se dizer e tal, mas dói como o órgão sexual masculino nas feridas, pois que as lágrimas são salgadas como o Mar Morto;
  16. E assim se abeirando do filho, pregou-lhe um valente par de lagostas pela fronha abaixo e mais lhe disse: “Não queiras saber quando o teu pai souber disto!”, ao que Jesus respondeu: “Qual deles? O José, o Gabriel ou O que chegou ligeiramente atrasado?”;
  17. E José, ouvindo aquilo, nem se acercou da mesa de jogo, receando o escárnio dos Doutores da Lei; mas os Doutores da Lei estavam presos das palavras de Jesus, ou então era do chamon que era do Paquistão;
  18. E dizia Jesus a sua mãe: “Já te acalmaste? Senta-te aí ao lado da grade de mines e cala-te, pois que eu estou tratando das coisas de meu Pai!”, e Maria o questionou: “E é com estes drogaditos de fezes que tratas das coisas de teu Pai?”, e Jesus lhe respondeu: “São drogaditos mas têm cultura geral, pá!”;
  19. E lhes ensinava Jesus: “Meu Pai quer que este Seu povo eleito se erga acima deste mundo, pois que este mundo não é digno do Seu povo; mas há que limpar os actos do povo, e de seus dirigentes, há que fechar offshores e investir no sector primário!”;
  20. E para isso meu Pai enviou antes de mim a Assunção Cristas, que eu ainda não percebi se é minha irmã ou se só tem aquele nome por ter o nariz arrebitado e ter a mania que é boa! Mas para elevar o povo, há que eliminar a iniquidade e inventar o elevador! Ou a báscula, também serve!”;
  21. E dirigindo-se a sua mãe, Jesus rejubilava e perguntava: “Vês como estes homens bebem das minhas palavras?”, e Maria realmente se encontrava estupefacta e maravilhada, e respondeu: “És realmente filho de teu Pai, pois é milagre a forma que encontraste de pôr as tuas palavras dentro dos cântaros!”;
  22. Ora ainda não viste nada, mulher de fraca fé! Quando me vires a transformar água em vinho é que vai ser!”. E um dos Doutores da Lei exclamou: “Bendito sejas, pois que não só falas com a autoridade de teu Pai, ou então é do chamon, como ainda poupas no IVA!”;
  23. Porque naqueles dias governavam aquelas paragens dois homens, e um era Pôncio Cavacos, em nome da César Angela, que andava à altura às voltas com o Astérix e Viriato, e não tinha tempo para aquele pedaço de terra onde Judas havia de perder as botas e o pescoço,
  24. E Herodes Antipassos Coelho, que havia recentemente aumentado o IVA na água, no azeite, que era a electricidade da altura e já era um pau do órgão sexual masculino, e nas fraldas de pano, e menos no golfe, que atraía turistas, ainda que por ali fossem pelados todos os greens, que assim se chamavam browns;
  25. E Maria pegou no Menino e o arrastou dali para fora, e José pregou-lhe com duas chapadas na tromba sem dizer palavra, porque era mais homem de acção, menos naquela noite do Gabriel, e lá tiveram de subornar uma assistente social que já queria levar o puto para um orfanato católico, e mais José exclamou: “Isso ninguém merece, sexe-se!”.