sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

SAIR DAS TREVAS


O cardeal D. José Policarpo é o cardeal patriarca de Portugal. Um príncipe da Igreja com maus hábitos, como fumar e beber uns canecos à mesa da sueca na terra de onde veio e onde ainda vai. E estes são os bons. Penso que o último Concílio para escolher o último Papa deve ter sido um regabofe por causa de D. José. Imaginem o fumo a sair por tudo quanto era sítio, que o homem parece que puxa bem pela beata para a meter nos queixos. Nada de segundas interpretações, por favor, beata aqui é mesmo o cigarro e não uma senhora que não desgruda dos padres, talvez por não ter mais nada que fazer ou por querer fazer algo mais que um padre mais não pode fazer – mas, vá lá, com jeitinho, até vai. Divago. Mas Habemus Papa deve ter-se ouvido tanta vez naqueles dias nos corredores do Vaticano, e vai-se a ver não, afinal era o bom do D. José e seu maço de Gigante. E penso que todos conseguimos mesmo imaginar o cardeal a convidar outros cardeais para uns bons riscos de sueca ou do chinquilho.
Ilustração Marco Joel Santos
Pois bem, ultimamente são mais as vozes da Igreja que se levantam, ainda que mal disfarçadas, para falar das injustiças que se vão vendo por esse mundo fora, mas particularmente em Portugal, que ouvidos que as queiram escutar, e desses cada um tem um par. Os bispos do Porto, de Bragança, até o reitor do santuário de Fátima, têm vindo a lume com ilustrações daquilo que hoje alguns entendidos que de nada percebem chamam assimetrias da sociedade portuguesa. O cardeal patriarca afirma, na missa de Natal, que é necessário “sair das trevas”. Mas uma coisa é a opinião pessoal de cada um destes homens, inteligentes e muito mais versados na arte de entender a rua portuguesa que qualquer político mal amanhado que tenha acabado um curso manhoso numa universidade obscura em tempo recorde para ser presidente de um partido de fantasmas vivos, alguns presidentes da república, e poderem assim serem primeiros sinistros de uma calamidade chamada Portugal. Outra coisa é a disciplina doutrinária.
Não tenho dúvidas que muitos homens da Igreja sabem, conhecem e compreendem o que de facto se passa na sociedade portuguesa. O que se passa na governação portuguesa. Por tradição, a Igreja Católica é conotada com a direita. Se porque este ramo do regime faz da fé em Deus um dos seus pilares, se porque a esquerda se afirma, de cada vez que sobe ao poder, laica, isso já não sei. Provavelmente uma mescla das duas. Quando era criança, lembro-me perfeitamente, na minha terra o padre fazia abertamente campanha eleitoral pela direita. Mas direitas e esquerdas à parte, porque isto já lá não vai com ideologias, ao invés do que pensa o nosso governo, muitos destes homens parecem ter-se apercebido que, desta vez, a direita traz algo mais que aquilo que, tradicionalmente, defendem. E que o país, de facto, sofre. E sofre em silêncio. E apesar da imensa fé que os move, ou pelo menos assim depreendemos das suas posições, ousam falar, ainda que levemente, contra o rumo que esta coisa toda, está mais que visto, leva.
Curioso é que nunca houve na História um personagem, quer tenha sido real ou apenas uma invenção arquetípica, mais comunista, ou como dizem os entendidos do politicamente correcto, marxista-leninista, que o próprio Jesus Cristo. Isto em termos puramente filosóficos, deixemos o político de parte. Porque quando se fala de ideologias não se fala de políticas. Ideologias são ideais, políticas são reais, já sabemos dessa diferença. Tal como Jesus, que pregava o mais inveterado comunismo, enquanto os seus apóstolos, para espalharem a palavra, ainda que deturpada, do seu mestre, a politizaram. Mas se o próprio Jesus era assim, porque tem a Igreja e seus membros a atitude reservada que têm? Porque não expressam livremente a sua opinião?
Há um livro, a que alguns apropriadamente adjectivaram de manual de maus costumes. Nesse livro, a dada altura, e numa das mais simbólicas epístolas do mais esforçado seguidor de Cristo após a sua morte – de notar que, ao contrário do que se pensa, não era apóstolo – Paulo escreve assim:
Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus.
Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação.
Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor.
Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal.
Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência.
É também por essa razão que pagais os impostos, pois os magistrados são ministros de Deus, quando exercem pontualmente esse ofício.
Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito.” - Romanos, 13, 1-7.
Que escrever mais? É óbvio que eu jamais poderia ser católico ou ser cristão. Toda a esperança que tinha de um dia juntar à mesa da sueca o bispo de Bragança, o do Porto, o cardeal patriarca e eu mesmo, jogando uns riscos bem traçados, vituperando contra os desmandos dos governos portugueses, contra os vícios do poder, contra a mentira das campanhas eleitorais e a futilidade do exercício ideológico contra toda a casta de sanguessugas que nos corroem o país até aos ossos, morreu na disciplina doutrinária. Muito gostaria de estar com estes homens, numa mesa imunda com um garrafão de cinco litros por debaixo – o vulgar Joãozinho – puxando dumas cartas e roendo sandes de torresmos, soltando uns sonoros e incontidos caralhos e foda-ses. Mas isso nunca vai acontecer – até Jesus, a determinada altura e depois de ter massacrado os especuladores financeiros do Templo, e assim “saindo das trevas”, não ousou enfrentar César - “Dai a César o que é de César”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O QUEIJO


Ilustração de Marco Joel Santos
Reza a lenda que, certa vez, um pastor, após longa ausência nos montes, chegou finalmente a casa. Trazia um queijo, um daqueles belos queijos serranos, contando regalar a sua esposa com tão requintado presente. Porque a vida de pastor não era abastada e os queijos que fazia não os comia, antes os vendia no pequeno mercado da vila, aos Sábados. O pastor não tinha filhos, e tinha algum desgosto por tal facto. Ao mesmo tempo, a sua esposa era conhecida em toda a aldeia, meia dúzia de casebres perdidos nas encostas da serra, pela sua enorme teimosia.
O homem, querendo de imediato saborear o queijo trazido de tão longa jornada e feito com o leite das suas cabras e com o suor da sua fronte, pede à esposa uma faca com que o cortar. De imediato a esposa lhe traz uma tesoura. O pastor, olhando para as mãos de sua esposa, diz-lhe que vá buscar uma faca, pois que um queijo não se pode cortar com uma tesoura. Mas a esposa recusa-se, insiste que o queijo se corta com uma tesoura e não com uma faca. A discussão torna-se altercação, sobe de tom até ao confronto físico, e finalmente ao desespero do pastor. Arranca a esposa do chão e leva-a no costado até ao poço da casa, lança-a às águas escuras e vê-a debater-se em desespero. Grita-lhe que a salva, que a tira das águas negras que a envolvem, que a poupa à morte certa, se ela admitir que um queijo se corta com uma faca.
Demasiado tarde, a esposa do pastor já não consegue falar, pois afunda-se nas águas. Agora é o pastor que chora, olhando a desgraça que sobre ela e sobre ele se abate. A sua esposa amada estava já morta, pensava. Mas eis que um braço se ergue das águas, e dele uma mão, e dela dois dedos fazem um movimento de tesoura.
Esta lenda parece-me elucidativa para os tempos que vivemos. Muita gente, em todos os quadrantes desta sociedade europeia, teima em tentar cortar o queijo com uma tesoura, sabendo que a faca é a única solução. Tarde demais. As águas negras já nos cobriram a todos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

HOMENAGEM

Morreu um dos meus maiores heróis de infância. Morreu hoje o médico, o futebolista genial, o político novo e o velho democrata revolucionário. Morreu um dos grandes, morreu o Dr. Sócrates.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ESQUERDO À GREVE


Ilustração de Marco Joel Santos
Costuma-se falar do direito à greve. Mas eu hoje, e volvidos alguns dias da Greve Geral, constituindo este tempo uma espécie de interregno de maturação e reflexão, e podem perfeitamente aquilatar da minha capacidade de emprego de palavreado caro como sinal de reflexão, escrevo sobre o esquerdo à greve. Até porque o facto de haver o direito à greve, e porque politicamente correcto, implica obviamente, numa óptica de não discriminação, um esquerdo à greve.
O que é o esquerdo à greve? Já lá vamos. Antes de mais, penso que deve também existir o esquerdo à indignação, já que tanto se fala igualmente do direito à indignação. Por outro lado, admito perfeitamente o fim da equidade, já que o nosso excelso presidente decorativo tanto fala do princípio da equidade. Eu penso que isto da equidade me cheira a cavalo, mas já me disseram que não tem nada a ver com equitação. Esse parece ser o princípio da hipidade.
Nos dias antecedentes, precedentes, poscedentes, procedentes e proxenetas à greve, pude assistir à discussão do tema pelas ruas do meu país. Ainda é meu, desde que pague aos senhores da Troika onze mil euros, senão posso ver a Serra da Estrela empenhada. O que se dizia então? Discutiam-se arduamente os factos que levaram à convocação de tão grave acto de protesto? Discutiam-se os planos do governo para minorar o sofrimento do povo? Discutia-se a posição algo dúbia do presidente decorativo? Não. Nada disso. Discutia-se antes se se era a favor ou contra a greve. Mas contra esta greve? Não, também não, discutia-se se se deve ou não poder fazer greves em momentos como este, em que os portugueses tanto se queixam dos impostos excessivos e da inflação.
E algumas pessoas, incluindo o primeiro sinistro, defendem que esta altura, em que as coisas estão más e mais sacrifícios ainda se poderão pedir à abastada classe média portuguesa, não é para fazer greves, mas antes para trabalhar muito, cada vez mais, sem parar, para endireitar as contas do país. Ora então, e na visão iluminada destas pessoas, e sei que é iluminada porque ainda há dinheiro para iluminação pública, embora pense que tal não seja eterno, deve fazer-se greves quando tudo está porreiro e na paz dos anjos. Nessa altura sim, mas agora que se cortam direitos elementares ao pessoal que labuta, isso não! É antipatriótico.
Outras defendem que podiam fazer as greves aos fins de semana, de forma a que estas não prejudiquem a produção do país. Ora, no meu entender, e a minha opinião não é já demasiado iluminada, até porque se fundiu uma lâmpada do candeeiro desta divisão, greves que não incomodam ninguém... não incomodam ninguém, certo? Então... para que servem...?
Por outro lado, e este deve ser o lado esquerdo, ouvi com uma certa atenção e sem grande surpresa, grande parte das pessoas se manifestarem simplesmente contra a greve. Contra o direito à greve. Ora, que eu saiba, e apesar de termos, segundo alguns cérebros novamente muito iluminados, uma Constituição comune... comu... comuni... ou essa palavra maldita, o facto é que a Constituição garante o direito à greve. Bem sei que desde que o Sócrates pediu que Portugal passasse a ser um país do terceiro mundo chulado até ao tutano pelo fmi num período em que só decisões de gestão corrente podiam ser tomadas, a Constituição deixou de ser aquilo que era, e até já se conseguiu um feito digno dos anais e dos vaginais dos livros de História, que é o de reduzir remunerações em Portugal. Mas eu penso que as pessoas são contra os assassinatos. Penso que são, mas já não sei. Se calhar até já concordam com matar outro mânfio por não concordar com ele nas regras de trânsito. Penso que as pessoas não concordam com os assaltos. Ou talvez concordem, desde que feitos com jeitinho e nos fins de semana, para não incomodar a produção do país. Isto de discutirem um dos mais básicos direitos humanos e constitucionais confunde-me e tendo, dado o adiantado da minha degradação cerebral, por certo sintoma de ter visto muitos debates pseudo-económicos na TV, a ficar assim confuso dos pensamentos.
Mas agora vos digo: há um direito à greve. Logo, há um esquerdo à greve. Quem faz greve perde um dia de salário. Perde também, muitas vezes, a confiança do seu patrão, o que não faz qualquer sentido, já que uma pessoa que demonstre ser capaz de se defender é capaz igualmente de trabalhar de forma eficiente, enquanto uma pessoa que tal não demonstre apenas mostra uma enorme vontade de lamber cus. Mas percebe-se porque haja gente que até nem faça greve mesmo concordando com ela. Mas eu, que estou um pouco atrasado em relação ao ritmo dos demais membros desta activa e temerária sociedade, venho promover uma ideia. Sim, eu tive uma ideia. Já sei que sim, quem tem ideias é idiota, mas nem todos podemos ser primeiros sinistros.
A minha ideia é simples. Façam-se os verdadeiros registos de quem faz greve ou não. Retire-se a essa pessoas o tal dia de trabalho, como já contempla a Lei. De seguida, e no decurso dessa e de possivelmente outras greves, analisem-se os direitos que foram conquistados por quem fez as greves. Retirem-se esses direitos a quem não fez. Porque esse é que é o tal esquerdo à greve: é todo aquele que mete ao esquerdo direitos pelos quais não lutou. Lei do esquerdo à greve, JÁ!
PS: obviamente, e como todas as boas Leis, esta deve ter efeitos retroactivos; assim sendo, proponho igualmente que, apenas um dia por ano, de forma simbólica, os esquerdos à greve possam ser agrilhoados aos seus locais de trabalho, laborar essas 24 horas com direito a um pedaço de pão e meio copo de água. Devem depois entregar toda a produção ao senhor, retirados, obviamente, dez por cento da mesma para o dízimo à Igreja. No final desse dia, o senhor decidirá se poderão comer no dia seguinte... ou não. Poderia ser, eventualmente, e se não forem demasiado burros, uma forma de lhes mostrar o que as greves e protestos populares conseguiram desde os tempos feudais. Mas só se não forem mesmo muito burros.

domingo, 13 de novembro de 2011

CRÓNICA DE UMA MORTE ADIADA

Ilustração de Marco Joel Santos
Escrever é um acto de liberdade. É um acto que expõe a nossa liberdade perante o mundo, mas, mais que isso, nos liberta de forma pessoal e íntima. É um desabafo, é uma catarse que nos limpa a mente. Escrever é, em última análise, aquilo que nos distingue dos animais, pois combina a organização da nossa comunicação com a capacidade de raciocínio. Uma civilização que não deixou escritos os seus pensamentos não é conhecida ou valorizada.
Após este preâmbulo mais ou menos filosófico, eis-me de volta à escrita, e esperaria eu e quem possa ler estas palavras que quem assim escreve tem por missão, numa altura em que vemos as ameaças pairarem sobre o horizonte, dar alguma esperança e validar a vida. Mas a verdade é que venho escrever sobre morte, e não sobre vida. É inevitável escrever sobre a crise. Há aqueles que defendem que há vida para além da crise. Acredito que tenham essa visão algo ingénua de que podem passar incólumes perante a tempestade que se avizinha. Acredito que essas pessoas acreditam nelas próprias, ao pensarem que alguém, um alguém que ainda não descortinamos, um qualquer D.Sebastião renascido dos nevoeiros das planícies africanas os salve, quando não o país e quando não até o mundo inteiro. D.Sebastião, contudo, está morto e não sabemos se está enterrado, mas esperemos que sim, pois as moscas não distinguem putrefacção real da putrefacção plebeia. E a crise também não contemplará mais os realistas que os optimistas, e não vale a pena chorar constantemente, mas a verdade é que nem isso fará com que os que sorriem sejam tratados de forma diferente. Eu não choro, mas também não tenho a displicência de sorrir e sonhar com melhores dias. Eles não virão. Virão piores, e é melhor que disso estejamos todos certificados.
As “ajudas externas” prestadas a Portugal e outros países europeus não são ajudas. São tentativas de alavancagem financeira, de modo a que estas economias deficitárias possam recuperar a prazo. Os países “intervencionados” têm de pagar a “intervenção”, e com juros caríssimos. E a verdade é que não conheço qualquer caso, no mundo inteiro, em que uma “intervenção” do FMI tenha resultado em qualquer benefício, seja ele qual for, para qualquer desses países “intervencionados”. O problema é que não são acautelados os interesses nacionais. Não há decisões de florescimento económico. E falo em florescimento e não em crescimento.
Poucos se dão conta que o crescimento económico global está a condenar-nos definitivamente como espécie. Não se pode crescer sempre. Por uma razão muito simples – não há recursos naturais suficientes. Isso basta. Mas não chega para explicar tudo. A globalização abriu fronteiras e, enquanto fomos nós, os países desenvolvidos, a aproveitar o facto para escoar os nossos excessos produtivos (Portugal não será um caso paradigmático), tudo correu bem, pois a miséria ficou do lado de lá das fronteiras. Agora, que os miseráveis aproveitam da mesma forma as fronteiras abertas, queixamo-nos de que estamos a perder competitividade. Obviamente. A equação tem dois termos, e nós estamos inseridos apenas num. E nem nos apercebemos de que o equilíbrio é inevitável.
A acrescer a isto, há as apostas milionárias nos casinos. E esses casinos, a que alguns iluminados ousam chamar mercados, reclamam as perdas. São casinos, não são mercados. Mercado é um local salutar, onde se trocam bens por outros bens ou por moeda baseada no valor em bens que representa. Não vos passa pela cabeça o que se aprende em disciplinas como Gestão Financeira, onde perdemos por completo a decência de querer fazer negócio e adquirimos compulsivamente a ideia de querer “fazer dinheiro”. Lavagem cerebral completa, e nas nossas universidades! Instrumentos como warrants ou opções são puras apostas e não precisam de regulamentações para serem colocadas ao serviço da ideia de “fazer dinheiro”, que é em tudo diferente de “ganhar dinheiro”. A primeira é um roubo puro e simples e seria em tempos idos castigada com as galés. A segunda é a nobre ideia de garantir a subsistência através do trabalho e da produção de um bem ou serviço. Os bancos perderam as apostas, não têm como pagar. Os Estados não deixam cair os Bancos e emprestam-lhes dinheiro para cobrir as suas ruinosas apostas. Para tal, os Estados deixam cair por terra os compromissos que firmaram com os seus cidadãos. Estes acabam por provir o dinheiro que os bancos perderam, que já era deles! E se caírem os bancos? Voltaremos à economia real, àquela em que se compram batatas no mercado, ou se trocam nabos por costeletas? Quem tem medo disso? Acabará o mundo? Por certo não, mas acabarão alguns mundos, e provavelmente o das apostas, os dos casinos, esses sim, tenderão a acabar. E também o das empresas que não conseguem criar riqueza por si, mas antes apenas com estruturas de débito na ordem dos 90 ou 95%, como é o caso das maiores empresas portuguesas.
Preservar um sistema que privilegia a finança à economia é fingir que tudo está bem, enquanto os que cobrem os buracos financeiros proveem para aqueles que perderam as apostas, mas que não estão dispostos a pagá-las. Paguemos nós, então. A finança, como o nome diz, não é um instrumento de geração de valor, a própria palavra indica a sua função: dar um fim aos fundos gerados pela economia. Confundir finança com economia é o grande mal dos economistas de hoje em dia. Na realidade, são financeiros, mas não economistas. Por outro lado, puseram de forma descarada a finança a substituir a economia como geradora de fundos e rendimentos. Logo assim, esquecem o mais importante: é preciso comprar melões para que o que os compra valha alguma coisa. O que quero dizer? Simples, não há um décimo de dinheiro real, baseado no seu valor facial com correspondência económica, do dinheiro virtual, criado pelas operações financeiras. Simplesmente não há. Não há valor no mundo inteiro que cubra o valor de dívida que anda por aí. O sistema só tem uma solução: implodir. Não há outra solução, não há outro caminho para o mundo inteiro senão fazer implodir o sistema financeiro. Porque este sistema não existe, simplesmente. Não tem consubstanciação económica, não tem valor agregado aos pseudo-valores gerados em computadores. E quem acredita que virão uns contentores com notas de BCE para Portugal, no valor de 78 mil milhões de euros é mais parvo que um financeiro. Esse dinheiro nunca chegará a ser circulado. Simplesmente porque não existe. São números num computador. E se cada um chegar ao mercado (o real, onde efectivamente se trocam mercadorias por moeda ou outras mercadorias) com um computador a dizer que temos não sei quantos zeros na nossa conta bancária, o mais provável é que alguma peixeira do bolhão nos dê com um robalo na tromba enquanto indaga gentilmente pela massa.
O sistema vai implodir, e disso podemos ter a certeza. Os números catastróficos de países que receberam “ajuda” externa dão-nos um vislumbre do que virá a acontecer. A Grécia entrou no caos, a Irlanda tem números tão maus que não se prevê que nem daqui a 20 anos os irlandeses retomem o seu nível de vida em 2008. Nós seguiremos o mesmo caminho. A Itália, a Espanha e até países tão insuspeitos como a Áustria estão com taxas de juro recorde, que não pararão de subir. O castelo de cartas vai ruir. E vai sobreviver o valor, esse valor económico, que é o do trabalho. E esse é o grande valor que temos, o único de que podemos sempre dispor, e o mais atacado pelos casinos. Os casinos irão com os porcos, o trabalho ficará. Estão preparados?

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Parece que ainda não acabaram outras e estala nova polémica. Agora é com os transportes públicos, e porque parece que as empresas públicas de transportes parecem estar falidas. Ou tecnicamente falidas, que é um termo suavizante para dizer que estão falidas. Aliás, ultimamente temos sido assaltados permanentemente com termos suavizantes, e isso começa a irritar um pouco quem fala apenas o português mais duro e puro, e sem acordos pornográficos. É que é a crise do euro, quando sabemos que não é uma crise, é uma morte. É a crise da dívida soberana, quando sabemos que não é nenhuma crise rainha, mas tão só e apenas activos bancários que foram com os porcos. É Sarkozy, quando sabemos que é um gajo que usa tacões para ficar bem nas fotos. É agricultura portuguesa, quando sabemos que tal coisa não existe desde o Cavaco. É exportações, quando sabemos que isso é a Auto Europa. É concorrência, quando sabemos que é a China. É calhau sem olhos quando sabemos que é Merkel... Enfim, estou farto de termos suavizantes.
Voltando à vaca fria, e não sei se está fria ou não, sei que as empresas públicas de transportes estão falidas. E agora lá se criou uma comissão para estudar a melhor forma de poupar dinheiro nas empresas públicas de transportes, que é mais uma forma suavizante para dizer que a comissão vai estudar os cortes a aplicar nos transportes públicos. Já sabemos que 600 kms de linha férrea vão ao ar. Agora, parece que se estuda a forma de reduzir a rede de transportes públicos de Lisboa. E quem está à frente desta comissão é o homem que esteve à frente da comissão que estudou a forma de aumentar a rede de transportes públicos de Lisboa. Faz sentido, por um lado. Como foi ele que a aumentou, agora sabe exactamente onde cortar para a reduzir. Por outro lado, não faz sentido nenhum pôr a pessoa a quem se entregaram milhões para gastar à frente de uma comissão que quer reduzir os milhões que ele arranjou maneira de pôr a voar. Enfim. São escolhas e nada disto surpreende por aí além.
Ilustração de Marco Joel Santos

Evidentemente que concordo com o corte maciço das redes de transportes públicos. Não só de Lisboa, como do Porto, de Coimbra e de Sernancelhe. Pelo menos estes quatro, senão outros mais, como Mação e Aljustrel. É cortar porque isso é coisa que concordo, por várias razões, e enumerando:
• não utilizo transportes públicos, só utilizo automóvel; por isso, a mim não me afecta em nada;
• são um foco de disseminação de doenças, particularmente de doenças de pobre; nada de gota ou enxaqueca, é mais gripe suína e tuberculose;
• são um transporte mais ecológico que os automóveis, e por isso devem ser pagos mais caro que o custo de andar de automóvel; explica-se facilmente: tudo o que é ecológico é muito mais caro, o que aliás serve de incentivo ao seu uso, não fosse o português apologista do “caro é que é bom”;
• custam impostos de todos e só são usufruídos por alguns, ou seja, o princípio do utilizador-pagador não se aplica; são, por essa razão, contrários ao princípio do Governo, e por essa razão devem ser extintos (ainda de acordo com este princípio, aguardamos o fim de outros serviços que não são pagos pelos utilizadores, ou não são utilizados pelos pagadores – tribunais, Assembleia da República, Presidência da República, etc...);
• em tempos de crise não se devem alimentar vícios; os pobres devem convencer-se de que devem apenas andar a pé ou de bicicleta, ainda que para trabalhar tenham percursos de 20 ou 50 kms;
• porque é saudável andar a pé ou de bicicleta;
• porque é ecológico andar a pé ou de bicicleta, e o Governo pode automaticamente cobrar aos pobres a taxa ambiental porque, recordo, o que é ecológico é mais caro;
• porque é uma receita mais para o Estado – os custos das vias verdes das bicicletas a passar de Gaia para o Porto podem atingir valores astronómicos, e nem se fala das pontes lisboetas...
• finalmente, o fim dos transportes públicos em Portugal é a única decisão que faz sentido, uma vez que dão prejuízo, sendo que obviamente os impostos pagos pelos cidadãos têm fins mais dignos em que ser gastos (Cabo Verde, ilhas Caimão, etc). Aliás, por esta última ordem de ideias, aguarda-se com alguma impaciência o fim de outras coisas que os nossos impostos pagam e que dão prejuízo. As escolas, universidades, hospitais, polícias, estradas e outras coisas do género devem acabar em breve, uma vez que dão prejuízo e estão tecnicamente falidas. Ou pelo menos devem ser privatizadas. Eu proponho desde já uma portagem da Ascendi aqui na minha rua. E com taxa máxima para autocarros da STCP.

sábado, 5 de novembro de 2011

40 ANOS DE MEDDLE

Hoje completam-se 40 anos desde o lançamento do álbum Meddle, cuja capa está a servir de fundo ao blog. Antecipando a data, já há duas semanas que a música que por aqui toca instantaneamente é a primeira faixa desse álbum, One of These Days.
Meddle é um álbum variado, apesar de ter apenas seis faixas, uma das quais com cerca de vinte e três minutos, de nome Echoes.
Apesar de tudo, é provavelmente um dos meus álbuns preferidos. No meu Top 5 de melhores faixas de sempre cabem duas faixas do Meddle. Uma, já toca ali ao lado. A outra é precisamente o Echoes, e penso que, juntamente com Comfortably Numb, é provavelmente a mais perfeita criação de Pink Floyd. Ficam os vídeos de Echoes em Pompeia, no ano seguinte ao do lançamento do álbum, integrados no filme Live In Pompeii:


terça-feira, 1 de novembro de 2011

S.CIRRUS II – O DESAPARECIMENTO


  1. E era que, naqueles dias, e por toda a Judeia, se comemorava a Páscoa; e José e Maria decidiram dirigir-se ao Templo, para adorar o Senhor e pagar umas promessas de umas velinhas em forma de pilinha do Menino, porque o Menino tinha sido operado à garganta;
  2. Ilustração de Marco Joel Santos
    E, sendo longa a jornada, os dois levaram o Menino, para que Ele se familiarizasse com as coisas de seu Pai; e assim se encontraram no Templo que havia sido reconstruido por Herodes, o Grande, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”;
  3. E Viu o Menino que José comprou uma pomba branca e a deu em sacrifício ao sacerdote, que murmurando as palavras santas “Este borra-botas só tem massa para uma reles pomba! Pelo menos não dá trabalho a cortar a goela!”, a degolou e colocou a assar;
  4. Naqueles dias, a cidade do Senhor, Jerusalém, que por acaso foi fundada por um árabe, mas prontos, estava cheia de gente, e José e Maria apressaram-se a dar de frosques antes que acabasse a nota para o regresso;
  5. E eis que tão depressa deram de frosques dali pra fora que apenas deram pela falta do Menino quando estavam quase à porta de casa em Nazaré, a cidade que só quatro séculos depois havia de ser fundada; e a todos procuravam pelo Menino, e ninguém o tinha visto;
  6. E José arrancava a barba aos magotes, e rasgava os seus vestidos, e Maria também arrancava a barba de José aos magotes, mas não rasgava o vestido, até porque já lá estavam trinta e quatro mânfios à espreita do pelo púbico não público;
  7. E Maria desesperava e bradava: “Que raio de pai és tu? Não viste que o órgão sexual masculino do puto não vinha connosco?”, ao que José respondia: “Pai o órgão sexual masculino! Não me tivesses posto esta parelha de cornos com o anjinho do Gabriel e estas fezes não aconteciam!”;
  8. E ambos voltaram atrás, em busca do Menino, e o julgavam já perdido, no meio do reboliço da cidade, e o imaginavam já raptado por especuladores dos mercados ou até por um orfanato católico, ou ainda pior, pela Merkel ou pelo Sarkozy;
  9. E ia ruminando Maria pelo caminho, em preces aflitas ao senhor: “Senhor, protegei o meu Menino, pois este macho de cabra do José está-se marimbando para o puto!”, ao que José igualmente respondia com preces ao Senhor:
  10. Senhor, esta grandessíssima senhora de reputação ligeira não põe os olhinhos no puto e depois eu é que apanho na cornadura! E não esqueças que foi um dos teus que ma pôs assim!”;
  11. E rumaram ao templo, e perguntavam pelo caminho a quantos encontravam, e encontravam gente como o órgão sexual masculino, pois que era a Páscoa, e havia muita gente; e porque a todos perguntavam, demoraram um mês a chegar lá, os estúpidos do órgão sexual masculino!
  12. E quando chegaram ao Templo, encontraram-no já fora de serviço, pois a Páscoa já tinha terminado há um mês; e logo encontraram o Menino, pois que ele estava concentradíssimo a jogar sueca com os sacerdotes e Doutores da Lei;
  13. E os Doutores da Lei tinham muito tempo para jogar à sueca e beber uns cântaros e fumar uns verylights, pois eram Doutores da Lei e a Lei nunca estava doente, e que se estivesse, só para pagar as taxas moderadoras do Relvas a tantos volumes da Lei, seria por certo a Lei enviada para cuidados paliativos e deixava-se a justiça como em Portugal;
  14. E também os sacerdotes tinham muito tempo para jogar sobe e desce e beber uns jarros e fumar umas brocas, pois a Páscoa já havia passado e a única coisa a sacrificar agora eram os subsídios de férias e Natal;
  15. E Maria se abeirou do filho, lavada em lágrimas, e o banho de lágrimas é bonito de se dizer e tal, mas dói como o órgão sexual masculino nas feridas, pois que as lágrimas são salgadas como o Mar Morto;
  16. E assim se abeirando do filho, pregou-lhe um valente par de lagostas pela fronha abaixo e mais lhe disse: “Não queiras saber quando o teu pai souber disto!”, ao que Jesus respondeu: “Qual deles? O José, o Gabriel ou O que chegou ligeiramente atrasado?”;
  17. E José, ouvindo aquilo, nem se acercou da mesa de jogo, receando o escárnio dos Doutores da Lei; mas os Doutores da Lei estavam presos das palavras de Jesus, ou então era do chamon que era do Paquistão;
  18. E dizia Jesus a sua mãe: “Já te acalmaste? Senta-te aí ao lado da grade de mines e cala-te, pois que eu estou tratando das coisas de meu Pai!”, e Maria o questionou: “E é com estes drogaditos de fezes que tratas das coisas de teu Pai?”, e Jesus lhe respondeu: “São drogaditos mas têm cultura geral, pá!”;
  19. E lhes ensinava Jesus: “Meu Pai quer que este Seu povo eleito se erga acima deste mundo, pois que este mundo não é digno do Seu povo; mas há que limpar os actos do povo, e de seus dirigentes, há que fechar offshores e investir no sector primário!”;
  20. E para isso meu Pai enviou antes de mim a Assunção Cristas, que eu ainda não percebi se é minha irmã ou se só tem aquele nome por ter o nariz arrebitado e ter a mania que é boa! Mas para elevar o povo, há que eliminar a iniquidade e inventar o elevador! Ou a báscula, também serve!”;
  21. E dirigindo-se a sua mãe, Jesus rejubilava e perguntava: “Vês como estes homens bebem das minhas palavras?”, e Maria realmente se encontrava estupefacta e maravilhada, e respondeu: “És realmente filho de teu Pai, pois é milagre a forma que encontraste de pôr as tuas palavras dentro dos cântaros!”;
  22. Ora ainda não viste nada, mulher de fraca fé! Quando me vires a transformar água em vinho é que vai ser!”. E um dos Doutores da Lei exclamou: “Bendito sejas, pois que não só falas com a autoridade de teu Pai, ou então é do chamon, como ainda poupas no IVA!”;
  23. Porque naqueles dias governavam aquelas paragens dois homens, e um era Pôncio Cavacos, em nome da César Angela, que andava à altura às voltas com o Astérix e Viriato, e não tinha tempo para aquele pedaço de terra onde Judas havia de perder as botas e o pescoço,
  24. E Herodes Antipassos Coelho, que havia recentemente aumentado o IVA na água, no azeite, que era a electricidade da altura e já era um pau do órgão sexual masculino, e nas fraldas de pano, e menos no golfe, que atraía turistas, ainda que por ali fossem pelados todos os greens, que assim se chamavam browns;
  25. E Maria pegou no Menino e o arrastou dali para fora, e José pregou-lhe com duas chapadas na tromba sem dizer palavra, porque era mais homem de acção, menos naquela noite do Gabriel, e lá tiveram de subornar uma assistente social que já queria levar o puto para um orfanato católico, e mais José exclamou: “Isso ninguém merece, sexe-se!”.

sábado, 29 de outubro de 2011

AS MEDIDAS


Ilustração de Marco Joel Santos

Tomar medidas é das coisas mais importantes ultimamente. Uma grande parte das pessoas fala das medidas que se tomam. A Troika já nos avisou, como país, que teremos de tomar novas medidas num futuro próximo. A União Europeia, assim chamada por tradição, tomou medidas. O Obama, lá do outro lado do mar, anuncia que tomou medidas. O Brasil e a China estão à espera de medidas. Mas, em boa verdade, o que são estas medidas?
Há várias formas de medidas, mas aquelas de que ultimamente temos ouvido falar mais são de dois tipos. As medidas que se tomam e as medidas que adoptamos. Ora tomar uma medida parece-me uma coisa pouco esperta. Eu tomo é medicamentos para o colesterol. Também tomo café. Não tomo medidas nem sei o que tal seja. Por outro lado, adoptar é uma coisa que associo a animais de estimação ou aos filhos que os outros não querem.
Isto das medidas não sei de onde vem. Mas o que é certo é que temos de tomar medidas. E se a mim me dissessem para tomar medidas relativamente à situação económica de Portugal, eu sei bem o que faria. A verdade é que somos instigados a ter objectivos, no trabalho e até na vida, e esses objectivos têm de ser quantificados. Hoje ninguém se contenta com resposta tipo “melhorei o ambiente na minha equipa de trabalho”. Não, é necessário apresentar um inquérito com x perguntas avalizadas e y respostas validadas e apresentar os resultados com gráficos de cores mais ou menos berrantes e se possível em Powerpoint com umas animações tipo remoínho ou pixelização. É que se assim não for, ninguém acredita em nós.
Temos de ter objectivos quantificáveis. Nada disso de responder que o que mais queremos da vida é ser felizes ou ter saúde. Nada disso. É necessário saber quantas vezes sorrimos por dia para podermos apresentar resultados quanto à nossa felicidade. E é necessário prever os nossos objectivos em termos de saúde, tipo só queremos ter um cancro e dois AVCs e pode ser que seja uma trombose que nos f... aça ir para a cova. Isto se não optarmos por ser cremados ou cromados, pois penso que uma estátua cromada ao lado da lareira lá de casa até ficava bem.
Por isso, temos de tomar medidas em Portugal. Comecemos por medir o comprimento dos nossos rios, os kms das nossas estradas, a altitude das nossas montanhas. Depois podemos ir mais ao pormenor, com medidas do infinitamente grande, como a medida da dívida de cada um de nós ao estrangeiro, até ao infinitamente pequeno, como o QI do nosso primeiro ministro. É preciso é apresentar medidas à Angela, e por isso, eu proponho que possamos carregar uma pequena maleta com instrumentos de medida, tipo uma fita métrica, para medir as nossas estaturas e o comprimento dos nossos passos, um transferidor, para medir ângulos de visão, um paquímetro, aquele que serve para medir espessuras pequeninas, para medirmos a espessura dos cérebros dos nossos políticos... Tomar medidas é necessário, e se são medidas que a troika quer, devíamos atolá-los de medidas. Até porque assim seria mais fácil sacar-nos impostos com as medidas tiradas.
Uma medida importante seria a dos genitais do Passos Coelho. Eu sei que o Berlusconi já disse que a Angela é infornicável, mas parece-me que o Sócrates andou por lá a satisfazer desejos. Ou pelo menos a tentar. Se não convenceu a senhora é porque não tinha medida suficiente. Ou então não tinha jeito... Saber se o Passos tem medida, pelo menos, é importante. Porque jeito ele tem, já nos f... a todos em grande estilo. Mas devia era ir f... a gaja de Berlim, porque eu acho que ela tem uma fixação qualquer por medidas e sinceramente sempre a achei um bocado mal f... E não esquecer que, afinal, o nosso primeiro ministro é africano! E que bem que ele nos quer estabelecer no nível de vida do seu continente!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O PONTO


Há muito que deixei de ver um programa de debate que acontece todas as segundas-feiras no canal público de TV. Deixei de o ver por diversas razões. Porque a moderadora é uma extremista comparável aos terroristas islâmicos, pelos santos convidados que andaram a fazer cagada atrás de cagada neste país, anos a fio de prumo e esquadro, instados a dar opiniões sobre tudo o que está mal, que para além do mais ainda apresentam uma candura extraordinária, como se tivessem aterrado neste país de para-quedas e nunca tivessem ouvido falar de nada.
Ilustração de Marco Joel Santos
É um programa em que de tudo aparece, é verdade. Também há algumas opiniões lúcidas. Mas é confrangedor ver tanta gente responsável pelo ponto onde chegamos apontar o dedo a tudo e mais um par de texanos para justificar a crise em que mergulhamos sem terem um único rasgo que possamos apelidar de solução, mesmo que não valesse um caroço de tremoço. Até um puto que dizia que andava a vender trabalho de porta a porta apareceu (pareceu-me um bocado assim para a prostituição pré-amigos de Alex), e afirmou que era necessário bater punho, expressão que eu ou muito me engano ou foi interpretada pela maior parte dos portugueses como narcisista e masturbatória ou puramente de pessegueiro esgalhado. É destes extraterrestres que eu gosto mais, daqueles que parece que vieram inventar a roda sem nada conhecerem do que realmente se passa por esse Portugal profundo fora, o Portugal da miséria.
Seja como for, a verdade é que de vez em quando vou fumar uma beata mal amanhada à cozinha ou à varanda e passo inevitavelmente pela TV. Ontem foi uma dessas ocasiões e ouvi um senhor, que não sei quem é, dizer uma das coisas mais ditas ultimamente: “Os funcionários públicos têm de perceber que trabalham para um patrão que está falido”. Ora as palavras são como as cerejas e os pensamentos como os tremoços, e dei por mim a pensar e a escrever sobre isso.
Ora, então, encadeando acontecimentos, os funcionários públicos têm de perceber que trabalham para um patrão falido. Assim sendo, e sigam o meu raciocínio senão ele perde-se por aí, atacado pelo Alzheimer como anda, se o patrão está falido, há que despedir gente. E comprar Ferraris, que é o que se faz quando se entra em insolvência. Esqueçam lá os chassos dos BMs e Mercedes, o Estado faliu! Como 80% dos funcionários públicos são técnicos altamente qualificados, como juízes, professores, magistrados, médicos, enfermeiros, contabilistas, engenheiros e ainda outros que não são tão qualificados, mas são altamente treinados, como militares e polícias de todas as forças policiais, desde a PSP até ao SEF, o Estado falido terá então de despedir gente qualificada. E os homens do lixo, não esquecer. Muita gente esquece mas se eles é que se esquecem de passar um mês à vossa porta queria ver-vos a todos a cuspir postas de pâncreas todas as manhãs a sair de casa.
Assim sendo, e como se diz por aí, que este país é um país de doutores e engenheiros, esta gente não vai encontrar no privado saída profissional alguma, a não ser a de desempregado licenciado. O mais provável é aqueles que estiverem em idade para tal arrumarem as botas para a reforma antecipada ou então emigrar para qualquer lado, nem que seja para o Eyfajafa... catano. Eu pensei que já soubesse escrever o nome da porra do esquentador. Seja como for, uns hão-de contribuir para as más contas do Estado, pela via da pensão, e os outros pouco ou nada contribuirão para a economia. Retiram-se assim milhões em despesas ao Estado mas também se retiram os mesmos milhões ao consumo privado da economia portuguesa. Isto partindo do princípio extremamente optimista de que Portugal ainda tem economia.
Mas, e o Estado? Ora, se eliminarmos a Educação, a Saúde e, quem sabe, a Justiça e a Segurança da equação, o Estado poupa uma pipa de massa e consegue sobreviver sem ter de abrir falência. Lá se vão os Ferraris, pá! É regressar aos malcheirosos BMs! Assim sendo, o Estado cessa as suas actividades nestes campos e torna-se solúvel. Quase como o Mokambo. Mas depois há outra questão: os impostos. Ora, o que mantém o Estado a funcionar são os nossos impostos. Mas, se o Estado já não garante qualquer serviço relevante aos seus cidadãos, porque carga de água estes teriam de pagar impostos? Mas alguém está a ver-se no futuro sem pagar os impostos que paga actualmente?
É aqui que entra aquilo que eu chamo o Ponto de não retorno fiscal, ou seja, o ponto em que o cidadão não recebe nada em troca dos seus impostos. Se pagarmos Educação, Saúde, estradas e tudo o mais, é legítimo pensar que pagamos impostos para nada. Para além do ponto do não retorno fiscal, há o duplo pagamento associado. Poderemos facilmente chegar a um ponto onde pagamos tudo duas vezes – através de impostos e através de pagamentos a privados que se substituem ao Estado. Não esquecer que na semana passada, duzentos milhões de euros portugueses passaram a ser de outra nacionalidade qualquer, provavelmente para aí Eyfajafa... cataneses, ou o camandro que os sexe. Ou seja, o retorno do dinheiro investido em pagar serviços raramente é reinvestido pela entidade privada. Logo, a economia mais se depaupera, resultado da fuga fiscal. Ou seja, pagar por nada é já mau. Pagar para ter o que já se pagou uma vez é duplamente mau. Ver esse dinheiro fugir para off-shores ou para as SGPS estrangeiras é triplamente mau. É muito mau. Quase tão mau como o ódio que o português nutre pelo funcionário público, ou mesmo quase tão mau como aqueles que se queixam dos serviços públicos esquecendo-se que não é por acaso que este quase país está como está... É que tem um pseudo-povo...

COOPERAÇÃO

O meu amigo de juventude Marco Joel Santos, paramense de gema, achou que eu tinha uns textos porreiritos. Vai daí, ofereceu a sua ajuda para ajudar a abrilhantar o Cirrus Minor e as páginas de Facebook de ambos. Eu escrevo e ele ilustra. Ele é que fica a perder. E um dia há-de ele mostrar-vos, se possível, a sua ilustração do maior antro de perdição de Paramos, a minha terra natal, há uns... 12 ou 15 anos... Se ainda existir.


Peço pois a vossa habitual paciência para os pachorrentos textos que aqui tento escrevinhar (e este, o que se segue, foi mesmo à pressão), e o vosso espanto para o talento do Joel.


Estou muito orgulhoso desta parceria e espero que seja para durar.

sábado, 22 de outubro de 2011

A INFLUÊNCIA


Foto Google

Estamos onde estamos, e não onde desejamos estar. Perante o que se passava no plano financeiro, mas que depressa alastrou ao plano económico e mais tarde ao político, há que olhar para a situação actual do país e tomar decisões. Não escrevo sobre as decisões do governo ou do triunvirato ou da comissão europeia e nem sequer as da senhora nazi. Falo sobre as decisões pessoais. Isto porque toda esta situação, em última análise, vai afectar cada um de nós. De formas diferentes, por certo, mas todos seremos afectados pelos cortes orçamentais e aumentos de impostos.
Não interessa agora saber quem disse o quê acerca de não se subirem impostos, quem mentiu e quem disse a verdade. Quase nem interessa se as opções tomadas para o país, que em breve darão frutos, e disso não tenhamos dúvidas, foram tomadas por genuína crença na sua efectividade ou simplesmente porque a ideologia de quem nos governa assenta na escravatura e o seu exemplo de produtividade continua a ser o chinês. Não interessa. O que interessa é: o que vamos nós fazer acerca disso?
Já houve manifestações, tomadas de posição mais ou menos públicas contra ou favor ou nem por isso as decisões do governo. Interessa, no entanto, que se saiba uma coisa acerca dessas decisões. Interessa saber que essas decisões vão muito para além do que nos foi imposto pelo triunvirato. Interessa pois que se saiba que já passamos a imposição para entrarmos no âmbito da ideologia. E muitos riem-se sobre a possibilidade de este governo ser ultra-liberal. Eu já deixei de ter dúvidas há muito. Na realidade, é o mais ultra-liberal da Europa. Que faremos perante este facto?
Vai haver greve geral. Convocada pelas duas centrais sindicais portuguesas, em conjunto. É um direito que assiste a quem quer protestar contra as suas condições de trabalho, presentes ou futuras. Um direito constitucional e inalienável. Mas há uma corrente, uma influência ultra-liberal que deseja eliminar esse direito. E não é sequer, à primeira vista, do governo. É do próprio povo. Alguns sugerem que as greves devem ser liminarmente proibidas. Outros, que devem ser feitas ao fim de semana. Outros ainda que devem ser promovidas apenas fora dos horários de trabalho comummente aceites. Em nome da produção, em nome da competitividade, em nome do funcionamento regular do país.
Muitas pessoas há que, instadas a dar uma opinião sobre uma greve, até admitem que os grevistas possam ter “as suas razões”, mas que estão a prejudicar “a vida dos outros”. Outros dizem que parar o trabalho só prejudica a economia do país. Outros referem que os grevistas apenas não querem trabalhar. Não interessa a minha posição sobre a greve que aí vem. Não saberão se farei greve ou não, nem isso é demasiado importante. O que é realmente importante é que as pessoas saibam que as greves se destinam, efectivamente, a parar a produção do país, a incomodar as “vidas dos outros”, a chamar a atenção para um determinado problema. Destinam-se a chamar a atenção do povo para o problema, destinam-se a pressionar - se não pelo número de aderentes, pelo menos pelos números económicos - o governo, fazê-lo sentar-se e falar do que se pode melhorar, enfim, negociar. Isto é democracia.
Não é fazendo greves durante a noite, ou ao fim de semana, que se pode chamar a atenção seja do que for. Nem dos jornais chama. A greve foi inventada para prejudicar alguém, e quantos mais melhor, para pressionar o poder político a olhar a situação. Não para o contrário. Fazer greves em horas não produtivas é o mesmo que espalhar sementes num pátio de betão e esperar que germinem. Proibi-las é simplesmente regressar ao século 19. E eu até gosto do século 21.
Não sou contra quem vai fazer greve ou contra quem vai trabalhar no dia da mesma. É uma decisão que a cada um cabe. Mas acabem lá com o choradinho do “só prejudicam os outros que querem trabalhar”. Dificilmente algo sai de uma greve que não seja favorável a quem trabalha, e se não fossem as greves ao longo do tempo, ainda trabalharíamos catorze horas diárias por uma côdea de pão regada com azeite. Como os chineses – que estão a começar a fazer... greves!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

S.CIRRUS I - QUEM É Q'ANDA AÍ?

Anda cá ver as asinhas, anda... Imagem Google
  1. E era que, naqueles dias, na pequena cidade de Nazaré, que diziam as más línguas, só havia de existir quatro séculos depois, se encontrava Maria noiva de José, o carpinteiro que fazia portas e portões e nas horas vagas arranjava televisões;
  2. E andando o Senhor por aquelas bandas procurando um tasco, se deparou com Maria e com a sua pureza imaculada, e com a mania que havia de casar virgem e só que só casaria depois da universidade e então teria um filho,
  3. que colocaria numa creche IPSS enquanto exerceria a profissão mais antiga do mundo, pois que queria ser advogada e defender os criminosos e quem sabe ficar como eles; e o Senhor estava furioso por não ter encontrado um tasco onde refrescar a goela, pois andava às voltas numa cidade que só havia de existir quatro séculos depois;
  4. O Senhor tomou Maria de ponta e achou que estragar-lhe um bocado os planos lhe colocaria o nariz mais perto da altura desejada, e olhando para o relógio, Se achou na hora certa para enviar o Messias à Terra, facto que ia quase esquecendo; e o Senhor reparou que estava a precisar de um filho, porque aquilo de ser um Deus vingativo e mau como as cobras tinha de acabar;
  5. E regressando ao céu, reuniu com o seu núcleo de colaboradores de confiança, e com os gestores públicos. E decidiu, Ele próprio, que iria nessa mesma noite, o arcanjo Gabriel a Nazaré, e em sonho anunciaria que Maria daria à luz o Messias, que lhe traria alguma temperança nos sentimentos e menos recriminações do Saramago;
  6. E encontrando-se Maria a dormir, o arcanjo Gabriel lhe apareceu em sonhos, e lhe anunciou que seria a mãe do Messias, regressando de novo ao céu, onde chegou fatigado, desabafando com o seu gémeo Miguel que “engravidar gajas é agradável, mas quando elas estão a estudar para direito nem dá gozo nenhum, não se lhes ensina ponta”;
  7. E o Senhor, sabendo do regresso de Gabriel, apressou-se a emprenhar Maria, mas verificou que esta já estava prenhe; e Gabriel levou muita porrada do Senhor, e de nada adiantou dizer que tinha percebido mal a ordem e que não era para emprenhar a rapariga pelos processos normais, e isto depois de contar ao Senhor os pormenores todos da noite em questão;
  8. E se nada disserem a ninguém, ò gémeos Miguel e Gabriel, a gente depois faz uma conferência de imprensa a dizer que a concepção foi imaculada, para cumprir as profecias e também para o moço não sentir peso na testa – bico calado!”. E assim se fez e assim se preparou a conferência de imprensa, que não se fez por causa de um jogo do Benfica para a Liga;
  9. E Maria se encontrou grávida, e José pensou em deixar Nazaré pela noite, uma vez que já andavam atrás dele a chamar-lhe corno e coisas piores, como ministro e secretário de estado; mas Gabriel mais uma vez lhe apareceu em sonhos, e lhe disse que não iria fazer isso, e que iria criar a criança em segurança e com amor de pai;
  10. E José mandou-o bugiar, pois nem sabia quem era o pai da criança, mas que desconfiava que era algum político, autarca ou cantor pimba com sobrenome de pequena estrada; e Gabriel assegurou-lhe que não quisesse saber, pois que o pai era o Senhor, e Maria o veículo para a vinda ao mundo do Messias, e que a concepção foi feita sem pecado; e José aceitou imediatamente, pois que Maria era o veículo, e ele muito queria um carro;
  11. E três magos, no Oriente, viram pela PlayStation que o nascimento do Messias era iminente e seguiram uma luz que aparecia no céu, e sabiam que onde esta parasse aí encontrariam o menino; e estavam convencidos que não era a MIR, porque apesar de antiga, era mais rápida;
  12. E os astrónomos fartaram-lhes de dizer que aquela porra era um cometa que não ia para a lado nenhum, mas eles montaram nas suas bicicletas de montanha e lá vieram do Oriente. E pararam em Jerusalém, e aí se hospedaram na corte de Herodes, o Grande, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”;
  13. E os magos contaram a Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”, da sua odisseia, e mais lhe contaram que o menino nasceria em Belém. E Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”, receoso do menino lhe poder vir a roubar o trono e derretê-lo para vinho, lhes disse que o avisassem, porque igualmente queria prestar homenagem ao menino, e que lhes apreciava a odisseia, mas que gostava mesmo era da Ilíada e dos Lusíadas;
  14. E casaram-se José e Maria em Nazaré, e não percebiam patavina da história de Belém, porque estavam em Nazaré, e ainda por cima Nazaré ainda não existia porque era uma cidade do séc. IV depois do menino; então o governo deu uma ajudinha e inventou um recenseamento no qual os pais de família teriam de ir à sua terra natal para se recensearem, e para que se soubesse quanto recebiam de décimo quarto mês;
  15. Mas José nem sabia o que era o Natal, porque o menino ainda não tinha nascido, e os homens das Finanças deram-lhe uma carga de lenha à antiga e disseram-lhe que era onde tinha vindo ao mundo, e José soube que ou tinha de ir a Belém ou então ao fundo das escadas; e José optou por Belém, até porque a casa que tinha agora não tinha escadas;
  16. E assim se acharam José e Maria, grávida de nove luas, em Belém; e eis que a pequena cidade estava cheia de gente que ali se vinha recensear, pois que era um sítio pequeno mas de onde saíam muitas pessoas importantes de Jerusalém, e por isso lhe chamavam a Vila Real do Oriente; e batendo em todas as portas, apenas acharam guarida numa gruta de pastores;
  17. E tinham por companhia um burro e uma vaca, e a manjedoura de onde comiam, e estas eram palavras de sabedoria, e quem tiver sabedoria que encontre as verdades destas palavras, pois que são palavras proféticas que se cumpriram; e o burro comia da manjedoura, e a vaca comia da manjedoura e ambos estavam na gruta, e a gruta se encontrava em Belém e se chamava S.Bento;
  18. E assim deu à luz Maria o menino, que se chamava Emanuel, que quer dizer o Senhor Connosco, mas logo lhe mudaram o nome para Jesus, porque o menino foi dado à Luz e não ao céu nem à terra. E assim foi que logo apareceu o fiscal da EDP para lhes cobrar a taxa da luz a quem Maria tinha dado o menino; e avisou que quando chegassem os Magos atrás da outra luz no céu, logo apareceria outra vez, porque holofotes gastam comó caraças;
  19. E todos vieram homenagear o menino, todos os pastores e agricultores, todos os viajantes e prostitutas, todos os traficantes e consumidores e ainda os Magos, que foram os últimos, porque tiveram de parar pelo caminho para fazerem um refresh à PlayStation porque o senhor não queria que eles avisassem o Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”;
  20. E traziam os magos presentes para o menino, e esses presentes eram mirra, incenso e prata, pois que um deles trazia ouro mas teve de pagar ao gajo da EDP pelo cometa; e depressa desapareceram a mirra e o incenso, pois os traficantes e os consumidores pensaram que era erva e coca; e assim ficou José com a prata;
  21. E Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas” foi avisado pelos seus astrólogos que o menino tinha nascido em Belém, e eles tinham visto claramente escrito nas estrelas que o menino tinha nascido, e também estava na Caras on-line, e em boa verdade, Maria tinha vendido o parto em directo para a TVI, mas Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas” não tinha visto porque estava a ver o Benfica para a Champions League;
  22. E Herodes, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”, ficou muito irado e apareceu na televisão a dizer que não concordava que o menino tivesse nascido sem a sua autorização, e que isso era muito importante, quase tanto como os estatutos da assembleia dos Açores; e que não permitiria tumultos nas ruas;
  23. E o rei assim deliberou que as suas tropas fossem a Nazaré, para onde José e Maria se dirigiriam depois de Maria ter recuperado do parto e José das mãos partidas, pois que tinha dado as mãos a Maria durante o parto, e esta lhe chamou nomes do piorio, e não era surpresa que os soubesse, pois andava a estudar para direito;
  24. E que as tropas aniquilassem todos os infantes do sexo masculino de Nazaré com menos de dois anos; e ele até começou pelos dois meses, mas os seus soldados não sabiam distinguir um bebé de dois anos de um de dois meses; e as tropas foram e as tropas estavam dispostas a cumprir as ordens do seu rei, Herodes, o Grande, o mesmo do “ou te calas ou te sexas”;
  25. E as tropas chegaram a Nazaré e preparavam a matança, mas Nazaré ainda não existia, pois só existiria quatro séculos depois, e recolheram a Jerusalém; e o Senhor avisou José e Maria que fugissem para o Egipto, porque sempre era melhor para os pulmões do puto e que o Herodes estava fodido!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

GORDURA


Foto Google

É a expressão do momento: Cortar nas gorduras do Estado! É a panaceia para todos os males do país. O Estado é gordo, obeso, deve comer muitos daqueles pedaços de borracha queimada com açúcar que oferecem aos putos a quatro euros nos centros comerciais. O Estado é enorme, é tentacular, é um sorvedouro dos dinheiros públicos e dos impostos taxados aos contribuintes. Nunca antes vi tanta gente a concordar com uma máxima governamental. E nunca vi tantos ministros a clamarem aos quatro ventos a frase do momento.
É uma aproximação à solução do problema completamente falsa. Só há uma maneira de podermos efectivamente fazer face a uma crise como esta e essa é termos uma economia. Coisa que não temos, porque foi destruída já nos anos noventa e por ela nada foi feito desde então. Cortar gorduras do Estado é uma coisa que aparentemente é fácil. É apenas acabar com os gastos supérfluos. Mas, acabando-se esses gastos supérfluos, verifica-se que a poupança são umas migalhas que não se veem espalhadas pelo chão e que o Estado continua gordo. Onde se corta, então? Nas pessoas, por exemplo. Esta Lei do Orçamento que aplica uma redução salarial de 25% ao ordenado dos funcionários públicos tem duas vertentes de poupança para o Estado: a imediata e menos importante, cortar na despesa com pessoal em 25%, e a real, que é o incentivo à carta de demissão dos funcionários e assim reduzir o seu número.
Mas esta tendência para cortar não é só nas pessoas. É nos consumos igualmente. E o que consome o Estado? Consome, por exemplo, medicamentos e equipamentos para Hospitais, equipamentos para Escolas, equipamentos para a Polícia... Coisas do género. Coisas que não fazem falta a ninguém.
Chegou-me ontem ao conhecimento que um idoso de 70 anos, que há uns anos teve um AVC que lhe tirou grande parte da sua qualidade de vida, teve um episódio parecido ontem mesmo. A esposa, igualmente de 70 anos, chamou o INEM e foram ambos levados para as Urgências de um Hospital da zona Norte, por sinal o Hospital que já havia tratado o idoso aquando do seu primeiro AVC. As Urgências apresentavam-se caóticas e perante as perguntas da idosa, que amparava o idoso na sala de espera, “não há gente suficiente a trabalhar para os atender já, desde há uns meses que tem sido assim...!”.
O casal de idosos esperou seis horas e meia a ser atendido, curiosamente por um médico brasileiro. SEIS HORAS E MEIA para atender um AVC, seis horas e meia em que o idoso afectado perdeu e recuperou dezenas de vezes a consciência e o conhecimento, sentado numa sala de espera de um Hospital, porque não havia gente suficiente para o atender! Seis horas e meia para atender uma pessoa com um AVC, ainda por cima reincidente.
São estas as gorduras que queremos cortar a todo o custo? É nisto que Portugal se vai tornar?? Tenho vergonha daquilo em que querem tornar o meu país! VERGONHA!

PS: O meu pai sobreviveu. Está muito abalado e provavelmente agora ficará com menos algumas faculdades, e não se augura um final muito feliz ou longo. Isto é a vida dos portugueses. É esta a gordura dos portugueses. Todos concordam com o corte das gorduras – mas algum dia calha-vos a todos, também... Não costumo falar muito de mim e da minha vida, mas isto está a chegar ao limite do ridículo!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

DESGRAÇAS


Comunistas gregos dando as boas vindas aos tanques

É um tanto estranho que se chame a um texto qualquer coisa como desgraças. Mas a verdade é que andei hoje a pensar naquilo que havia de teclar e reparei que estamos rodeados por desgraças por todos os lados. Sim, claro, bem me poderão dizer que é preciso é ver a vida pelo seu lado positivo e viver cada dia como se fosse o último. São daquelas frases feitas que ninguém leva a sério mas toda a gente gosta de “likar” no Facebook, às vezes porque estamos muito bem dispostos, outras porque nos distraímos ou ainda outras porque se não “likarmos” vamos ter sete anos de azar, ficar falidos e ainda nos cair um raio em cima. Como aventou uma companheira bloguista, o que está a dar é falar de desgraças.
A verdade é que por todo o lado vemos desgraças a acontecerem em catadupa. Não há dia que passe que o governo não invente mais um imposto, elimine mais um recurso nos hospitais ou despeça mais um professor. A selecção perdeu – e desde já fica o aviso aos alemães – se a gente fica fora do Euro 2012, lá para Julho o pacífico povo português vai andar a trepar pelas paredes. Toca a mexer os cordelinhos, que parece que os gregos já lá estão.
Por falar em grécios, como lhes chamava G.W. Bush, aí está o contraponto de todos os portugueses. Antigamente, e quando digo antigamente mesmo, há uns milénios, os gregos eram uma espécie de protectores da Europa. Todos sabemos da forma como travaram, espartanos e atenienses lado a lado, a invasão persa. Ficou famosa a Batalha de Termópilas, retratada no filme 300, batalha essa que tem um nome estranho que induz os mais incautos a pensarem que os gregos foram para a batalha com os pénis enfiados em garrafas termo ou que andaram a aquecer os ditos cujos na fogueira para ganhar coragem. O imperador Xerxes foi derrotado mais tarde pela esquadra ateniense tão bem montada pelo célebre Periklis, e ainda bem, pois se tivesse ganho, e de acordo com o filme, a moda dos piercings tinha surgido bem mais cedo.
Hoje, os gregos não são mais os protectores da Europa. Pelo contrário, são os maus da Europa. São malandros, mentirosos, habilidosos e mais não sei o quê. E servem, obviamente, de barómetro. Nós, portugueses, temos sempre os gregos. Podemos estar muito mal e tal, mas olha lá os gregos, esses é que estão fo...eitos! Quer queiramos, quer não, é da natureza humana procurar sempre alguém que esteja pior que nós. E normalmente encontra-se, por dois motivos: porque há realmente alguém pior que nós, ou simplesmente pensamos isso de alguém, enquanto todos os outros pensam o mesmo de nós. É um bocado aquela sensação que se tem quando se entra em determinados sítios e não se encontra a pessoa que vai ser a vítima – isso quer dizer que a vítima somos nós.
Porém, começo a pensar que os gregos da Europa são os portugueses. Vamos lá a ver, nós não somos gregos – se bem que há quem acredite que Lisboa assim se chama por ter o nome do seu fundador grego, Ulisses – somos portugueses. Mas como nos comparar com um povo que, aparentemente mergulhado numa enorme crise e a um mês de não ter dinheiro para tocar a um cego, quanto mais a todos os da Comissão Europeia, tenha este rasgo de brilhantismo? Não, nós é que somos mesmo os gregos da Europa. Os gregos estão muito à frente! Desgraças é em Portugal, na Grécia, segundo o seu governo, só há contratempos... Pode não haver dinheiro para pagar a dívida, aos funcionários, ou até o parquímetro da limusine do PM, mas para 400 tanques americanos topo de gama... Arranja-se...