terça-feira, 24 de dezembro de 2013

DO NATAL E COISA E TAL

Ilustração Marco Joel Santos

            Desta época do ano quase todos dizem o mesmo. Que é a mais feliz do ano, que é a época da esperança, que é a época da paz. Em suma, quase toda a gente é candidato a Miss Universo mas sem desfile em biquíni. Não importa, o que importa é mesmo a intenção. Ainda que desses quase todos nem todos sejam lá muito bem-intencionados nos seus votos de Natal. Acho que hoje devem falar o Cavaco e o Passos.
            Seja como for, o Natal é essencialmente uma época de mitos. E se bem que quase todos os ocidentais conheçam os mitos de Natal, é bom tentar descodifica-los um pouco. Comecemos pelo princípio, ou seja, pela bela história do Menino Jesus. E sim, poderíamos ir um pouco mais atrás, aos solstícios de Inverno em Stonehenge, mas convenhamos que a história do Menino é mais gira.
            O Natal serve de festa de anos a Jesus Cristo. Que todos os anos deve ficar piurso, pois nunca lhe dão a apagar as velas no bolo-rei. Convenhamos que 2011 velas em cima de um bolo-rei também ia ser exagero. 2011 porque o JC, aparentemente, nasceu três anos depois de começar a sua era. É mais ou menos como marcar um golo a faltar cinco minutos para começar o jogo, e bem diz o presidente do Sporting que tal é possível, se os presidentes do Porto e Benfica se juntarem à esquina. Eu é mais aos noventa e dois. Ora, JC nasceu de uma mãe virgem e pai incógnito, numa manjedoura no interior de um estábulo, com um burro e uma vaca ao lado. Para além do burro e da vaca mesmo. Além disso, nasceu com uma estrela por cima, que devia ser o equivalente do séc.I ao nascer com o cu virado para a lua de hoje.
            Convenhamos, é uma belíssima história. As religiões, normalmente, têm uma imaginação prodigiosa para inventar coisas deste género. Mas há que reconhecer que os cristãos são dos mais criativos. São tão criativos que ainda hoje se venera o S.José, principal suspeito de encornanço na história. Para além disso, ainda havia o Herodes, o mesmo do ou chupas ou te fazes sexo, que tinha medo que o filho do carpinteiro José lhe tirasse o trono. Sabendo que JC não era de facto filho de José – e sabe-se lá quem o encornou – podia até ter razão. Sabe-se lá se não foi o príncipe Carlos a emprenhar a Maria? Quem aguenta sexo com a Camila está por tudo.
            Na noite de Natal, logo à meia-noite, é dito que o Menino Jesus vai a todas as casas pôr prendinhas no sapatinho – ou na meia, no caso dos protestantes. Ora, meias e sapatos eram coisas que não assistiam à população palestina da altura. Aquilo era mais sandálias e calos. Mistério dos mistérios é o meio de transporte do Menino Jesus. Não esquecer que é filho de Deus, por isso deve usar teletransporte à Startrek.
            O Pai Natal é outro figurão do Natal. Vestido de vermelho pela Coca-Cola, trata-se de um velhote de barbas brancas, com o saco de prendas às costas, que na noite de Natal, sensivelmente à meia-noite, passa por casa de todos os meninos para deixar prendas e emborcar copinhos de leite morno com bolachinhas e uma eventual sandocha de leitão, quando deixa prendas na Bairrada. Ou seja, deve terminar a noite completamente obturado de bolacha Maria e leite Gresso, cheio de colesterol, diabetes e em condições de amamentar os pigmeus todos que trabalham no Pólo Norte… Pulula de casa em casa a bordo de um trenó puxado por renas voadoras com nomes sugestivos, normalmente de velhas glórias do FC Porto.
            Não sei, sinceramente, qual das histórias é mais ridícula. A verdade é que os putos comem a história mal contada pelos pais. Até uma certa idade. A partir dos seis ou sete anos, começam a desconfiar que são filhos adoptivos, pois os presentes são todos do Pai Natal ou do Menino Jesus, e os pais, calões do camandro, não lhes dão nada. Aos oito começam a adorar os pais, porque já sabem que são eles que lhes dão as prendas. Aos dez, já sabem que os pais lhes dão os presentes para os calar por não os verem mais que dez minutos por dia, e aos doze começam a extorquir os pais com os segredos que vão descobrindo e que ameaçam contar ao outro progenitor. Na última fase de vivência em casa dos pais, aos 40 anos, já visitam o padre de vez em quando, não vão ter de fazer algum funeral. Enfim, outros 500…
            Mesmo que o Natal seja tão usado por toda a gente para disfarçar as misérias de carácter que revelam ao longo do ano, a verdade é que até tenho alguma sorte. Na família, nos amigos, no trabalho, pouca gente que conheça é mal-intencionada. E, assim sendo, sei que quando me desejam um Feliz Natal, não me estão a desejar, na realidade, um salto cósmico da minha taxa de colesterol ou que desenvolva cáries dentárias. Também sei que, e não pretendo que seja de outra forma, não me estão realmente a desejar uma quadra natalícia feliz. Na realidade, estão-se marimbando para a minha quadra natalícia, excepto a família, claro, que vai ter uma quadra igual à minha. Mas sentem-se, eles próprios, felizes e isso é bom, porque partem do princípio que eu também me estou marimbando para a noite de Natal deles, mas também me sinto feliz.
            A verdade é que todos temos grandes memórias das noites de Natal. Os doces, a família toda junta (como no Carnaval, na Páscoa, nos Santos, no Verão, no S.Martinho…), a árvore de Natal, as bolas reluzentes, as luzes que derretiam ao fim de dois dias de funcionamento, o presépio com o menino Jesus, a vaca e o burro, além dos animais, com uma estrela a indicar o local do nascimento, os reis magos a chegar de camelo, e a banda filarmónica lá da terra alinhada por detrás do estábulozinho feito com musgo ainda com minhocas. Foi também numa noite de 24 de Dezembro que o meu pai sofreu um AVC. Tudo memórias. Hoje tudo é diferente. Excepto tudo o que está igual que, diga-se de passagem, é quase tudo menos o meu pai à mesa.

            Por isso, meus amigos, não precisam de me desejar Feliz Natal. Sintam-se apenas felizes, se conseguirem. Eu tentarei pela minha parte. Não é feliz quem quer, é feliz quem está. Na certeza, porém, de uma prendinha certa no sapatinho de todos nós: mais impostos para o próximo ano. Rica prenda… Já agora, façam-me um favor e não liguem a TV quando falarem a múmia e o burro do presépio – e não me refiro ao S.José.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

BREVES NOTAS SOBRE ALGO QUE AINDA NÃO ACONTECEU

Ilustração Marco Joel Santos

            O facto de nascer uma criança nada tem de extraordinário, excepto para ela própria que, mesmo não tendo grande consciência disso, passa a existir, apesar de apenas consistir numa infernal máquina de mamar e cagar e pouco mais. Algumas choram apenas para chatear os pais, sinal de rebeldia futura e de adolescência conturbada – coisas que dantes eram normais, agora são Xanax.
            Portanto, quando o irmão da minha esposa foi pai, bem como a sua companheira mãe, curiosamente da mesma criança, o entusiasmo sobre o nascimento do rebento, fruto do seu amor, foi geral na família. E se há coisa que não entendo é porque lhes chamam rebentos ou frutos do amor. Se são frutos, que nascessem numa árvore. Mas adiante. Foi, portanto, entusiasmo geral. Geral? Não, eu mantive a calma e ouvi Pink Floyd. Não que ouça Pink Floyd especificamente nestas ocasiões, porque, na verdade, ouço sempre. Mas mantive alguma calma e distanciamento face ao facto, uma vez que eu até gosto de crianças desde que estejam em outro fuso horário diferente daquele onde me encontro. O que, estranhamente, raramente acontece, diga-se.
            Até aqui muito bem. Viagens para Coimbra, de cá para lá, de lá para cá, aeroporto à mistura – sim, porque o meu cunhado é engenheiro, e como tal trabalha na Irlanda do Norte – avós babados, bisavó aparentemente distante mas desfeita de emoção, tios e tias e mais quem se lembrou, festa e almoços e coiso. O problema foi quando o meu cunhado se lembrou do baptismo da criatura e convidou os tios preferidos da mesma para apadrinharem o acto e a criança, tudo ao mesmo tempo. Assim tipo dois em um. Na verdade, ele já se tinha lembrado uns meses antes. Mas sabemos como são as coisas, não é? Dizer sim para quê, se ainda falta tanto tempo? Deixa lá isso, depois vê-se. Esta técnica tem o óbvio inconveniente de passarmos a não ter escolha quando o tempo que pensávamos ser tanto afinal se ter evaporado e pronto, até já fomos dados como padrinhos para uma cerimónia a realizar no mosteiro de Sta.Clara. E isto até nem seria assim tão grave, não se desse o caso de eu nem ser católico nem, em boa verdade, o que se pode chamar de cristão na verdadeira acepção da palavra. Só sou cristão por causa do Cristiano Ronaldo. O que me leva a pensar que também poderia ser ronão. Adiante.
            Para além do facto de a minha querida sogra saber de ginjeira o nome que deu à filha mas ter trocado os meus apelidos todos quando falou com o padre, e em boa verdade só tenho dois apelidos, o que torna a questão ainda mais intrigante, e de não saber onde a filha mora, há os requisitos religiosos da coisa. Ora então, pelos vistos, e como consequência da minha incúria em ter dado uma resposta assertiva e negativa ao convite de apadrinhamento em tempo útil ou pelo menos mais cedo que nunca, que foi o que aconteceu na realidade, é-nos agora requerido que frequentemos uma “preparação”, com respectiva declaração a atestar o facto, bem como uma outra declaração a dizer que, na verdade, somos bons cristãos.
            Se o primeiro requisito já me custa, o segundo tira-me do sério. Assim, ter uma reunião com o pároco de Leça do Balio (portanto Reitor do Mosteiro e essa treta toda) não me choca, pois tenho reuniões diárias com clientes. Se a coisa correr mal, desato a falar de gasoil e fico-me por aí. Já a coisa de sermos bons cristãos – eufemismo para bons católicos frequentadores de missa e pagadores de congra – não me parece ser assim tão fácil. A minha esposa é contabilista – o que por si só invalida qualquer crença no sobrenatural ou mesmo a capacidade, normal em outro qualquer ser humano, de ter um lado espiritual. Já eu trabalho numa multinacional petrolífera, e o pároco anda de carro. Parece-me que as hipóteses de sermos bons católicos são tão grandes como as do Passos Coelho ser boa pessoa. Não que duvide que ele seja bom, mas já a parte da pessoa deixa-me desconfiado. Acresce que nunca paguei congra e conheço o mosteiro de Leça do Balio pelo seu valor histórico e por causa da Feira Medieval.
            No meio disto tudo, não duvido que terei de ir a uma missa, pois tenho de falar com o padre. E falar com um padre depois de ir a uma missa rezada por ele é uma coisa. Aparecer-lhe à frente do nada e pedir deste género de favores é outra. Sim, porque o padre não saberá se estamos ou não a mentir, e optará, caso seja um gajo porreiro, por dar um “salto de fé”, mais ou menos parecido com o do Indiana Jones na Última Cruzada, com a diferença de que este se estatela ao comprido lá em baixo no desfiladeiro. O meu perfil religioso, mormente católico, deixa algo a desejar e digamos que estou a ser simpático comigo mesmo, coisa que indulgentemente me concedo de vez em quando.
            Além do mais, muito se fala do conceito de maternidade e de paternidade, já todos sabemos todos os contornos desses conceitos, embora muitos optem por os ignorar assim que têm filhos. Mas, e o conceito de padrinhidade? É estranho, não é? Para já, será que existe um conceito destes? Bem, com este nome, duvido. Mas, na verdade, o que é a padrinhidade? Fingir que somos responsáveis pela criança durante a vida? Sermos o seu interlocutor com as entidades superiores nos círculos religiosos? É que apesar de admirar o Zlatan, duvido que ele seja Deus. E neste conceito de Deus os animistas têm uma enorme vantagem, ao contrário do que pensam os monoteístas. Porquê? Ora, podem adorar um boi, é certo, mas pelo menos vêem o boi! Já cá eu também posso ver bois, mas Deus nunca vi.
            Seja como for, a verdade é que já sou padrinho de um rapagão estudante universitário consumidor de bons livros e que gosta de cozinhar arroz. E sei o que me custou ser padrinho dessa vez, e nem tive de sair da minha terra para o ser. Claro que os cépticos podem aventar que o facto de não frequentar a igreja, só ir a missas de funerais, escrever umas coisas agressivas no meu blog sobre religião, não ser crismado, não ter feito a profissão de fé e ter desistido da catequese aos 9 anos só dificultaram as coisas. O facto é que o padre não ia com a minha cara, só isso. Mas a verdade é que fui o único que soube abrir a Bíblia no versículo desejado pelo falecido padre Saul (Deus lhe dê eterno descanso, ou o diabo calorzinho no Inverno), o que por si só atestou do meu conhecimento das Escrituras e fez o padre reconsiderar a possibilidade de eu poder vir a ser padrinho. Claro que quase deitei tudo a perder quando lhe disse que Hitler também era católico, mas no geral a coisa até correu bem. Mais ou menos… Esperemos que desta vez não corra muito melhor.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

EVANGELHO DE CIRRUS MINOR, CAPÍTULO 1

Ilustração Marco Joel Santos

  1. Naqueles dias, era o tempo de Herodes sobre o povo do Senhor, e sobre Herodes era César, e os estrangeiros dominavam na Terra prometida; e eram uns sobre os outros, e outros sobre os uns e tudo ao molhe e fé no Senhor;
  2. E eis que eram estas práticas que desgostavam ao Senhor, pois que Ele se havia esquecido do mandamento “Não farás orgias malucas”, mas pensava que estava subentendido; e, por isso, a fúria do Senhor se manifestou, porque o seu povo se deixava corromper por outros;
  3. E o Senhor meditava no que havia de fazer à humanidade, e não encontrava coisas originais; assim, coisas divertidas como afogar toda a gente num dilúvio ou arrasar a Terra com fogo vindo dos céus pareceram-lhe coisas pouco originais.
  4. E eis que entrou na sala o seu Filho mais velho, derrubando uma jarra chinesa da dinastia xung; e eis que o Senhor se decidiu: “Vou enviar este pestinha aos homens! Assim chateio-os com mais uma série de mandamentos e cenas do género, enquanto a casa fica arrumada cá em cima! Porra, até pode ser que ponha a leitura em dia, há que séculos tenho o Manifesto em cima da mesinha de cabeceira!”;
  5. E o Senhor chamou o mordomo, para que este cumprisse as suas ordens. Divertido seria até cumprir aquelas profecias malucas do Elias e fazer o puto nascer em Belém de uma virgem, no meio de um tasco onde arruaceiros comessem sandes de torresmos e emborcassem mines.
  6. “Gabriel” – disse o Senhor – “Vai à terra de Belém e encontra lá uma virgem em idade casadoira, e dela farei o ventre do Senhor, pois que dela nascerá o meu Filho, sem pecado!”
  7. “Senhor” – respondeu o Gabriel – “que a Tua palavra seja tornada realidade. Mas achas que em Belém vou encontrar um tal ser tão estranho? Não seria mais fácil fazê-lo nascer de uma velha de 90 anos na Bolívia?”
  8. “Não porás em causa as ordens do Senhor teu Deus!” – trovejou a voz do Senhor, visivelmente irritado com o puto, que agora andava atrás do gato por detrás da Meo Box – “Olha, está aí um bom mandamento, não me lembrei deste… Como dizia, vais a Belém encontrar uma virgem e vais mesmo! Além disso, já engravidei uma velha, a mulher do Abraão. Não é original! E pára com essa porra de me tratares por tu!”
  9. “Senhor, e qual dos teus filhos vai enviar?” – perguntou Gabriel, ao que o Senhor respondeu: “Olha, vai este! O outro não faz mal a uma mosca, mas também é verdade que desde sempre se desgostou com o nome. Devia ter-lhe chamado outra coisa, tipo Fantasma Sacro, ou Divino Espectro… Espírito Santo o gajo não aprecia… Diz que lhe faz lembrar o Chipre, vê lá tu! Ele, que nunca esteve em Chipre!”
  10. E Gabriel tomou o caminho da Terra, e apanhou o elevador junto do 4023º Esquerdo. E eis que, chegado à terra de Belém, avistou um palácio, e não se demorou a entrar. E lá encontrou um ancião, a quem perguntou: “Qual o teu nome, velho rei?”. O velho ancião, que dormitava num cadeirão, abriu e fechou a boca três vezes, com um barulho de quem come bolo-rei a seco.
  11. “Oh Maria, os angolanos vieram-me matar! Oh Maria, oh Maria, olha este preto! Eu bem disse ao Machete para não abrir o bico lá em Luanda! Catano do velho que não sabe estar calado! Não aprendeu comigo, que só falo quando não há nada para dizer!”
  12. Gabriel saiu apressadamente do Palácio perseguido por uma anciã aos berros e dois GNR a cavalo de paus de vassouras disparando rajadas de água de bisnagas. Não que pudesse ser atingido por tiros ou algum mal terreno o pudesse afectar, mas entristecia-o o estado em que Roma deixava aquela terra, onde já nem havia cavalos nem armas que atirassem coisas a sério, bem como o facto de lá por ser do Médio oriente logo foi apelidado de preto. Para além do mais, a velha não parecia estar em si. Há 40 anos.
  13. Caindo a noite, Gabriel, já um pouco arrependido de se fazer representar como ser humano, lá voltou à sua forma original e voou por cima de Belém. E fez uma batota e lá foi vendo quem se encontrava no interior daquelas casas. E dentro de uma delas viu uma bela rapariga, e cedo se manifestou num dos sonhos dela, daqueles sonhos que parecem tão reais que se cheira e se responde e tudo. Que bela história esta! Depois veio o Pai Natal e o palhaço…
  14. E disse Gabriel à rapariga, no sonho dela que agora também era seu, ou coisa assim mais ou menos parecida com algo saído de um filme do Harry Potter ou do Senhor dos Anéis: “Qual o teu nome, doce donzela?”. “Maria” – respondeu a moça – “mas isso da donzela é medieval e é suposto estarmos em 4 a.C.”.
  15. “Não te armes em esperta, ò peste do c…! És virgem, Maria?” – perguntou o enviado do Senhor, ao que ela respondeu – “Depende da perspectiva… se as orelhas contarem…”. O anjo ergueu os olhos para o céu, e abanou a cabeça, e finalmente afirmou: “Está lá perto.”. E o filme transformou-se de repente nas Sombras de Grey ou no Senhor dos Anais.
  16. “Pois é chegada a hora de dares à luz o Filho do Senhor, teu Deus! E darás à luz em Belém, e não estarás contaminada pelo pecado! Pois que o salvador do mundo será concebido no teu ventre sem pecado!”
  17. Maria ouvia, submissa, e respondeu: “Seja feita a vontade do Senhor, mas sempre ouvi dizer que isto devia acontecer em Nazaré e não em Belém, pois só devia dar à luz em Belém, dentro de nove meses! O que aconteceu a Nazaré?”
  18. Gabriel suspirou e ficou admirado com a sapiência da jovem e docemente respondeu: “Estás doida? Aquilo desde que o Samarra surfou a onda de trinta metros que está cheio comó c…! Já nem chicharro se compra em condições naquela terra! Além do mais, vê lá, poupa-se numa viagem!”
  19. “E José?” – perguntou a jovem. Gabriel não se tinha lembrado do namorado, pois claro, ainda havia de aparecer mais um cabrão para atrapalhar – “O teu namorado?” – “Sim, às vezes é ele, outras vezes…” – “Chega, não digas mais nada... Eu falo com ele em sonho…”
  20. “Olha lá, ò anjo, e isso do concebido sem pecado não é assim um bocado forçado…? Quer-se dizer, eu até ouvi dizer que os anjos não têm sexo, mas não é verdade, pois não? Não queres assim… mostrar o que vales e tal…? Antes de ires falar com o corn… o José?”
  21.  “José!” – clamou Gabriel, acordando o homem – “José, tua noiva dará à luz o Filho do Senhor, engendrado sem pecado, ou lá como já foste, no seu ventre! Desposarás a Maria, e criarás o Filho do Senhor como se teu filho fosse, e muito o amarás, e dele farás um Homem, o Filho do Homem de que o Mundo precisa para remissão dos pecados!”
  22. “Tá tudo,  meu, mas comigo falas com o coiso dentro da braguilha, que isto de me apareceres à porta a abanar o badalo não me parece bem. Quanto a isso da Maria, tudo bem, mas só com uma condição!”
  23. “Fala das tuas condições, José, mas não forces demasiado a coisa que o Gajo lá de cima está maldisposto e pode lembrar-se de te fazer alguma…” – disse Gabriel, ao que respondeu José: “E vai-me fazer o quê? Já me fez corno e pouco tenho a dizer sobre isso, imagina tu…! Ao menos, que me arranjem um daqueles apartamentos da Câmara e o RSI!”
  24. “Então tu não és carpinteiro? Para que precisas de um subsídio para prover à tua família? Não viverás feliz exercendo a tua profissão?”
  25. “Pois, é uma possibilidade. Mas pelos vistos já tu vens suado o suficiente para a história – por enquanto, lá para a frente logo se verá – e não é a fazer cadeiras que compro um carrito para dar aquelas voltas com o puto aí pelo Médio Oriente. Ou são assim tão forretas que me vão obrigar a andar de burro?”


sábado, 21 de setembro de 2013

PELA NOSSA SAÚDE

António Arnaut, o "pai" do Serviço Nacional de Saúde, aguarda por uma cirurgia às cataratas há seis meses, recusando os privilégios que o dinheiro e o estatuto social lhe poderiam conceder. Em declarações ao jornal "Público", lamenta o estado a que chegou a saúde em Portugal, com o privilegiar dos serviços privados em detrimento dos públicos que, espante-se, não abre os blocos operatórios no período da tarde, fazendo engrossar as listas de espera!
Numa realidade diversa e bem mais discriminatória, hoje foi também notícia a aprovação, no Congresso dos EUA, de uma medida que bloqueia o financiamento da lei de acesso universal aos cuidados de saúde, mais conhecida como Obamacare. A ala mais conservadora do partido Republicano, ligada ao movimento Tea Party (onde milita a absurda Sarah Palin), torna impossível a aprovação, não só desta medida (bem longe de algo que sequer se assemelhe ao SNS em Portugal mas bem melhor do que o regime que exclui uma grande maioria de cuidados de saúde fundamentais) mas também a do Orçamento Federal, que Obama usa como moeda de troca.
O que tem o nosso SNS a ver com o bloqueio do Congresso Americano à Obamacare? Já se anuncia que estas lutas entre o Congresso e a Casa Branca farão tremer a economia Americana e, com ela, a Europeia. Quem paga sempre a fava na Europa? Os países mais a sul, nomeadamente Portugal! Em que é que se corta em Portugal quando há crise??? Na saúde, pois claro! (Para não falar da educação, da Segurança Social, etc., etc.!)

* A quem possa interessar uma opinião informada sobre a Obamacare, deixo o link para a coluna de Paul Krugman, no The New York Times.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

OS PATOS DO COSTUME

Ilustração Marco Joel Santos

Não é de hoje que certas características ou comportamentos humanos são associados a animais. O primeiro animal a ser venerado pelas suas características pode ter sido o touro, que representava força. Já no tempo das primeiras cidades se encontra esta associação e veneração. No tempo dos egípcios, cada deus tinha uma contraparte animal, resultando num panteão divertido do ponto de vista zoológico, colorido e muito completo, dada a extensão de características humanas associadas a cada um. Os gregos preferiam os animais grotescos e mitológicos, e os romanos provavelmente preferiam o que os gregos preferiram antes deles. Os cristãos, à boa maneira judaica, eliminaram estas associações, mas nem uma nem outra religiões e sociedades passaram incólumes à associação entre um animal e uma dada característica humana.
Por exemplo, diz-se de uma pessoa muito valente que é um leão, pois tem a coragem de um leão. Coisa estranha, atendendo que o leão dorme 23 horas por dia e só perde uma hora não a procurar e matar comida, mas a afastar leoas e juvenis felinos africanos da carcaça que as fêmeas abateram. Costuma igualmente dizer-se de uma pessoa clarividente que tem olho de águia. Talvez, a julgar pela abertura do campeonato na Madeira, as águias lá tenham utilizado um qualquer olho que não se encontra na respectiva cabeça do garboso predador alado.
Mas também há as depreciações. Por exemplo, o pato. O pato, todos concordam, é um animal simpático. E se a associação da sua vertente selvagem ao empreiteiro habilidoso existe, também não é menos verdade que a expressão “cair que nem um pato” ou “saber a pato” indicam que o pato é uma pessoa habitualmente pouco atenta, de crença fácil e que é enganado com facilidade.
Porquê esta lengalenga toda? Porque me parece que grande parte do povo português é constituída por excelentes exemplos desse simpático palmípede que é o pato. Talvez me atreva a ir mais longe e a dizer que vários povos, senão todos, são excelentes viveiros de patos. Basta olhar para toda a confusão em redor do rochedo de Gibraltar, com uma Espanha empenhada em recuperar a soberania de tão importante território – quando esquece que tem dois casos similares em África – para perceber que algo não vai bem em Espanha e que tudo isto é milho para patos. E os patos acreditam, e comem o milho e sentem-se felizes por tão bem informados.
Em Portugal, há coisas que não vão bem. É verdade que temos um crescimento económico de dois pontos negativos. É verdade que temos um primeiro-ministro que elegeu Portugal como o adversário a eliminar (quem quer eliminar a Constituição de um Estado quer eliminar esse Estado). É verdade que estamos prestes a assistir à maior ofensiva do governo no sentido de derrotar o povo português e o condenar à escravidão para sempre – processo, aliás, já começado há muito. E os patos? Os patos tiveram hoje a bola, pois claro. Têm as touradas e o fado (muito curioso este ressurgimento fadista). E agora têm a Judite e as suas entrevistas.
E vejam como foi fácil – tão fácil – pôr todo o povo português a defender um pobre coitado de um bilionário frívolo, frugal e inculto. Não são defeitos, não lhe estou a chamar nomes feios – é apenas o que ele demonstrou ser. Que delícia para um governo liberal, ver um povo escravizado, martirizado, a passar fome, defender um rico com unhas e dentes. Perante a agressividade que – dizem – é pouco profissional da Judite, defendeu-se o pobre bilionário que “gasta o dinheiro como quer, porque é dele” e que “não é obrigado a ajudar seja quem for”. Bem verdade. Obrigado a ajudar os outros sou eu, e os outros pobres, que enchemos os carrinhos dos bancos alimentares e aas latinhas das Ligas contra Qualquer Coisa, e compramos bugigangas para ajudar a comprar cadeiras de rodas para deficientes, para – quanto mais não seja – não ficar mal na fotografia. Obrigado a ajudar sou eu, e os outros pobres, a pagar impostos para ajudar o país. Ele não, ele não é obrigado, porque o dinheiro é dele. Obrigado por me dizer que o pouco dinheiro que tenho não é meu – é bem verdade.
E depois andamos a partilhar links no Facebook sobre a Isabelinha dos Santos e a sua incomensurável fortuna de origem duvidosa. E depois criticamos o Cristiano Ronaldo pelo luxo de que se faz rodear. Mas, e como se escreve na Bíblia, em verdade, vos digo, meus irmãos patos, que até o Cristiano Ronaldo faz alguma coisa na vida para ser como é, e por acaso até o faz bem. E por acaso até contribui para muitas obras de caridade – e se mais não fosse, cada elemento da família dele. E criticamos a Isabelinha e o pai corrupto até à pontinha dos cabelos agora brancos, dizendo que a origem da sua fortuna é obscura. Já quanto ao nosso pobre bilionário, o tal “rapazito”, o dinheiro é dele (a sua origem não me parece muito menos obscura que a da Isabelinha), pode fazer o que quiser. E não precisa de fazer nada, só de existir, porque é rico e só precisa de tempo de antena, mas já o Cristiano Ronaldo é uma besta.
Patos. Não passamos de patos. E, no meio disto tudo, de tão absurdo que este assunto é, nem nos lembramos daquilo que realmente é importante. Aliás, até nos puseram, em uníssono, a defender um pobre bilionário quando um governo liberal ao serviço dessa mesma gente nos tira tudo o que pagamos. Somos os patos do costume.


domingo, 18 de agosto de 2013

DAS CADEIRINHAS DESDOBRÁVEIS E DO GIL EANNES - UM SÁBADO DE ROMARIA


Acordei com uma irreprimível vontade de ser português. Ora, em Agosto, e no norte de Portugal, sê romeiro. Bota os pezinhos a caminho de Viana do Castelo para ir passar um dia à romaria da Senhora da Agonia. Em Portugal há muitas coisas bonitas, e sem dúvida Viana é uma delas. Sempre gostei desta pequena cidade nortenha, bem alcandorada no cimo do mapa do país, com aspirações a metrópole nunca conseguidas, para bem das suas gentes e mais de quem a visita.
Viana, outrora da Foz do Lima, actualmente do Castelo, conserva muito do seu encanto devido ao facto de, apesar de ser capital de distrito, continuar a ser uma pequena cidade que se pode, sem grande dificuldade, percorrer de lés-a-lés a pé, coisa que não conseguimos fazer em Coimbra ou Braga. A sua traça é encantadora, marcada pelo omnipresente Lima e pelo mar, mas conservando os seus sinais antigos, muitos dos quais remontando à era medieval. Além disso, tem ainda o encanto de ter tradições.
Ora tradições podem ser boas ou más. Não deixam de ser tradições por serem boas ou más, apenas são e serão tradições, enquanto houver força para as conservar. Quem conserva tradições é conservador, tradicional ou tradicionalmente conservador? Talvez seja conservadoramente tradicional. Em todo o caso, Viana conserva algumas tradições interessantes. Para mim, uma das tradições que conservo quando vou a Viana é comer bem. E tenho tido pouca dificuldade em manter essa tradição. Mas aí já lá vamos.
Como a cidade é encantadoramente pequena, deixar o carro longe é impossível, e assim que o largamos rumamos para a festa dos cabeçudos e gigantones, e estávamos nós a fazer a nossa discreta aparição à Praça da República e começava o espectáculo. Bem sei que não estavam à nossa espera, mas será demasiada presunção minha pensar que sim? Provavelmente, até porque a praça pululava de gente entusiasmada, empoleirada nas varandas sobranceiras e na fonte, e em redor dos enormes gigantones que, um a um, foram elevados e postos a rodopiar pela praça fora, ao som ensurdecedor de inúmeros grupos de Zés P’reiras e por entre o frenesim dos cabeçudos que corriam de um lado para o outro, acrescentando um urro de dor de um petiz que por alguma razão o largou, e que, mesmo para um nortenho de gema como eu, pareceu quase estrangeiro: aauuuu-eeeeee! Em vez de aauuuu. Outro dos encantos de Viana: falam uma língua parecida com português, parecida com galego, mas com um sotaque meio russo, meio inuit.
A fome é uma ciência universal e a sua linguagem é mais que isso, não dando tréguas a ninguém. Costuma dizer-se que a única coisa certa na vida é a morte, mas é mentira. A fome é uma coisa certa na vida. Mais tarde ou mais cedo, vamos senti-la. E é tão bom que a possamos saciar. E podemos. Por enquanto podemos, pelo menos enquanto não houver crescimento económico exagerado que nos leve o resto que o que temos agora já arrebatou. A carne da Casa de Armas é boa. Muito boa. Aconselho. É mais do que aquilo que um pobre romeiro pode pagar, é certo, mas vale a pena. Certo mesmo é que a Casa de Armas estava já bem cheia quando nos sentamos na esplanada a contemplar o hábito muito português de marcar lugares nos sítios de cortejos e procissões com cadeiras desdobráveis.
As cadeiras desdobráveis são provavelmente o maior mistério das romarias portuguesas. Ainda na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira (o maior acontecimento cultural do Verão nortenho) nos sentamos todos no chão, em frente ao exuberante castelo, para ver o espectáculo. Mas as romarias são diferentes. As cadeiras desdobráveis aparecem como cogumelos ao longo da rua e são incontornáveis. Depois lá vão aparecendo os donos, normalmente menos idosos do que seria de supor, embora idosos o suficiente para reclamar uma primeira fila. O grande mistério é que me parece que quando as coisas acabam e as cadeiras são novamente dobradas e postas debaixo do braço direito, os idosos que as usaram, às vezes menos idosos do que seria de supor, estão tão esgotados e com tantas cãibras como os que ficaram em pé, pacientemente, por detrás das filas de cadeiras. Um mistério ortopédico, portanto.
Mudamos de poiso e fomos visitar o Gil Eannes, o famoso navio-hospital que andou por terras novas, na então gloriosa época de Corte Real, mas que, já no seu período de uso, eram velhas de quatro séculos de atribulada história de pesca do bacalhau. Uma visita barata, interessante e de alguma beleza plástica, dada a elegância do navio e a vista de Viana que se vislumbra da doca onde está estacionado. Cuidado com as escadas exteriores, não se armem em heróis.
Depois mudamos o poiso novamente para a Igreja do Carmo, para ver o cortejo histórico e etnográfico. Que valeu a pena. Trajes bonitos, bons carros, boas recordações da nossa história. Atrás das cadeiras desdobráveis, evidentemente. Outro mistério é o facto de as mulheres vianesas usarem três toneladas de ouro ao pescoço e não se ver sequer um homem trajado com um mero relógio – de pulso ainda compreendo, mas de bolso, pelo menos… pelo contrário, usam as suas camisas com coraçõezinhos e floreados, bordadas à mão, e seguem submissamente atrás das soberbas vianesas douradas das orelhas até à cintura. Não sei se é compensação por lhes fazerem a vida negra nos outros dias ou simplesmente porque se estão pouco importando com os bens terrenos. Ou então sei, mas não digo.
Os mistérios não acabam por aqui. Quem diria que sairia da romaria de Viana, a da Senhora da Agonia, em condições de ir directamente para a romaria de Barcelos, a Festa das Cruzes? É que as minhas estavam com uma vontade de ter tido uma cadeirinha desdobrável durante o dia…
Portugal é cansativo, mas mesmo dando uma de português popular, de visita a uma romaria, numa belíssima cidade conservadora e deliciosamente reaccionária, não me canso.


terça-feira, 30 de julho de 2013

VERGONHA É DEFEITO

Ilustração Marco Joel Santos

As notícias sucedem-se a grande velocidade e não é fácil seguir os acontecimentos em Portugal. Temos ministros que se demitem depois de fazerem cagada durante dois anos, e que durante dois anos negaram que a estivessem a fazer, mas que reconheceu que a estava a fazer quando se demitiu. O que já diz tudo sobre o carácter psicopata do homem, muito parecida com a atitude de Charles Manson quando foi apanhado. Por outro lado, demite-se logo outro ministro, de forma irrevogável, que é uma palavra que quer dizer que quem não chora não mama e que se vende por um prato de lentilhas, pois passados dois dias já estava de regresso com ordenado melhorado. Melhor não é o primeiro-ministro que não aceitou a demissão, como se isso fosse, em qualquer país livre, sequer possível. A menos que pense que já é o presidente do Conselho…
Depois temos um cepo que se diz ser presidente que não aceita nada disto, e junta os meninos na sala de castigo e obriga-os a fazer as pazes e diz que quer uma Salvação Nacional ao estilo de Salazar. E as pazes quase estavam feitas quando o menino primeiro-ministro foi fazer um discurso à assembleia da menina Assunçãozinha para ver se o outro menino não fazia as pazes com ele… e não fez… e o cepo, para quem nada daquilo servia para o país, regressou no passado e afinal já a solução apresentada, por entre pratos de lentilhas e meninos chorosos mas bem amamentados, era muito boa. Solução de governo que apresenta mais um cervejeiro para um cargo público. Já começo a desconfiar que não vou longe se não mamar umas bejecas na Unicer… Quem se mantém no governo e em força é o BPN, através de um senhor idoso que já foi governante no tempo de D.Afonso III, mas que entretanto ocupou um dos mais relevantes cargos no Banco do Cav… PN, ou seja, mais um dos que nos roubou cinco… seis… sete… oito… ou mais mil milhões de euros, que é uma pipa de massa. Também a Ongoing regressa ao governo, através do Branquinho, aquele que não sabia o que era a Ongoing apesar de ter aceitado ir para lá trabalhar (?) dois dias depois. Convenhamos que é um gajo confiante.
Depois temos a ministra do Schwepps, que não recebeu qualquer documentação do outro governo sobre os schwepps. Pelo menos não mentiu. Quer dizer, recebeu alguma documentação, mas não sobre o caso específico dos schwepps. Ou melhor, havia alguma documentação especificamente sobre os schwepps, mas não continham informação. Ou melhor, tinham informação, mas vaga. Ou melhor, tinham informação específica mas vinha em hebraico e ela não leu a sua Tora em pequenina, não teve tempo, tinha de estudar cartazes. Mas pelo menos não mentiu. Pode ter uma vassoura enfiada no traseiro, mas não mentiu. Aliás, está bem no governo. Não mentiu nem tem lábios, coisas em comum com o primeiro-ministro.
Tudo isto aconteceu em duas semanas, mais o Álvaro dos pastéis de nata que tentou entalar o Portas nos contratos dos submarinos. Contratos, aliás, que já se sabe que foram corruptos. Isto de acordo com os Tribunais alemães, que encontrou corruptores alemães, mas em Portugal não se encontram os corrompidos. Podiam bater às Portas que os encontravam logo… É como no BPN, ninguém sabe muito bem quem engendrou toda aquela marosca, mas também já ninguém dá Cavaco a isso…
Mas a notícia da semana, para mim, é sobre o FMI. O Fundo para a Miséria Imensa, que é liderado por uma corrupta francesa, e que já foi liderado por um proxeneta francês, retirou o etíope, a quem um conhecido sindicalista chamou de escurinho, da nossa Troika. Eu acho bem. Se o gajo é inteligente, que vá para a terra dele endireitar aquilo, pois pelo que se sabe o maior factor de emigração na Etiópia é o vento norte. O FMI pôs-nos cá um indiano. Ah pois, pega lá, embrulha e vai buscar! Agora sim, temos alguém com experiência em trabalho escravo. O facto de sermos orientados agora por alguém que vem de um país em que a violação de uma mulher é permitida desde que seja paga, é uma coisa que me descansa imensamente. Sempre é melhor que um etíope habituado ao vento norte…

PS: E os sacanas dos comunas que levaram Detroit à falência, pá…?

sábado, 13 de julho de 2013

A MIGRAÇÃO DO OXIGÉNIO

Ilustração Marco Joel Santos

Das partículas essenciais à vida, os primos C e O, - não confundir com CEO (que normalmente designa um senhor que ganha uma pipa de massa por ir a reuniões onde se bebe piña colada e se comem tremoços com pinças) – são dos mais importantes. C designa o Carbono, que é o elemento em que se baseia quase toda a vida na Terra. As árvores, o corpo humano, os passarinhos e às vezes o frango de churrasco estão carregados de Carbono. O O é o Oxigénio, que é o gás essencial para a respiração aeróbica que a esmagadora maioria dos batráquios, tainhas e demais mamíferos usa nas guelras, como as viúvas negras e as noivas virgens.
Para que o nosso cérebro consiga pensar, tem de ser arejado com oxigénio. Obviamente que tem de ser estanque, para que o oxigénio não saia pela moleirinha ou pela nuca, caso contrário não se dão certas reacções químicas que se dão nos neurónios e tal. Essas coisas, que estudamos em Biologia, no sofá da sala, a ouvir o Dark Side of the Moon. O oxigénio migra, assim, por diversas partes do corpo humano (ou não), até chegar às células, e as células mais importantes do cérebro são os neurónios. Que às vezes são substituídos por teias de aranha.
Paralelamente, o oxigénio é um dos elementos presentes numa série de fluidos, como a água (H2O) e o peróxido de hidrogénio (H2O2), mais conhecido como água oxigenada, que serve, entre outras coisas, para ocupar espaço nos armários da casa de banho. Também serve, e isto é que é determinante para o caso em questão, para fazer de uma escura cabeleira um lindo chapéu de palha. Normalmente, quem quer aclarar o cabelo desta forma, utiliza o oxigénio por fora, ou seja, lavando o cabelo com água oxigenada. Mas dá-me a impressão que outros têm o casco do cocuruto furado, e o oxigénio passa do cérebro para o cabelo livremente, não obstante as aranhas também aproveitarem as aberturas para invadir o cérebro e tecerem as suas teias que progressivamente vão substituindo os neurónios.
A cor de cabelo de Assunção Esteves (esteve, está e nunca mais vai com os porcos) talvez indicie um destes casos extremos de porosidade cerebral. Se tal for verdade, como piamente acredito, estão explicadas as diversas atitudezinhas que ultimamente tivemos de aturar à senhora presidente da assembleia da República. A sua carinha laroca de mocinha rebeldezinha-mas-de-jeito-suave-assim-quase-à-betinha-soutien-benetton-que-engravida-com-a-nortada é de facto indiciadora de que não tem grande controlo cerebral sobre a verborreia incontrolável que lhe sai pelos bofes de vez em quando. Eu acho que a migração do oxigénio da menina Assunção não se lhe fica pelas teias de aranha ou pelas aranhas em si, que acredito já tenha vendido para o fabrico de cosméticos franceses com partículas de nomes impronunciáveis que toda a gente finge que sabe o que fazem à epiderme ou à cútis (que eu também nunca percebi bem o que é). Assim como o L. Casei Imunitass. Tá-se.
Demorou 40 anos, mas finalmente, aconteceu. Acusou-me a menina Assunção de ser nazi, de ser o seu verdugo, o seu carrasco. Nunca tal me tinha acontecido. Já me tinham acusado de ser comunista, mas como eu confirmei, nunca mais tal me aconteceu. Depois é certo que me acusaram de ser um perigoso esquerdista caviar, mas sou dextro e não tenho por hábito comer coisas mais caras que o meu ordenado. A menina Assunção, com a sua carinha laroca de não-me-toques-que-eu-sou-virgem-ofendida-em-dias-santos acusa-me infundadamente. A mim e ao resto do povo que exige a demissão de um governo a quem extraíram o cérebro com um gancho pelo nariz, como fazem às múmias presidenciais portuguesas. Consta que demorou bastante a encontrar… Mas acusa-nos infundadamente por enquanto. Porque a travessa de onde ela come desde os 42 anos é a mesma de onde eu não chegarei sequer a petiscar. E quando isso acontecer, talvez me apeteça apertar-lhe o delgado-e-alvo-pescocinho-de-não-me-toques-que-me-desafinas… Talvez ela tenha razão, talvez seja melhor alterar as regras de admissão às galerias da assembleia da República. Assim talvez pareçam o seu cérebro, com teias de aranha. Talvez se sinta mais em casa e sossegue o autoritarismo laroco-tipo-eu-é-que-sou-a-prelzidente-e-não-chateiem-mais-a-menina-que-ela-zanga-se-e-ainda-grita-e-faz-uma-birrinha.
A culpa desta merda toda é da Benetton fazer preservativos como o cérebro da Assunçãozinha – porosos… É mais um retrato da merdinha queque-menino-bem-filho-de-fulano-de-tal-e-que-andou-a-colar-cartazes que tem a pretensão de se querer fazer respeitar. Como dizem os americanos: Breaking News, Çãozinha: vais tarde comó caralho…


terça-feira, 25 de junho de 2013

DO BRASIL A TELAVIVE COM BREVE PARAGEM EM LUANDA


Li ontem uma coisa no Facebook que me fez pensar – o que por si só é façanha de tomo, sob dois aspectos cruciais da existência desta alminha: primeiro ter interesse em algo escrito no Facebook, e depois o facto de ter pensado. Pode não parecer mas é coisa que é pouco usual. Passando a fase de auto-indulgência e autocomiseração do texto, devo pois declarar por escrito aquilo que me pôs a pensar. Dizia alguém, de quem admito ter feito mal em não reter o nome (pode dar-se a possibilidade de quem assim falar não ser gago mas poder ser preso e estarem a oferecer uma recompensa), que “Parem de chamar crise ao capitalismo!”.
A expressão pode parecer um chavão. Não o é. É até uma criação imaginativa e de alguma forma me espanta não ter sido eu a pensar nisto antes, e daqui podem tirar umas lições acerca de como passar da autocomiseração ao hedonismo mais exacerbado, ainda que vincado pela negativa, muito à maneira do celebrado Maquiavel. Não que me compare a Maquiavel, até porque ele viveu numa era que nada tem a ver com a nossa, ainda que se conservem certas similitudes. Eu sou mais dantesco, até porque comédias divinas são comigo, e comédias temos em todas as eras, políticos é que nem por isso.
Mas será que a expressão que li a alguém que deve estar já referenciado na CIA como perigoso esquerdista, à maneira deste vosso amigo, ao que diz o fugitivo do momento, que tenta fugir à CIA (é menino…), é um facto? E isto apelando à atenção do leitor, por eventual que seja, aplicado ao Brasil? Os acontecimentos no Brasil parecem desmentir a expressão. O Brasil é governado por um governo de esquerda – não há esquerda mais esquerda no Brasil que o PT de Lula. Já o de Dilma, deixa dúvidas. Não quero com isto dizer que o governo de esquerda no Brasil está a ser alvo de protestos porque já não é de esquerda. Longe disso. Eu ainda penso que o governo brasileiro ainda é de esquerda. E também devemos pensar que este governo de esquerda ofereceu uma coisa ao Brasil que o país nunca havia tido: uma classe média. E é essa mesma classe média que agora protesta por mais e melhor. Ou seja, uma chamada de atenção ao governo – provavelmente não terão governado da pior das maneiras, como nos tempos da ditadura militar ou de Tancredo – mas pode e devem fazer melhor.
E no que se refere a política externa, bem pode a Dilma pelo menos disfarçar a atitude de ida ao Minipreço quando se desloca a Portugal para comprar só os nossos CTT ou a nossa PT como quem arremata um kg de jaquinzinhos na banca dos congelados por um euro e noventa e nove. E aqui entra de novo a expressão que li no Facebook, imaginada por uma mente obviamente brilhante ainda que não minha, situação, aliás, demasiado aflitiva para descrever por palavras condizentes com o resto do texto – até porque hoje decidi não chamar nomes a nenhum político português, muito menos quero espalhar poios pelos ares, ainda que maduros e esperançosos num futuro que tarda em retirar os cranianos apêndices marfínicos que espetou, inexoravelmente e com algum estrondo relativo, na parede.
A verdade é que os tiques de nova-riqueza dos governantes brasileiros, que agora não são exactamente estrangeiros, segundo uma segura opinião, me deixam assustado e até concordante com a expressão “Parem de chamar crise ao capitalismo”. E isto para não falar em angolanos… Mas, por falar em angolanos, que orgásmico foi o serão, ao ver Henrique Zimmerman, um dos nossos maiores jornalistas, se é disso que se trata (?), fazer a apologia do paraíso na Terra que é Angola! Apesar de “até os governantes admitirem que ainda existe muita corrupção no país”… É que é preciso ter aquilo a que o povo indulgentemente chama de “lata” ou o brasileiro “topete”, mas que eu prefiro referir como simples existência de recipiente metálico que tem finalidade de cozinhar ao fogão. Depois percebi. Afinal não são só os chineses que estão a construir as famosas cidades-fantasma angolanas… Parem de chamar crise ao capitalismo!


sexta-feira, 7 de junho de 2013

POVO COM FRESCURA

Ilustração Marco Joel Santos

Nunca ninguém diga que Portugal não é um país inovador. Portugal é provavelmente o mais inovador de todos os países do mundo. Particularmente em algumas áreas de especialização. Uma dessas áreas em que recentemente os portugueses se especializaram é o direito da greve, ou direito à greve. O português inovou e surgiu um inteiramente novo código legal em torno da greve e do direito a fazer-se a dita.
Assim, os portugueses acham que as greves devem ser feitas em alturas especiais, conforme as áreas de actividade. Assim, podemos distinguir:
·         Greve de professores – inteiramente permitida, excepto em períodos lectivos, de exames, de correcção de testes ou exames, de divulgação de testes e exames, em qualquer dia que afecte o futuro do filho de pelo menos um pai português e ainda quando não chove;
·         Greve de maquinistas – inteiramente permitida, excepto no interior de veículos eléctricos de passageiros, a menos de 50 kms de qualquer instalação da Refer ou CP, se houver pelo menos um português que queira viajar de comboio ou metro, e ainda quando não faz sol;
·         Greve de médicos – inteiramente permitida, excepto no decorrer de dias de consulta, cirurgia, tratamento, quando pelo menos um português está doente e ainda quando o Papa Chico aparece na TV;
·         Greve enfermeiros – inteiramente permitida, excepto em dias de tratamentos, cirurgias, acompanhamento de doentes, quando pelo menos um português tenha uma injecção para levar e ainda quando o Gaspar falha uma previsão;
·         Greve de juízes – inteiramente permitida, excepto em dias em que ocorram diligências, julgamentos, audiências, inquirições, quando pelo menos um português esteja a ser julgado ou justiçado e ainda em dias que a mulher-a-dias não lavou as togas;
·         Greve de camionistas – inteiramente permitida, excepto quando envolve camiões. Também não é permitida quando o camionista descansa em longo curso, nem quando pelo menos um português vai fazer compras ao Belmiro;
·         Greve de pilotos aéreos – inteiramente permitida, excepto em dias em que ocorram voos, quando pelo menos um português pense viajar de avião e também quando as hospedeiras não vêm maquilhadas;
·         Greve de pescadores – inteiramente permitida, excepto em dias em que haja pelo menos um português que queira comer peixe; também não são permitidas se não houver barcos;
·         Greve de militares – inteiramente permitida, excepto em todas as ocasiões. Até se fartarem.
·         Greve de homens do lixo – inteiramente permitida, porque ninguém quer saber nada disso, não é nada importante. Excepto quando haja pelo menos 5 milhões de portugueses a viver com lixo até ao tecto.
·         Greve de funcionários do Centro de Emprego – inteiramente permitida, excepto quando exista pelo menos 17,5% de portugueses no desemprego;
·         Greve de nomeações do Governo – inteiramente permitida, excepto nos dias em que não haja boys a reclamar um tacho, ou quando se acabar a puta da lata;
Se os portugueses se deixassem da merda da frescura e lutassem pelo seu país… seria bom. Mas fizeram greve de cérebro, e não há previsão para a restauração da normalidade. Estima-se que cada dez portugueses tenham o QI de um peixinho de aquário, neste momento.


domingo, 2 de junho de 2013

A TERNURA DOS QUE ACOMPANHAM O PASSOS COELHO

Ilustração Marco Joel Santos
Exactamente há 40 anos nasceu um artista, um homem de raríssima veia poética, um monstro das letras, um escritor sublime. Um homem para além do seu tempo, um ser humano sem defeito, um humanista irrepreensível. Só tenho pena de não ter nascido no lugar desse cabrão e ser assim. Mas enfim, podia ser sportinguista.
O meu dia de aniversário foi como se segue: dois trabalhos despachados. O primeiro com alguma certeza do que dizia, o segundo a partir de leituras recomendadas pela professora do autor Pierre Chanu. Já leram Pierre Chanu? Não. Então vão sempre a tempo de cortar os pulsos antes de isso vos ser imposto, sabe-se lá por que lei da vida retorcida como um pé de couve-galega. Havia de lhe nascer um pessegueiro no cú a dar laranjas de Huelva. Sem casca.
Quanto ao facto de ter completado 40 anos de existência, devo afirmar a minha total inocência no caso. Há pessoas que são culpadas de ter feito 40 anos. Ou 50, ou até mais, como a nossa querida Maggie. Eu cá não sou de modas, por acaso cheguei aqui e com certeza daqui sairei para outro lado qualquer sem culpas no cartório. Os chineses é que costumam dizer que o Tempo não passa, nós é que passamos por diferentes zonas do Tempo. Só por causa dessa merda haviam de fechar todas as lojas dos chineses da minha terra. É o tempo e os impostos: os chineses passam pelos dois, nenhum os atinge.
Não vou contar a história da minha vida, apesar de ser de grande interesse pessoal. Pessoal como em pessoa, a minha. Ok, e de mais algumas pessoas que até fazem parte da minha vida e tal. Lamechices do catano. Mas o importante é que realmente a nossa vida não é só nossa, é de todos os que a queiram partilhar, contra ou não a nossa vontade. Estou a lembrar-me das Finanças, por exemplo…
Tudo isto só para agradecer a todos os que me conhecem bem o suficiente para me desejar um feliz aniversário. É certo que não foi. Foi uma merda de um dia cheio de stress, e ainda por cima com os telefonemas (alguns poucos) a aparecerem exactamente naquela altura em que eu estava a escrever sobre antitrinitarismo, messianismo e sobre a Inquisição Espanhola. O que foi um alívio do camandro.
Agora vou ali enviar os quadros de vendas de gasoil para o meu chefe, a quem vou ter o prazer de ver amanhã. Pena ser em Lisboa e às dez da matina. Por isso, fiquem todos bem. Os que já chegaram aos 40, já sabem como é. Aos que não chegaram, digo: melhor esta merda que um pau nas costas. Ou um pessegueiro a crescer no cú e a dar laranjas de Huelva. Sem casca.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

RAÇA DOS VELHOS, PÁ...!

Ilustração Marco Joel Santos

Lembro-me de que, quando era pequeno… Lembro-me pois! Quero lá saber que a malta não se lembre e mais não sei o quê? Eu lembro-me, porra. E não era grande espingarda, aquele tempo. A televisão só começava às seis da tarde com o clip dos Dire Straits “Money for Nothing” e meia hora de desenhos animados em que continuavam a dar-nos música, com o Flash Gordon e os Queen na sua pior fase... depois admiravam-se do Imperador Ming andar sempre mal humorado e de cortar a barba naquele formato de picareta. De que é que eu me lembrava? Ah, sim, lembro-me de ter lido um conto interessante.
Contava a historieta popular que um homem levou o seu pai, já velho e debilitado, para um passeio pela montanha. O velho sabia que não era nenhum passeio. O homem deu ao velho uma ração de pão velho para um dia, um pouco de água e desceu a montanha, sem olhar para trás. Era o costume daqueles lados, e o velho já não servia para nada senão consumir tempo à família e comer. Durante a noite, o homem lembrou-se de toda a sua infância, de toda a sua juventude, e de todo o cuidado dispensado por seu pai ao seu crescimento. Arrependeu-se de ter deixado o pai a morrer na montanha. Não estava certo. Logo de manhã, abalou montanha acima para ir buscar o pai. Fosse ou não costume, não se sentia bem com o que tinha feito. O velho tinha ficado no mesmo sítio, não tinha tocado na comida nem na bebida. Estava sentado, com a cabeça entre as mãos, via-se que tinha chorado. O homem não sabia se o seu pai tinha morrido de desgosto ou de frio, de fome ou de sede.
Segundo a lenda, isto passou-se “antes dos tempos”, ou seja, provavelmente antes da História escrita na península, provavelmente no tempo dos primeiros bárbaros ou dos lusitanos. Em tempos primitivos, em tempos de barbárie. Num tempo de selvajaria. No nosso tempo, muito dificilmente isto poderia acontecer. Mas só porque o pão está caro e água é privada. Porque o governo, esse, nem voltaria atrás. Cambada de selvagens…!