quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O ANJINHO

Pedro Passos Coelho no Google

Hoje era dia de negociação. Não sei exactamente porque não resultaram as negociações. Mas fiquei a saber algo sobre Pedro Passos Coelho: mesmo que fosse uma pessoa minimamente decente, que não aparenta ser, não servia para Primeiro Ministro de Portugal. Até pode vir a sê-lo. Mas não serve. Porquê? Porque lhe falta ter algo entre as orelhas.
Então vem de lá de Vila Real o homem todo desmandado, com ideias de fazer uma revisão à Constituição, e para isso até contratou o Teixeira Pinto, sabem quem é, aquele que foi condenado por irregularidades financeiras no BCP, e não é capaz de prever que esta negociação era para o gozo? Anjinho...
Esta coisa da negociação começou logo mal. Há um sítio para se negociarem estas coisas e esse é o Parlamento. Para isso é que se vota um Orçamento de Estado na generalidade e na especialidade. Andaram para ali com segredos e segredinhos como se não fosse assunto de mais ninguém, como se não afectasse ninguém, como se ninguém precisasse de saber. Obviamente, para escapar às pressões externas, que incluem a pressão externa que devia ser mais importante nisto tudo, que é a do povo português! Quem os elege para defender os seus interesses. Sou lírico, sim, já sei.
Depois, o homem escolheu o Catroga para lá ir negociar com Teixeira. A meio da primeira manhã, alguém descreveu a reunião como uma partida de sueca. Não sei quem eram os outros dois... E alguém descreveu a tarde como calma. Parece que dormiram uma sestazinha. É evidente que a escolha de Catroga foi uma escolha possível, não a melhor. A Manuela Ferreira Leite é que queria ir, para depenar o Teixeira, mas alguém a lembrou que ela passou para o Estado o Fundo de Pensões da Caixa Geral de Depósitos, que agora se anda a pagar, e isso o Teixeira não ia esquecer, ao contrário de todos aqueles que agora dizem que a velha e incompetente Ministra das Finanças de Barroso é que tinha razão. Evidentemente, o Teixeira agora recorreu ao mesmo truque... estes laterais portugueses são uma treta, é sempre a mesma finta, porra, vão buscar o Philippe Lamm!
Há sempre perguntas de algibeira. E esta é de algibeira das moedinhas pequenas: se o orçamento é assim tão mau, porque se há-de viabilizar? Ah, para não vir o FMI... nos próximos meses. Assim só vem depois da eleição do Cavaco. O Cavaco! Diz ele que não vai gastar centenas de milhar de euros em "AFIXÃO" de cartazes... Cá para mim, é porque ele não sabe fazer a "afixão" dos mesmos, ao contrário do anjinho seu pupilo, que tinha vasta experiência nessa tarefa, e melhor seria que voltasse para lá, pelo menos fazia alguma coisa que sabe... E também talvez porque, depois da "afixão" dos cartazes, a múmia pode ficar sorridente demais, e depois o pessoal pensa que ele não se preocupa com as coisas realmente importantes, como o estatuto político dos Açores ou do Castelo de Almourol, que também é uma ilha. O homem até diz que não sabe onde estaria o país sem a sua discreta actuação. Cavaco está a perder qualidades. Afinal, já tem dúvidas, já tem medo de se enganar e até já nem sabe estas coisas! Felizmente, todos sabemos e podemos responder-lhe: o país estaria aqui na mesma, ò prelzidente! Podia era estar melhor, sem a sua "vasta experiência financeira", que no passado abateu toda a nossa frota pesqueira e ordenou cargas de polícia sobre os pescadores, para agora dizer que Portugal tem de se virar para o mar. Mandar os portugueses para o mar, prelzidente? Em que barcos? Não quis, em vez de os mandar ao mar, mandá-los à merda?
Olha, a Maria é que esteve bem e disse que não é bruxa. Há quem seja, ali por perto havia pelo menos uma, mas a primeira dama não é e fez questão de o afirmar. Senão tinha adivinhado as escutas...
Voltando ao Orçamento, este está, obviamente, mais que aprovado. O anjinho não tem outra opção e o Teixeira e o Socretino sabem disso. Negociar?! Estes gajos devem estar doidos... A única coisa que o anjinho conseguiu foi acrescentar mais uns pontinhos no juro da dívida portuguesa por mais uns dias. Pode ser que consiga que aquelas coisas importantes, como ter o leite com chocolate mais barato, ou pagar mais deduções à colecta no IRS com Títulos do Tesouro (!!!) passem na especialidade. Venham eles, sempre dão para acender a lareira. As menos importantes, como o aumento do IVA para 23% ou o corte dos salários de quem trabalha, ou a eliminação do Abono de Família, não atrapalham a consciência.  Afinal, isso são medidas para os ricos mesmo...
A propósito, o IVA do leitinho com chocolate devia aumentar para 100%. Tem chocolate, faz mal. Bebam do branco. De preferência dos Açores, que é bem bom e barato. E se bem que com um estatuto político lixado, ainda é nacional...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

ESSE ERA O VIVALDI, PÁ!

E precisa de legenda?
O Outono, dizem, anda por aí a rondar a carteira dos portugueses. Ou o Outono ou o Teixeira dos Santos, não sei bem. Desconfio que três ou quatro destes dois andam de certeza a rondar a carteira dos portugueses. Não sejam desconfiados! Fala-se assim e porque é que toda a gente fica com a impressão que nos querem tirar o conteúdo da carteira? Nunca tiveram alguém a rondar a vossa carteira, e vocês desconfiados, desconfiados, e vão a ver e até deixaram mais do que lá estava? Ah, pois, disso nem se lembram! Bem, está aí uma vantagem do PEC 43 (ou 44?). Já ninguém vai andar com medo de ser assaltado na rua. Para quê? Vida difícil aos carteiristas e assaltantes - até para esses, e depois ainda se diz que o pessoal não quer é trabalhar e isso...
Bem, chega de dissertações económicas, deixei de ter vontade de rir. O Outono, pois. Que, aparentemente, com o novo acordo pornográfico, se deve escrever outono. Assim, mesmo, sem O grande nem nada. E eu concordo! Já anda tudo atarefado a descrever o outono como a estação romântica e essas coisas. Descabido, ou já se esqueceram que escreveram o mesmo acerca das paixões de verão, da esperança da primavera  e até dos enroscanços manhosos à luz da lareira no inverno? Pois, mas convém. É que com essas paneleirices todas lá vamos tocando a coisa para a frente sem pensar porque razão já ninguém nos quer assaltar.
E depois outono e tal, S.Martinho! Pimba! Castanhas e murraça! Pois claro, bebe para aí, isso é o romantismo do outono! Já para não falar naquelas castanhas que a gente até escolhe com cuidado, aquelas que não estão assadas até parecerem farelo nos dentes - à laia daqueles cereais de fazer cagar que são piores que palha para burros - que depois não largam a pele e estamos ali duas horas a desfolhar unhas? Bem, toma lá o S.Martinho. Ainda ontem um produtor de castanhas - não, caraças, pá, não é o castanheiro, o dono! - se queixava que vende as castanhas a 40 cêntimos o quilo. Já viram castanhas no hiper? Se virem a menos de quatro euros o quilo, avisem-me. Não sou romântico mas como castanhas. Também tem solução fácil. Em vez de produzir, só vende nas portas dos hipers, a dois euros. Mas claro, alguém meteu na cabeça desta gente que é preciso produzir algo neste país. Mentira!
E depois o outono, que maravilha, ver as folhas a caírem , caducas, amarelinhas ou então em tom de vermelho envergonhado, a caírem da árvore... Vermelho, sim, isso de encarnado era no tempo do outro que não caiu da árvore, mas escangalhou-se da cadeira abaixo - tão lindas, tão romântico. Claro que sim, não são vocês que as limpam... Para o varredor da cambra a coisa é romântica como um balde de água fria pelos cornos abaixo. E isso se não tiver o ordenado cortado, senão nem para os ditos tem guito... Romântico...
E outono é sairmos de casa com abafo e casaco mais cachecol e guarda-chuva (cá no Norte é guarda-chuva, e quê?) e chegar ao almoço a nadar em suor. E é sair cheio de frio de casa no dia seguinte e no outro a seguir nem sair de casa porque caiu de cama. Ah, pois, que romântico! Eu também acho, o pessoal é que não vê o potencial lírico de um folheto do Antigripine...
E ainda outono é vermos os dias a minguar, a minguar, a minguar, até ficar do tamanho de um ordenado de um funcionário público. É o regresso das horas de paciência ruminante à espera que aquele papá finalmente feche a merda da porta do autocarro de equipa a que chama carro familiar, a porta do lado da rua, essa mesmo, não vá causar menos incómodo a quem queira transitar, para deixar sair o repolho que já tem idade para ter telemóvel e que por causa disso demora três infinitas semanas a sair do banco de trás do dito autocarro enquanto escreve mensagens à menina que está à espera do outro lado do passeio, à porta da escola, exibindo o característico sorriso alumínico do aparelho para entortar bocas. Mas que não tem a merda da idade para apanhar um autocarro para escola... E agora toda a gente descobriu que tem dentes tortos!! Ou os dentistas é que se lembraram que os assaltantes tẽm de ter vida difícil, já não sei.
Bem, é o outono, com letra pequena, à brasileira (se eles não têm estações, que importância lhes darão?), e que é tão romântico!! Esse era o Vivaldi, pá! - que era funcionário público, curiosamente. Só não varria folhas, nem produzia castanhas. Mas era provável que tivesse os dentes todos fºdidºs... 

sábado, 23 de outubro de 2010

DIÁRIO DE VIAGEM - DIA 6

Marraquexe, 23 de Setembro de 2010

Jemna Al Fna e a Koutoubia
O que se pode dizer mais sobre Marraquexe? A cidade dorme pouco. A praça Jemna El Fna só deixa de ter movimento muito tarde. É um movimento festivo, mas não calmo. É um movimento nervoso, quase caótico, é um constante S.João, uma busca insaciável por divertimento. De grupo em grupo, de tenda em tenda, sempre buscando e encontrando um insólito, um qualquer facto relevante que nos dê vontade de sorrir. E não desilude. Esses aparecem a cada passo. A praça é apinhada de gente de todas as nacionalidades. Depois de esvaziada, abrem todos os night clubs, bares e discotecas da cidade. Contra-senso? Talvez, mas com centenas de hotéis a bordejar a medina, não faltam sítios onde nos podemos divertir até altas horas.
O melhor hotel da cidade é o Al Mamounia, de seis estrelas, e da mesma cadeia do Burj-al-Arab do Dubai. Seis mil euros é o que custa uma modesta diária single. Espero pelo menos que sirvam o pequeno almoço. E isto leva-nos a pensar nos extremos desta terra. Mas Marraquexe é assim. E desde que Yves Saint Laurent decidiu mudar-se para aqui, não faltam outras estrelas para abrilhantar este céu frenético fronteiro ao Atlas. Gente como DiCaprio, Cate Blanchett, Jacques Chirác e outros têm casa em Marraquexe. 
Medina de Marraquexe
A medina é como qualquer medina árabe, embora a cidade não seja árabe, mas sim berbere. É uma profusão imensa de cor, cheiros, pessoas. É um intrincado labirinto de ruas e vielas, todas elas com as características lojas das medinas, e não se dobra nenhuma esquina sem que se não vejam centenas de pessoas, quer locais ganhando a vida, quer turistas largando os necessários euros. Um euro vale dez dihram, e sem euros não vamos longe em Marraquexe. Embora tudo tenha preços acessíveis, o euro é a moeda corrente. Só se conseguem fazer compras com dihram ou euros, esqueçam a provisão de dólares que esqueceram da última viagem.
Face ao movimento da praça, mesmo diurno, consideravelmente mais calmo que o nocturno, quase merece pouca atenção o restante património da cidade. Há o Palácio da Favorita, os túmulos saadianos e a Koutoubia. Este minarete é um gémeo da Giralda de Sevilha e situa-se no extremo da praça virado para a porta principal da cidade, virada a sul. Domina não só a cidade de um milhão de habitantes, mas também os visitantes que se aglomeram abaixo. A longa avenida que liga a praça à torre e esta à porta é pedonal, o que não quer dizer que motoretas e carruagens puxadas a cavalo não transitem. No final desta, uma improvisada e gigantesca praça de táxis, sempre necessária aos incautos que percorrem a cidade a pé e calculam mal o caminho de regresso ao hotel ou o calor da tarde - em Setembro, 42,0ºC dão que pensar.
Uma palavra para os nossos amigos italianos que nos fazem o favor de nos acompanhar. São do pior. Não só confirmei aquilo que já pensava, como ainda aprendi meia dúzia de coisas sobre italianos. São antipáticos e belicosos. Fingem não entender a sua própria língua. Faltam ao combinado com uma frequência assustadora, têm uma especial tendência de dificultar o que é fácil na pior altura, como sair de um veículo. Hoje, uma turista italiana ficou a pé na medina, após termos secado três malditos quartos de hora à sua espera. por sinal, aquela que exige que os guias lhe falem em francês, pois sabe falar francês, apesar de ser italiana (??). Propus a um outro grupo de turistas que trocassem os espanhóis deles pelos nossos italianos. Nada feito. Os portugueses são difíceis de controlar, pois após a explicação do guia em espanhol ou italiano, seguem em frente para o próximo ponto de interesse. Coisa que os italianos não entendem: como podem os portugueses não ter um guia que lhes fale em português, e ainda por cima, entenderem o italiano? Coisa misteriosa, de facto...
Um dos inúmeros jardins da cidade
Está a chegar ao fim. Amanhã vamos à medina por nossa conta para as compras finais. Há umas especiarias e produtos de beleza à espera, pelos vistos... Depois, Casablanca, e depois Lisboa, e depois Coimbra e depois Leça.
Talvez quando o TGV estiver pronto cá venha sem aventuras de aeroportos. Arrancou este ano a obra, prevê-se que daqui a quatro anos esteja pronto, de Ceuta a Marraquexe. Local do mundo, destino a revisitar. Sempre.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ENFARDAR AJOELHAR DEFECAR

Foi no Google!
Que foi? Não tenho direito a ter um título estúpido num post? Tem sempre que ser inteligente e a haver com o que está escrito depois e mais isso? Então olha, azar! E estão a pensar que vai sair daqui uma crítica cinéfila ao filme do ano? Não, mas já que pensaram isso, tenham lá juízo e vão ver o Inception. Não é nada disso, na realidade. Não nego a inspiração no mais estúpido título de sempre de um filme, e este até está bem traduzido, não sofreu como o Alien, que foi traduzido para O Oitavo Passageiro ou o Full Metal Jacket, que levou com o atroz Nascido para Matar. Isto para não falar no Debbie Does Dallas, traduzido por um mentecapto qualquer para Dallas e Recebê-los... E vocês sabem do que eu estou a falar!!!
Bem, a questão é mais simples que isso. Não tem propósito, é apenas uma associação de palavras bem mais interessante que o título do tal filme. Ora vejam lá se um gajo não enche o bucho de cozido à portuguesa (por acaso, eu não... pratinho tipicamente português menos português nunca vi), a seguir tenta fazer face ao ardume no esgoto com um agachamento que raramente não dá em desequilíbrio, pelos gases etílicos na telha, num belo ajoelhanço? E se é bem verdade que um brasileiro, quando ajoelha, tem de rezar, um português ébrio e repleto de besunto no sistema digestivo, normalmente, aproveita para gregar ou defecar. Qualquer uma das duas resulta. Arranja-se mais espaço para voltar ao início do ciclo.
E agora a tal crítica ao filme.
O filme não faz sentido. Desculpe-me quem já viu e gostou, mas não faz sentido. Lá a Julia que faz de esponja do Clooney no Ocean's que depois faz dela própria, despede-se, e vai descobrir, por esse mundo fora, os prazeres simples da vida. Ora isto em Portugal, hoje em dia, é perigoso. Isto de viajar custa dinheiro e não estamos num conto de fadas. E uma semana é uma semana, um ano é uma vida! Era coisa para dar um ataque carnívora ao Cavaco, calhando ele de saber! É mau exemplo em tempos de austerismo!
Segundamente, como dizia o prefeito da cidade em que ninguém morria, a moça quis aprender o que era boa comida. Até aqui, entendo. Americana, com aquela comida de lá... Até eu. E vai daí, abala para onde? Onde se come bem? Trás-os-Montes? Alentejo? França? Galiza? Não, foi para a Itália!!! Esta custa, porra!! Então a gaja sai da América para aprender a comer e tenta aprender a comer na Itália?? Os gajos só comem massa com tomate, por amor de Rá!! Até o queijo é esquisito, de búfala ou o camandro, não é Serra nem Serpa ou, vá lá, um Brie... Estupidez pura!
Depois de enfardar tagliatelli, ravioli, spaghetti, tortellini, ou seja, uma tonelada de massa, decide que quer aprender a rezar e vai para a Índia. Mas isto está tudo doido. Na Índia, eles não rezam, meditam! Andam lá a trocar os braços pelas pernas e adormecem a meditar em posições estranhas quase a enfiar o dedo grande do pé esquerdo no globo ocular da extremidade inferior do sistema fecal! Isso não é rezar! Quando muito, é apanhar torcicolos em tudo o que é sítio e não só no pescoço. Aliás, nada me garante que a moça pudesse sequer resistir a tamanha violência. Para não falar em pasmaceira! Quer rezar, vai para a Polónia, lá é que eles rezam. Ou, vá lá, para o Vaticano. É sítio para ser mais ou menos para isso.
Finalmente, quer amar. E vai para a Indonésia!! Espero bem que este filme não passe em Timor. Mas porquê Indonésia? Amar, amar... Sei lá, vai para a França, para o deserto, para a savana africana, tipo África Minha (mais uma tradução brilhante...), ou dá uma volta de cacilheiro ou o catano... Agora ir para a Indonésia para o meio dos olhos em bico que plantam arroz e obrigam os putos a ir à escola de calçado?? Mas estamos aonde? Isto é tudo uma bela treta! Um dia destes ainda me dizem que para ver políticos vão à Assembleia da República ou o caraças!!!

DIÁRIO DE VIAGEM - DIA 5

Marraquexe, 22 de Setembro de 2010

As delícias do Atlas Medina & Spa
Custou despedir-me de Fez. A cidade impressionou-me de tal forma que foi penoso virar costas à esplanada do Hotel Les Merinides e à vista global da medina. Ou foi isso ou então era mesmo a viagem de 500 kms até à capital do sul, Marraquexe, atravessando as montanhas do Rif.
Ifran é uma estância de esqui! Parece mentira, mas é uma autêntica Aspen do norte de África, cheia de chalés suíços e bosques de verdes cedros. Consta que no Inverno a montanha se cobre de neve. A temperatura fresca e o aparente regresso à Europa foram refrescantes, mas não mais que isso. 
Descemos o Rif aos ziguezagues, passando por aldeias e cidades cada vez mais baixas e cada vez mais em obras. Quando chegamos à enorme planície que é o centro de Marrocos, começou a agigantar-se, à nossa esquerda, uma enorme parede de pedra, o Atlas Médio. O Atlas Médio é a extremidade norte do Atlas, e à medida que nos dirigimos a sul, vai aumentando de altitude e de espectacularidade. Depois do almoço, em Beni Mellal, a montanha atingiu o seu cume e desapareceu de repente. Uma imensidão plana surge a Leste, uma porta imensa por onde os ventos do Sahara penetram, correm a planície e aquecem as praias, a Oeste.
A falha geológica que se segue a Beni Mellal faz subir a temperatura, de um momento para o outro, em dez graus. O terreno torna-se árido, e só à custa de muita imaginação e irrigação a agricultura fértil continua a ser possível. Assim se mantém até ao centro do oásis no centro do qual se ergue Marraquexe. A temperatura nocturna superior a trinta graus ameaça-nos para a jornada de amanhã, no interior da medina.
O Hotel Atlas Medina & Spa é um luxo, uma espécie de mil e uma noites berberes. Daqui ao centro de Marraquexe, a famosa praça Jemna El Fna, onde se ergue o minarete gémeo da La Giralda de Sevilha, a Torre Koutoubhia, é uma caminhada agradável, que fizemos sós, devagar e com prazer, depois de devoradas quantidades industriais de doces à sobremesa. Penso que a viagem nos incutiu o sono, e foi a maneira de acordarmos. 
Jemna El Fna
A praça é uma surpresa imensa e intensa. É uma enorme área aberta, que contrasta com a medina de Fez. Estava cheia de berberes, orientais, portugueses, suecos, americanos e quem mais decidiu visitar a noite louca de Marraquexe. De tudo se vende, de tudo se compra, encantam-se serpentes, contam-se histórias, toca-se música, conversa-se animadamente. Marraquexe não desilude. A cidade património da Humanidade existe apenas porque é assim. Uma loucura total. A praça morre às três da manhã, altura em que se enchem os inúmeros bares e discotecas da cidade, localizados atrás de insuspeitas portas.
Vêem-se muitos casais de namorados espalhados pelos bancos e relvados dos enormes jardins da cidade. Sem se tocarem, com olhares envergonhados a quem passa, invariavelmente com as duas scooters ao lado. Eles, vestidos de forma ocidental. Elas, com túnicas cingidas ao corpo e de lenço leve na cabeça. Não vi, até agora, nikabs em Marraquexe. A cidade parece ser demasiado vibrante, demasiado barulhenta e demasiado ocidental para esses exageros de indumentária. Ocidental e, no entanto, do Sul. Daquele Sul de que conhecemos outras paragens, de paragens de Al-Gharb. Mas sem se estragar, sem se impressionar, sem se vender. Apesar de tudo, tudo mesmo, ter um preço em Marraquexe.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O URINOL

Imagem Google
Hoje fui a um shopping! É verdade, eu mesmo. Tive uma crise de consumismo e fui comprar uma pilha (daquelas bem espalmadas, que não se encontram por aí na farmácia). Uma vez completada a compra (ok, confesso que comprei mais umas coisitas), demos uma volta pelo centro comercial. 
É uma superfície relativamente nova, e não vou dizer qual é. É em Perafita e está integrada numa loja de móveis. Ou o contrário, não distingui. O cenário era desolador. Os três clientes que por ali cirandavam éramos nós os dois. O terceiro tenho dúvidas se não era uma senhora da limpeza. Aqui há dois meses, isto tresandava de galegos. 
Ah pois! Mas 77,00 € só para dar uma volta no Porto (ou arredores longínquos, no caso) é um bocado caro. Atira aí para um custo por Km mais ou menos de um euro. Duzentos paus! Por Km, que numa autoestrada e à velocidade máxima, passa impreterivelmente em 30 segundos. Já tive vícios bem mais baratos... "Lolita, apionta aí en el cadierno! Más 30 segundios, pimbia, un eurio!". Pior que uma slot, porra! Sim, e já sei que tenho obrigação de escrever espanhol correcto. E escrevo, mas quando quero. Agora quero aldrabado. E esta mania de pôr um "i" em palavras portuguesas e dizer que é espanhol cheira-me a mariquice - da nossa parte...
Bem, e fomos à casa de banho. Eu já estava meio morto de cansaço e já não pensava direito. Fui direito a um urinol e dei por mim a pensar que belo invento é aquele! Eh pá, aquilo mantém sempre o mesmo nível de urina misturada com água, por muito que a gente mije lá para dentro. É prático e o princípio físico da coisa é brilhante. Não que não o conheça (mal de mim, ainda dava em Sócrates...), mas de facto é uma utilização porreira. E pensei que seria tão giro ver por ali, a boiar (flutuar o caraças, isso é para gente fina) algumas caritas larocas que andam por aí a armar-se ao político e ao governo e ao chefe de oposição que é governo e coiso e tal e depois puxar a água e vê-los a desaparecer lentamente, em círculos que levam ao purgatório. Depois dei-me conta que devia era ter ido cagar, pois o buraco do urinol é pequeno demais para tanta merda junta.
E o pior foi que, de tanto cansado que já estava, quando saí, depois de lavar as manápulas (sim, sou desses), pensei imediatamente sentar-me nuns cadeirões que lá estão, claramente, para os homens esperarem pelas senhoras. O que é frequente, por razões óbvias, quando ambos vão à casa de banho - bendito urinol, mais uma vez. E bendita anatomia, claro. Se bem que não aprecio nos outros... Isto está a ficar gay? Não, pois não? Prontes, Ok. Não é que a minha menina já estava no corredor à minha espera?? Cada vez perco mais tempo a pensar em merda...

domingo, 17 de outubro de 2010

DIÁRIO DE VIAGEM - DIA 4

Fábrica de Curtumes
Fez, 21 de Setembro de 2010

Indescritível a visita à medina de Fez. Já tinha estado em medinas, como em Sousse ou Tunis, para não falar no Khalili. Mas esta é fabulosa. Claro que Fez tem um palácio imperial, com as suas sete portas de bronze maciço. Claro que tem uma muralha imensa, claro que tem um bairro judeu onde os velhos hebreus ainda hoje recitam o Talmude nas varandas de madeira de cedro.
Mas é dentro da muralha, na medina, que Fez encerra o seu imenso encanto. A cidade tem um milhão de habitantes, sendo que um terço destes vive no interior das muralhas da cidade. Podia dizer que estas pessoas moram na medina, mas não é disso que se trata. Elas não moram ali apenas, elas vivem inteiramente as suas vidas na medina. A maior parte nunca saiu das mesmas. Lá dentro está tudo o que necessitam, desde escolas até à mais antiga universidade do mundo. 
No nosso grupo, existe uma senhora muito especial. É muda, resultado de um AVC aos trinta anos. Foi o único vestígio que a doença deixou. É muda, mas tem uma disposição magnifica. O grupo dividiu-se em dois, uma vez que portugueses e italianos tinham guias locais diferentes. Além do mais, para uma incursão na medina de Fez, é pouco prudente um grupo ter mais de 20 pessoas. Esta senhora ficou para trás, à entrada da medina. Ficou a comprar algo à entrada do bairro judeu. O grupo continuou a deslocar-se para a medina, no meio da confusão. Apercebi-me de que o marido da senhora ia lá à frente e voltei atrás. Não me pareceu que uma senhora pequena e ainda por cima muda tivesse alguma vez a hipótese de recolar ao grupo. Aguardei que acabasse a compra e recuei os últimos dez metros. Quando lá cheguei, a senhora olhava para todos os lados, com olhar assustado. Dei-lhe o meu braço e ofereci ajuda. De imediato aceitou e através dos seus trejeitos e sons, deu para ver que estava preocupada. Eu também já não via o grupo. Mas a minha experiência destes sítios ditou que seguisse o maior fluxo de pessoas e procurasse a maior porta da medina nas imediações. Em breve encontramos o grupo. A maior parte das pessoas não se apercebeu sequer da situação. Ganhei uma fã para o resto da viagem.
Terraços de Fez
As ruas da medina têm, nos seus pontos mais largos, dois metros. Algumas não comportam a passagem de uma pessoa pela outra. No interior da medina, apenas é possível o tráfego humano e animal. Mulas e burros transportam nos lombos a sua carga incessantemente. Muitos andam sós, e conhecem os caminhos que têm de percorrer. Lojas de tudo o que se possa imaginar amontoam-se, porta sim, porta sim, ao longo das ruas estreitas, em espaços que por vezes não ultrapassam dois ou três metros quadrados. Os cheiros misturam-se no ar, cada bairro tem uma especialidade. O bairro da comida é extraordinário, pelos cheiros e pela aparência cuidada dos produtos, nomeadamente os famosos doces árabes. O bairro das especiarias é igualmente especial, pelos cheiros e pelos montes cónicos de diversas misturas de especiarias e ervas aromáticas.
Mas tudo muda quando chegamos ao bairro dos tintureiros, onde os processos são ainda os primitivos, para tingir as roupas. Ali logo ao lado, um dos ex-libris da cidade, o bairro dos curtumes. Entramos por uma porta pequena, subimos e descemos escadas que pareciam nunca acabar, por entre corredores estreitos onde já se fazia adivinhar um aroma especial. À entrada de uma sala, deram-nos ramos de hortelã e menta, que encostamos ao nariz de imediato. Todos os produtos em pele que possamos imaginar encontravam-se expostos, pousados em prateleiras ou pendurados do tecto decorado. Depois de várias salas, uma varanda onde o cheiro se tornou insuportável. Lá em baixo, vinte metros abaixo, estavam os tanques de curtição de peles. Uma visão familiar mas surpreendente, pelo cheiro a urina de vaca e bosta de pombo, pelo trabalho de escravo daqueles homens cobertos de cores, pela dimensão imensa do sítio.
Os edifícios ultrapassam facilmente os 20 metros de altura, e não há prédios propriamente ditos, antes aglomerados de casas, umas em cima das outras. Com o exterior tosco, muitas das vezes suportadas por estacas de madeira, nada deixa antever o interior destas casas, pois não têm janelas exteriores. As janelas estão viradas para o pátio interior, onde as decorações e jardins são muitas vezes pouco menos que sumptuosos. O restaurante onde almoçamos ou uma das lojas de tapetes seriam dignos de pertencer ao Alhambra, embora, para lá se chegar, muitas vezes tenhamos de andar de lado.
Madrassa na medina de Fez
A medina é fresca, tem imensa sombra. No pico do sol, muitas ruas são iluminadas artificialmente, pois a luz natural não consegue chegar ao solo. Admirei, surpreendentemente, o estado das ruas estreitas, bastante mais limpas que esperava. Os cheiros são intensos, a madeira, a especiarias, a perfumes exóticos, a mulas e burros, a peles acabadas de arrancar que seguem para a fábrica de curtumes, que opera como no séc. XIV.
Fez é uma imensa colmeia, a sua medina é atravessada por miríades de veias pulsando de gente. A universidade que se encontra no seu interior é a mais antiga do mundo, e apenas pudemos admirar as suas portas abertas, que ostentavam o sinal de passagem proibida a não islâmicos. Fez é sofrida, um luxo para os sentidos, um deleite para quem aprecia o Homem no seu melhor e pior.
Muitas lojas são de judeus ortodoxos, que conversam, tomam chá e jogam xadrez com os seus vizinhos muçulmanos. Fez não confirmou o que eu mais temia. Vêem-se muitos véus, mas muito menos que em Casablanca ou Rabat. O que é, obviamente, mau. Pois se é onde o progresso económico é maior que a regressão humana se faz sentir com mais força...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DIÁRIO DE VIAGEM - DIA 3

Porta Bab Mansour, Meknés
Fez, 20 de Setembro de 2010

Saímos de Rabat pela manhã. A capital administrativa tem alguns pontos de interesse, e a Casbah é um deles, mas sabe a pouco. Os primeiros dois dias de viagem, tirando a confusão no aeroporto, tiveram ainda pouco entusiasmo. A viagem não é feita por autoestrada, para que possamos efectivamente ver Marrocos e não apenas passar por ele. Paramos a meio da manhã, numa cidade rural muito agradável, para tomar café. As mesas apenas têm cadeiras viradas para a rua. Ninguém toma café de costas. Mais uma vez, não se vêem mulheres na esplanada e tão pouco no interior, ao contrário da Jordânia. O café é excelente, vem servido à maneira árabe, num copo de vidro, daqueles a que chamamos "copo de três". Mas é bom e barato, cerca de 50 cêntimos...
Volubilis é uma cidade romana de grande porte, e não é muito diferente de qualquer cidade romana em ruínas, e embora conserve o arco triunfal e diversas portas, não impressiona demasiado. A região onde se encontra é uma réplica do Alentejo, mas sobranceira já ao Rif, a cordilheira montanhosa que continua até Gibraltar. Aliás, é uma região de grande beleza, com searas a perder de vista, espalhadas por colinas suaves. O guia das ruínas era muito simpático, fartou-se de fazer brincadeiras com os amigos portugueses, apesar de dar explicações em italiano e espanhol. Não lhe adiantava nada falar italiano... Quando um italiano pergunta a um português o significado de jacuzzi...
Meknés é uma cidade grande, bonita e arejada. É cercada por 40 kms de muralhas, em três cinturas. As muralhas são obra de Ismail, o Grande, o imperador que quis comparar-se ao seu contemporâneo Luís XIV como o Rei-Sol. Construiu no interior das muralhas o maior palácio do mundo, do qual se podem visitar os celeiros e as cavalariças. Mais uma vez, sendo Palácio Nacional, o seu interior está vedado a visitas. Há muitos gatos. Os árabes adoram gatos. Alimentam-nos tão bem como aos filhos. São lânguidos, sonolentos, não temem as minhas mãos que os procuram para mais umas carícias. Adoro gatos. E eles sabem disso.
Fez, à noite. Uma muralha imensa cerca a monstruosa Medina. Nunca tinha visto uma Medina tão grande, excepção ao Cairo, como é óbvio. A vista dos terraços do Hotel Les Merinides, onde vamos ficar hospedados, é tremenda. Fez antiga jaz no vale imediatamente abaixo do monte que é encabeçado por este hotel. Mais um hotel excelente. Uma estrela faz muita diferença! No tecto dos corredores há um modem para cada dois quartos. A net é muito boa, e o telemóvel deu para ver o que se passava na blogosfera e ver os golos do Cardozo contra o Sporting... O hotel é uma construção moderna, mas faz lembrar, de alguma forma, as formas árabes. Talvez seja das portas...
Vista parcial da Medina de Fez, a partir do Hotel Les Merinides
A vista de Fez não desilude. Na Medina moram 350.000 pessoas, grande parte das quais nunca saíram das muralhas. Dizem ser a Medina mais confusa do mundo. E quem já visitou Tunis, Sousse ou o Cairo sabe como uma Medina pode ser confusa. Ao pé da Medina de Fez, a Casbah de Rabat é um aglomerado insignificante. Amanhã, muitos pontos de interesse nos esperam. A começar pelas deambulações nas ruas estreitas, passando pelas Madrassas sumptuosas, a mais antiga universidade do mundo ou a famosa fábrica de curtumes...
Fomos jantar ao restaurante típico marroquino do hotel, no terceiro andar, em detrimento do restaurante francês. Se quisesse jantar francês não iria para Marrocos. A vista de Fez à noite acompanha-nos, bem como a dança do ventre. As mesas são baixas, tal como as cadeiras. Mas podemos jantar esparramados nos imensos sofás. Uma sopa aromática de carne, para onde se espreme um limão e se acompanha com tâmaras frescas fez as delícias da noite. Depois, claro, uma "tajin" de carne de vaca com canela. Sabores fortes antes de um dia que parece vir a ser ainda mais forte...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

VIVA O PEC 3!!!!

Imagem Google, assinada pelo autor

Agora fiquei tão feliz!!! Apesar da dureza das medidas anunciadas pelo PEC 3, vejo que as mesmas são um sinal de esperança para alguns sectores da nossa sociedade! É verdade! Ainda há esperança! Apesar de os juros da nossa dívida terem subido por causa do défice, e agora estarem a subir porque vamos ter uma recessão (esta era realmente difícil de prever...)!
João Palma, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, anuncia que o sistema judicial português, em resultado dos cortes e reduções de salários, pode entrar em colapso!!! Ora eu não sei bem em que estado está a nossa Justiça, mas colapso é de certeza uma melhoria IMENSA!!!!
O senhor diz outras coisas interessantes, incluindo uma que me ficou no goto. Diz o senhor que os magistrados deste país, apesar de não terem qualquer culpa da crise instalada, estão dispostos a sacrificar-se para bem do mesmo! Claro, os culpados somos nós, o povo, eles, realmente, em nada, mas mesmo nada, nadinha mesmo, contribuíram para chegarmos a este estado, até porque a Justiça nem tem nada a ver com o estado da economia deste ou de qualquer outro país, nem sequer deve ser o garante da democracia nem nada! Mas todos temos de nos sacrificar, mas mesmo todos! Mais, melhor que cortar salários, seria eliminá-los (alguns realmente não fazem muita falta)! A Justiça Portuguesa e seus digníssimos representantes! A gente séria da Nação!!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

REPÚBLICA?

Imagem Google
Ontem, lá se comemoraram 100 anos de República. É uma grande efeméride, pois são 100 anos de um regime político implantado em Portugal. São 100, é um número redondo, e deve ser por isso que tanto se comemorou e porque tantas pessoas quiseram associar-se à festa. Só assim compreendo as demonstrações de afecto que vi por aí.
Na cerimónia oficial, enquanto Cavaco e Sócrates se preocupavam em enviar recados um ao outro e ao Passos Coelho, que não estava presente, por achar que a Fundação Champalimaud seria mais importante (pelo menos é coerente), um dos presidentes anteriores ainda vivos, o Gen. Ramalho Eanes, afirmou perante as câmaras da TV aquilo que muitos deviam afirmar. Afirmou-se frustrado pela República, por não ter atingido os objectivos a que esta se propõe, ao mesmo tempo que se afirmou responsável pelo estado da democracia em Portugal, pois já foi Presidente. Aumentou mais, se possível, a minha admiração por esta figura política portuguesa, que já antes apreciava. Disse aquilo que muito boa gente não tem coragem de assumir, as suas responsabilidades no estado do país por ser ou ter sido titular de cargos políticos.
Eu não embarco nas estrelinhas que nos lançam para os olhos. República não é sinónimo de Democracia, e em Portugal muito menos, ou já esquecemos que passamos 48 anos destes 100 em ditadura? Até ali o amigo Américo Tomás, o "Corta-fitas", foi Presidente! E diga-se que os primeiros 16 não foram lá aquela coisa em termos democráticos... Os últimos 36, ditos democráticos, sempre são melhores que os outros dois períodos, mas com defeitos, claro. É bem verdade que a perfeição é difícil de atingir. Não esquecer, no entanto, que Hitler não era rei. Mao não era rei. Estaline não era rei. Pinochet não era rei. E o gémeo de Salazar, Ataturk, não era rei. De onde surge então esta ideia que a Democracia e a República são sinónimos?
Por outro lado, a Democracia só pode existir se houver República? Então, a Inglaterra, a Holanda, a Suécia, a Bélgica... são todos ditaduras? Estou sempre a aprender... Ora, se o principal objecto dos desígnios republicanos for bem tratado, ou seja, se o povo for sempre o objecto dos melhores esforços dos políticos, tanto se me dá como se me deu ter em Belém o Cavaco como o Duarte. Mal por mal, venha o diabo e escolha. Aliás, o espanto que o Cavaco revelou pela comodidade das vacas aquando da ordenha é coisa que me põe ainda a pensar se o homem ainda tem a caixa dos pirolitos intacta. Quanto ao outro, decoração já o Palácio tem muita, mais um objecto ou menos um...
É interessante como todos acolhem a República, da esquerda à direita, dos mais revolucionários aos mais reaccionários, dos mais comunas aos mais fascistas. Quando, no entanto, é necessário acolher a Democracia, já muitos destes se encolhem e pensam em Abril como apenas um capítulo mais ou menos ridículo da história contemporânea portuguesa. A explicação é até simples. Enquanto a República serve a todos, pois todos podem sempre esperar, sob o regime republicano, que aconteça uma reviravolta qualquer que nos coloque numa nova ditadura fascista ou comunista, quiçá (embora isso sejam apenas sonhos), já a Democracia exige-se a si mesmo. 
Ora para mim, rematando, venha mais uma dose de democracia, sempre  mais e melhor (e não como nos últimos tempos, em que têm vindo a surgir na mesa doses cada vez mais pequenas). Isso é para mim o importante. Se há rei, se há presidente, isso é para mim secundário. Ou alguém pensa que se, por acaso, a monarquia se visse restaurada em Portugal, teríamos alguma ditadura absolutista? Tenham lá juízo! Velem pela democracia, aspirem sempre a mais. O resto... são pormenores e não o principal.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

REMODELAÇÃO MINISTERIAL

Vídeo Youtube

Ser Ministro da Educação em Portugal, assim como em qualquer país do Mundo, não deve ser fácil. É um sector difícil, sem dúvida. Mas parece-me que o trabalho da Ministra da Educação poderia ser feito com a mesma eficiência por alguém mais insuspeito, como este candidato a Ministro, que consegue na perfeição fazer igual à Ministra aquilo que ela fez de mais relevante neste seu mandato, que foi a abjecta mensagem enviada a todos os alunos e pais do país. Imagino muitos pais a verem aquilo, reunidos à volta do PC, à noite...
Reparem que este aluno apenas imita a Ministra. Ou seja, provavelmente, exprime-se melhor no dia-a-dia... O que nos leva a repensar seriamente as funções de Estado...

domingo, 3 de outubro de 2010

DRA. GOMES E MENINA ANA

Foto Google
Há muitos anos atrás, durante o governo de Guterres, o tempo dos pântanos políticos e dos acidentes de Entre-os-Rios, que tiveram como consequência prática a admissão de Coelho na Mota, conforme sentença lavrada em tribunal, a figura de Ana Gomes granjeou em Portugal enorme simpatia. Se bem me lembro, era uma das caras que tratavam, a nível internacional, do problema de Timor Leste. Domínio, aliás, em que se destacou também Guterres, com uma posição contrária àquilo que tinha cá em Portugal, a de eterno dialogante, na União Europeia, em que foi absolutamente inflexível. Se não sabem da história, eu depois conto.
Ana Gomes parecia ser a mais correcta dos novos políticos portugueses. Até ter surgido o caso Pedroso e Casa Pia, e de todo o país ter visto a reacção acanalhada dela e de outros deputados pela prisão de Pedroso (lembro Manuel Alegre, para quem a prisão de Pedroso era uma espécie de "golpe de Estado contra a Democracia") e a ainda mais aparvalhada recepção de Ana Gomes ao colega Pedroso no dia da sua libertação por motivos "técnicos". Comecei, nessa altura, a ter algumas reservas sobre a senhora.
Mas agora percebi tudo. Ana Gomes tem na sua carteira um frasquinho. Nesse frasco, traz sempre consigo uma poção química. E toma essa poção química quando tem necessidade. Sem poção, a eurodeputada socialista porta-se como a Menina Ana, defensora dos valores da justiça e da igualdade: 
Mas, quando, mediante as dificuldades do dia-a-dia, é absolutamente necessário, toma a poção e torna-se a Dr.ª Gomes, temível animal político da ala neo-liberal e acérrima defensora do mais profundo capitalismo selvagem (mas penas por culpa do mesmo e dos "mercados" e sua pressão sobre Sócrates): 
Atenção, ambas as posições tomadas no dia do anúncio do PM!! Perante este imenso exemplo de coerência política, de defesa dos ideais socialistas, há que rapidamente fazer a questão: De que vive esta gente? Quem lhes paga? Qual, então, a admiração? Nenhuma, realmente... De notar o "estoicamente"! Belíssima palavra! Em Portugal, de repente, surgiram muitos políticos de esquerda com tendência para pedir ao povo português que melhore a sua capacidade de martírio, como o imprestável Almeida Santos, que pensa que "O povo tem de sofrer as crises como o Governo as sofre!".
EU QUERO SOFRER A CRISE COMO O GOVERNO A SOFRE!!!!

sábado, 2 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DIÁRIO DE VIAGEM - DIA 2

Mesquita Hassan II
Rabat, 19 de Setembro de 2010

 O jantar de ontem foi óptimo. Embora não tenha envolvido carneiro, o que me começa a preocupar. A comida era óptima e a companhia excelente. O Carlos e a Brigitte são divertidos e possuem uma cultura acima da média. Tornam-se pessoas interessantes. Notei o seu gosto por jazz, já que apreciaram sobretudo a banda que tocava no restaurante.
A noite foi bem descansada. Quando a manhã chegou, pudemos verificar finalmente a localização do hotel, que não dista muito do porto de Casablanca. O tempo está como estava o tempo em Coimbra quando a deixamos. Talvez mais húmido, o que, dada a proximidade de Casablanca do mar, não espanta. Cada grande cidade marroquina tem uma residência real, um palácio, portanto, apenas utilizado pelo rei e sua família. Tem apenas dois filhos. Quer dar o exemplo de redução da natalidade em Marrocos, que ainda ostenta uma média de quatro filhos por casal. O palácio de Casablanca estava fechado, obviamente. Apenas se podem visitar algumas salas e pátios menores, nas dependências, e a julgar pela aparência destas, não consigo imaginar o interior do palácio propriamente dito.
Casablanca é muito limpa, bem mais limpa que algumas cidades europeias. Mas poder-se-ia comer no chão nas imediações do ex-libris da cidade, a mesquita Hassan II. É de facto um edifício impressionante. Tem um tecto retráctil, que recolhe em apenas três minutos, a mais de sessenta metros de altura. O seu minarete tem dimensões colossais: mais de vinte metros de lado e duzentos de altura. Tanto o interior como o exterior são trabalhados da mesma forma que mesquitas antigas que visitei, com motivos árabes requintados. O tecto, que pudemos admirar, é forrado a madeira de cedro trabalhada em rendilhados até à exaustão. Todas as paredes são forradas a mosaicos com peças que não excedem o par de centímetros. O chão é de mármore rosáceo, na sua maioria coberto por enormes carpetes. Duas enormes estruturas elevadas, como varandas, percorrem ambos os lados da enorme nave, onde cabem 20000 fieis. São as partes destinadas às mulheres, que rezam separadas e longe dos olhares dos homens. Há lugar para 10000 mulheres. Na cave, há as enormes salas de ablução, completamente feitas em mármore branco. Uma sala para cada sexo. As mulheres têm direito a escadas rolantes, discretamente inseridas, até ao seu local de culto. Por baixo da cave, mais salas, com banhos turcos. Um edifício notável, que não sei até que ponto poderá ter sido responsável pela revitalização do Islão tradicional a que se assiste em Casablanca. Vêem-se muitos véus, muitas túnicas e até nikabs. O Islão está claramente ao ataque, e Marrocos parece ser uma vítima fácil, ao contrário de outros países. Um ponto a favor dos marroquinos, até agora: nem um olhar reprovador a calções ou tops, que são aceites naturalmente.
Almoçamos peixe numa das praias de Casablanca, praias onde não se vêem mulheres a apanhar sol. Depois viajámos para Rabat, a 90kms de distância. Ideal para dormir um bom sono na cozinha do autocarro, onde seguimos nós, o Carlos e a Brigitte.Temos seis lugares à nossa disposição e já começam a desenhar-se lutas entre alguns parvos italianos que querem à força toda mudar de lugar com os portugueses que preferem mantê-los até ao fim da viagem.
Rabat, novos palácios reais, mas estes no centro da área onde se encontra todo o Governo e Estados Maiores. Uma área imensa, bem tratada, onde moram inclusivamente grande parte dos altos funcionários do país. A visita ao mausoléu real é interessante pelas ruínas da antiga mesquita e da Torre de Hassan, outrora um minarete que fazia parte de uma geminação tripla, estando os outros dois em Sevilha (La Giralda) e em Marrakech (Koutobia). Ambas as estruturas foram destruídas pelo terramoto de 1755 em Lisboa, que arrasou a mesquita até ao chão e partiu o enorme minarete ao meio. O Mausoléu, na ponta Leste do complexo, é um edifício simples, de dimensões adequadas, de enorme gosto arquitectónico e, acima de tudo, decorativo. O interior não é grande, mas a sua decoração lembra os contos das Mil e Uma Noites.
A Casbah de Rabat é por si só famosa. Encravada entre o mar, a muralha e o rio, a Casbah é um labirinto azul e branco onde se misturam as casas berberes, árabes e judaicas sem grandes distinções. As ruas são estreitas e limpas, e os carros ficam lá fora, até porque não cabem lá dentro. Belos terraços debruçam-se sobre o rio, serve-se chá e doces tradicionais, o café é excelente, embora sem creme, e a bom preço (entre 60 e 100 dihrams, 55 e 90 cêntimos), o que é muito bom, atendendo que a generalidade dos países árabes, apesar de servirem bom café, têm preço proibitivo para o mesmo. Os italianos não gostam do café daqui, tão do agrado dos portugueses. Acham-no demasiado forte.
Antes do jantar, uma caminhada solitária (a quatro) pela cidade, até à avenida Mohammed VI (caminhada de 30 minutos, pois o Golden Tulip Rabat fica perto da Casbah). Confirma-se a ideia que até aqui tinha: Marrocos sofreu uma regressão em direcção ao Islão, nos usos e costumes. Não é incomum ver mulheres destapadas, mas também não é incomum ver nikab, mesmo em mulheres muito jovens. A maioria usa véu normal. Curioso é o facto de muitas túnicas serem de seda e justas ao corpo, o que é óptimo para adivinhar se é tanga ou cuecão... A maioria é tanga... Apesar de grande parte da população não ligar à vestimenta tradicional islâmica, a verdade é que ainda não saímos das capitais (Rabat, política; Casablanca, económica). O meu medo prende-se com o facto de o interior poder ser mais conservador ainda.
Mais um bom hotel, este Golden Tulip Farah Rabat, com boa comida, mas sem carneiro... Surpreendentemente, ainda não vimos muitos franceses, bem como aquela mania nojenta de juntarem no mesmo prato entrada, prato e sobremesa. São dos viajantes mais mal educados com que já topei. Pelos vistos, a porra dos italianos anda lá muito perto. Sempre tive a ideia de os italianos serem festivos, descontraídos, joviais. Afinal são depressivos, nervosos, mal-educados...
Oxalá se mantenha assim a viagem...

Como terá ficado o Glorioso com o Zbording?