quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Contratorpedeiro III


O modo como a sociedade evolui não pode ser totalmente compreendido por um indivíduo, seja por quem for, dado que as suas experiências passadas se tornam a sua maior referência, tornando novas experiências ou simples factos decorrentes da evolução natural da sociedade um alvo de rejeição ou mesmo indignação para o indivíduo visado.

Esta é uma explicação mais ou menos científica para a qual me estou plenamente borrifando. Já sei o que dizem os que são como eu era há alguns anos atrás, os jovens de hoje. Sou um cota que não está interessado em entender os seus problemas, etc, etc. Deixem lá isso. É que há evoluções que são perfeitas aberrações, e não se desculpem com os tempos serem outros.

A forma usada por grande parte dos jovens de hoje para se apresentarem choca-me. Não por puritanismo, mas porque ainda tenho algum bom senso na cabeça. Antigamente, os pais tinham problemas porque as filhas mostravam as pernas na rua usando saia, ou melhor, mini saia. Hoje, ao invés, preocupam-se porque as filhas mostram as pernas na rua usando calças, uma vez que usam a cintura das mesmas pelo mesmo ponto que usavam as bainhas das ditas mini saias antigamente. Escusado será dizer que depois vem a tanguinha para mostrar. Porreiro. Todos os cotas gostam de ver a tanguinha, não há problema. Há também os cromos da bola que usam calças dessas sendo do sexo masculino, ficando presas pela sua anatomia e mostrando um par de boxers imundo.

Depois há os cortes de cabelo. As miúdas continuam a ser algo conservadoras, apesar de já ter visto miúdas com o cabelo azul (não, não era o Vítor Baía). Os rapazes gostam mais do corte à Ronaldo ou à Quaresma. Entram no cabeleireiro e pedem o referido corte. O coiffeur aplica-lhes uma generosa quantidade de anestesia geral, chama o São Bernardo das traseiras e este aplica-lhes três ou quatro valentes lambidelas no couro cabeludo. Quando acordam, estão menos inteligentes, mais pobres e com valentes hipóteses de desenvolverem doenças cutâneas. Puxam o cinto para baixo e aí vão eles para a rave mais próxima.

Rave? O que é isso? Consiste numa sessão de tortura da CIA usada em Guantanamo, em que os jovens em questão são obrigados a ouvir 230 decibéis de barulho insuportável durante três dias seguidos, com a ajuda de uma garrafa de água, que vão brandindo freneticamente, quais baquetes de bateria, e uma dúzia de comprimidos de fazer rir. Também fumam uns cigarrinhos de fazer rir, e, quando acordam, e se acordam, três dias passados, deram três passos atrás na Teoria da Evolução e ficam com a capacidade craniana do Australopitecus Africanus. Estão prontos para ser recrutados pela Al-Qaeda ou pela Moderna, consoante quem chegue primeiro.

Depois há os piercings. O que dizer sobre os piercings? Há os internos, na língua, os externos, espalhados pelo corpo, e os inexplicáveis, nos genitais. Se não fossem de aço inox, os portadores estariam em maus lençóis nos detectores de metais do aeroporto. Uma hora ou duas a tirar metal do corpo poderia ser educacional. Quase sempre são acompanhados de tatuagens, mais ou menos ousadas. É um problema transitório. Acabam por retirar os piercings e fazer reconstituições de pele para remover as tatuagens quando ganham juízo ou andam sete anos sem arranjar emprego decente. As pessoas não podem descriminar pelo aspecto, por isso optam pelo aspecto mais normal, que não é descriminado.

Já sei, estou desactualizado. Eu sei. Eles também. Ou não...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Contratorpedeiro II


Tenho gostos musicais muito especiais. Sou uma pessoa que gosta de ouvir boa música. Eu penso que a música que ouço é boa. Bem, lá por pensar, estão-se todos a borrifar para isso e bem posso ouvir o lixo dos outros. Mas gosto de pensar que gosto de ouvir música de bom gosto. Vão lá chamar a Edite Estrela a ver se a palavra "gosto" não pode ser repetida três vezes na mesma frase!! E sem ser num filme pornográfico traduzido em espanhol - mas aí já é "mi gusta", com o inevitável "cariño" à mistura.

Onde ia? Edite Estrela, filmes pornográficos... Isto está jeitoso, hoje... Música! Pois, gosto de música e da boa. Gosto das grandes bandas de rock dos 70, com PF à cabeça, LZ a seguir e Doors a fechar. Olha se o Jim Morrison pensasse que a banda daria o nome aos irmãos mais conhecidos da cena política portuguesa... A esta altura, estava a ouvir "os Janelas" ou "Os parapeitos"! Por falar em nomes de bandas, alguém me diz o que quer dizer "Prefab Sprout" - Couve Pré-fabricada? Ora aí está um nome que induz a um pensamento de alto valor do ponto de vista de engenharia... Como meter uma couve pré-fabricada a cozer para o Natal?

Adiante. Vem isto a propósito dos meus gostos musicais. Também ouço Clássica, de vez em quando, principalmente Schonberg. Acalma. Gosto dos Xutos e dos Mão Morta e até dos Moonspell. Portugueses que fazem música. Da boa. Para mim, claro. Mas esta coisa da moda é o caraças! Então não é que é moda gostar do Tony? Onde está o Tony? Em que categoria se insere o Tony? - na música romântica, respondem muitos dos seus milhares de fãs. Para mim, está no pimba. E pronto. Está bem, já sei que é redutor e coiso... É pimba. Para mim, claro! Mas há algum mal em ouvir pimba? Não, diria eu, nenhum, desde que não me obriguem a ouvi-lo, tudo bem, deixem-se estar que até o nosso Primeiro agradece. Sim, porque o Tony chegou àquele ponto em que pode funcionar como um Cristiano Ronaldo para o país... Um herói? Não sei, estava a falar de anestesia geral.

Seja como for, o Tony, para mim, é pimba. Mas com o Tony aguento eu bem. E o BPI farta-se de facturar à custa dele. Óptimo, sempre dá para revitalizar um sector moribundo da nossa economia, o... económico! Mas voltando ao assunto, ao Tony, não o ouço nem que a vaca tussa. E já vi coisas piores acontecerem, basta sintonizar a Liga dos Últimos. Portanto, o Tony é bem-vindo quando quiser, mas fica lá fora, por favor.

Só que a moda tem destas coisas. Um dos actores que a actual geração de mulheres (falo de mulheres, não de teens com tranças reggae e garfos pendurados na língua (chamam-lhes piercings, mas eu penso que elas se espetaram a comer e esqueceram-se de ir ao médico) mais admira, tem por nome Pierce Brosnan. Para quem não conhece, é o Bond antes deste Bond. Um homem cheio de classe, devo admiti-lo, e com aquele aspecto de quem não faz mal a uma mosca, por que não gosta de moscas, mas capaz de despir uma mulher com os olhos. Imagine-se o que não fará com o resto do corpo... O bom do Pierce tem um filme novo, com o nome apaneleirado de "Mamma Mia". É apaneleirado só porque tem nome italiano? Sim, bastava isso, mas há mais. A banda sonora do filme é de uma banda sueca de nome ABBA. Quem são os ABBA? As gerações mais velhas lembram-se com certeza.

Ora, os ABBA. Conhecidos pelos seus êxitos tipo "Waterloo" ou "Chiquitita". O primeiro foi uma banho de sangue, na realidade, mas os ABBA, bem à sua maneira, transformaram uma das mais sangrentas batalhas da História Humana num belíssimo passeio num parque de diversões. Já "Chiquitita" é nome de novela mexicana reciclada pela TVI. Se não foi a TVI, foi a SIC e vai dar no mesmo. O que quero eu dizer com tudo isto? Onde estão os ABBA? Em que corrente musical se inserem? - na música alegre de fim-de-semana, dizem os seus milhões de fãs. Como se isso fosse uma corrente musical! No PIMBA, digo eu!!
Podem lá ficar embasbacados e horrorizados por chamar pimbas aos ABBA. A diferença para o Tony é que é pimba sueco. E pior, pimba sueco gay. Não queria dizer isto, não é por despeito aos gays, eu já explico.

No seu auge, os ABBA rodeavam de mistério a sua vida pessoal e ninguém conhecia os consortes das duas meninas e dois mancebos. Veio-se a ver que os consortes eram eles mesmos. Dois casais? Sim, ela com ela e ele com ele. Nada de inaudito nem escandaloso demais. Mas lembram-se das festas dos setenta e oitenta, em que pais de família com cabelo no peito dançavam ao som dos Village People com o seu hit YMCA? Ainda hoje dançam, apesar de saberem ser o maior hino gay do planeta. E tudo bem, não devemos discriminar os gays. Mas daí a cantarmos que queremos que nos... coisem, bem, vai alguma diferença. E adorava quando lhes chamava a atenção para o facto, encolhiam os ombros e referiam que "era festa". Já se lhes dissesse que o vermelho lhes ficava bem, agrediam-me com paus e pedras e fartavam-se gritar aos meus ouvidos que não eram "panascas" e que até tinham filhos. Os ABBA são do mesmo género. Eu, que tanto apreciava as aventuras de Brosnan como Bond, fiquei atónito com a sua participação neste filme. Dizem que é muito bom. Não sei, não vou vê-lo, porque nada deste mundo me obrigará a ouvir pimba. Muito menos sueco. E, já agora, muito menos gay.

PS: Não tenho nada contra a comunidade gay. Só não sou gay. Nem tenho que ser. Não vá alguém ficar ofendido...

Os Sobredesenvolvidos


Não é novidade nenhuma que há uma crise internacional. É verdade que andamos todos a dormir, devem pensar os etíopes, os sudaneses e palestinianos. Crise? Qual crise? Nunca como agora se fala de crise, sem pensarmos naqueles que andam em crise, verdadeira crise, daquelas que matam, há décadas. Não interessa. Do alto dos nossos estômagos dilatados e montes de colesterol, proclamamos uma crise.

Há países que são mais atingidos pela crise que outros. Portugal deve andar pelo meio da tabela dos países mais atingidos. Sem dúvida alguma, os países menos atingidos pela crise são o Haiti, Moçambique, a Etiópia e o Darfur, parte ocidental do Sudão. Aí a crise não chegou. São os grandes vencedores desta crise, pois lá não se nota nada. Continua-se a morrer como dantes, por isso, estão no topo da tabela dos países que menos mudaram durante a grande crise internacional.

Mas há países que sofreram sobremaneira. Estou a pensar na Irlanda e na Islândia. São dois países interessantes, por razões diferentes. Os irlandeses devem ser dos seres mais chauvinistas que existem. Têm o país mais belo, a melhor cerveja, os prados mais verdes, a melhor música, os melhores espectáculos de dança e até o melhor whisky, quando sabemos que esse é o scotch, dali ao lado. Pela minha parte, estão bem longe disso tudo. Não são o país mais belo, bem longe disso, são apenas verdes, mas por razões climáticas. Não têm a melhor música porque... não, pronto! Não têm a melhor cerveja, pois essa deve ser bebida bem fresca e não morna como por lá (só de pensar dá-me vómitos), e quanto aos espectáculos de dança e sapateado, são tão impressionantes como ver um filme antigo de Fred Astaire, com a diferença que esse era só um em palco. Acho aqueles espectáculos deprimentes e chatos como o caraças, é como ouvir uma dezena de martelos pneumáticos com botas de fada...
Já os islandeses têm noção do país que têm: uma espécie de lagartagem, verde e branco, pasto de um lado e gelo do outro. São tristes e melancólicos e fizeram da Bjork uma heroína nacional, à falta de melhor.
Têm uma coisa em comum: estão ambos em crise profunda. Mas têm mais em comum. Ambos foram dados como grandes exemplos de desenvolvimento sustentado, países onde não foi preciso construir estradas ou linhas de comboio para haver desenvolvimento. Espantosos os milagres daqueles países, que nos fizeram durante anos a fio corar de vergonha e inveja.

E depois veio a crise. Afinal, a Irlanda e a Islândia caíram na crise, mais profundamente até que Portugal. Agora, surge a notícia de que podem vir a recorrer ao FMI, bem ao melhor estilo africano. Mas porquê? Que aconteceu?
Aconteceu a coisa mais simples que se possa imaginar: estes países simplesmente produziam uma simples coisa: serviços. Ora, como não são propriamente países turísticos, pois um é chato como uma panqueca e verde e pronto, e o outro é verde e branco mas frio como o caraças e nem hoteis tem, os serviços eram virados para outros sectores. Quais? Ninguém sabe muito bem, só se sabe que nem sequer estavam implantados nos respectivos países.
Ainda por cima, vai-se a ver e os altos níveis de vida destes países eram completamente artificiais, baseados num sistema de crédito que simplesmente faliu, deixando milhões de habitantes sobre endividados e... pobres.
Depois, claro, sem infraestruturas, sem estradas, sem linhas de comboio e até sem aeroportos minimamente decentes, desceram nas listas de países "recuperáveis", pois... não têm ponta por se lhes pegue, ou seja, não há investimento que resista a tantas demoras no escoamento físico de mercadorias, que, afinal e até ao momento, nunca foram produzidas pelos "milagres". Alguém conhece uma marca de telemóveis irlandesa, ou uma marca de roupa islandesa? Parece que não, parece que não existem. Nós não estamos muito melhor, mas temos o Vinho do Porto e a Salsa. Se, por aqui, as coisas estão mal, por lá parece que estão um pouco pior. Não me alegra, são situações que deviam, em todos os casos, ser evitadas. Olhemos a coisa pela positiva: pode ser que os "bifes" se interessem outra vez pela Irlanda e invadam o país para o salvar dos irlandeses. Quanto à Islândia, pode ser que o degelo do pólo Norte seja o suficiente para a apagar gradualmente do mapa e o pessoal se mude para paragens mais férteis, como a Gronelândia ou o Alaska.

Abriram falência. Pode ser que lhes sigamos as passadas, mas ainda cá estamos para lutar um pouco mais, até porque milagres, por cá, só os de Fátima e já ninguém os vê há 90 anos. Nós já estavamos em crise antes disto tudo e nunca pretendemos estar muito bem quando afinal dormíamos na parada e martelavamos números para as grandes revistas financeiras mundiais. Pelo menos uma vez, a mania das pequenezas foi realista...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Paragens III







Santa Sofia, Istambul, Turquia. Um monumento impressionante, onde o respeito islâmico pelo cristianismo está tão bem expresso.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Guantanamo vai mesmo com as... vacas?


Começo a sentir-me cada vez mais revigorado. A cada dia que passa, sinto uma necessidade premente de me levantar bem cedo, para poder ligar a TV e ver as notícias do dia. Levanto-me ansioso, dirijo-me à cozinha e, ainda antes de preparar algo para o pequeno-almoço, já estou a percorrer freneticamente os botões do comando.

É tudo mentira, como já devem calcular. O normal é arrastar-me para fora da cama, já fora de horas, ensonado e tropeçando na gata, que insiste em acompanhar os meus movimentos. Está mais acordada que eu e, provavelmente, mais racional. Mas a parte das notícias é verdadeira. Portanto, nem tudo é mentira. Exagerei.

A notícia do dia. Fresca e intensa. Atingiu-me como um raio. Barack já assinou o decreto para encerrar Guantanamo. Já? no 1ºdia de "office"? Mas o homem está doido ou quê? E não pára por aqui. Congelou os salários dos funcionários de topo da Casa Branca. Como? Congelar salários? Na América? Está mesmo doido. É a minha conclusão óbvia. Não se congelam salários na América. A América é o país dos sonhos, mas os sonhos são caros e é preciso salário ao fim da semana. Em rigor, congelamento não é a palavra certa. Talvez congelamento dos aumentos seja mais correcto. Não deixa de ser grave, pois todo o americano se acha no direito de ganhar milhões após os ganhos indevidos que deram origem à queda histórica do sistema. Pode achar-se, mas não tem esse direito. Esse está reservado a canalizadores mal humorados que não saibam articular frases tão bem como unir tubos debaixo da pia da cozinha, com nomes sonantes e coloridos como "Joe". Tipo Bud ou Big Mac. Nomes americanos que não dêem muito que pensar aos infelizes dos pais ou aos próprios quando vão para as filas do IRS e têm de preencher 37521 impressos, ainda por cima com lápis e em folha tipo Letter com espessura inferior a um micrometro...

Seja como for, a notícia continuava ainda com a ordem expressa do novo presidente americano de se suspenderem e reavaliarem os processos contra todos os presos de Guantanamo, durante quatro meses. Obviamente, se essa reapreciação for feita com isenção, veremos 99,5% dos presos de Guantanamo em casa até ao próximo Natal. Há-de lá ficar talvez o único melro que era mesmo terrorista. Pelo menos espero eu.

Alegrou um pouco o meu dia, admito. Ainda não estou convencido da total boa fé de Obama, mas parece-me que entrou com o pé direito em campo. Só que o jogo ainda mal começou...

Paragens II


O Vale do Baixo Tua - ali bem junto ao Douro, duas paredes verticais que mergulham nas águas azuis e puras do rio. Uma vista impressionante que só se pode apreciar com tempo. Tem de se sair do carro, caso contrário, não se pode ver o rio lá em baixo.

Altamente aconselhável!!

A partir de Murça: virar na saída de Murça do IP4 na direcção de Carrazedo. Mais à frente, virar à esquerda, em direcção a Noura. Nesta localidade, virar à direita para Candedo. Seguir em frente para a Sobreira e virar à direita. Está no vale, junto à estação da Brunheda. No entanto, para ver o vale junto ao Douro, terá de ir ao Pinhal do Norte e seguir em frente para Parambos, depois é só seguir a estrada até à Estação do Tua. É um passeio fantástico, entre algumas das vinhas mais belas que se pode imaginar!

A partir de Alijó: Saída de Alijó da IP4, passar a vila e seguir em direcção a S.Mamede de Ribatua. O vale em todo o seu esplendor!

A partir de Vila Nova de Foz Coa: atravessar o Douro e, alguns kms depois, virar em direcção a Vila Flor. Atravessar a vila e, após os semáforos de velocidade, virar à esquerda em direcção a Carrazeda de Ansiães. Atravessar a vila e seguir a estrada até Parambos. O resto do caminho é conhecido. Juntam-se 3 maravilhas numa só: o Vale do Sabor, a Serra de Bornes (ao longe) e o Vale do Tua.

Bom proveito! O restaurante Cepa Torta é uma excelente opção para almoçar. Fica em Alijó , bem no centro da vila. É só perguntar ou seguir as placas. Bonito, come-se bem e não é muito caro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

IP4 Ventos



Estou quase como os portugueses. Trabalho durante o dia, vou para casa e vejo notícias durante o jantar. Cafézinho, uns cigarritos bem puxados à janela no Verão, no Inverno, meu amigo, só na cozinha e na sala. No quarto não há TV, assim insistiu a Maria e concordei, armado em parvo. Bem, não interessa. O quarto é para dormir. Essencialmente.

Vem tudo isto a propósito de uma notícia que ouvi hoje de manhã. Pois, já sei, tanta conversa com o jantar, e afinal, ouvi a notícia ao pequeno-almoço. Não interessa. Ouvi a notícia, ponto assente e final. A notícia prendia-se com o possível fecho do IP4, devido à neve no Alto de Espinho.

Quem conhece a região Norte, sabe que, em dias mais frios, o Marão congela. A mais espectacular serra portuguesa torna-se um cubo de gelo com alguma frequência, sendo perigoso circular no IP4 para lá da saída para Ansiães. Às vezes, o frio é tanto que neva e então a estrada fecha mesmo. É quando aparece mais gente a querer passar para o Reino Maravilhoso de Torga, ou seja, o outro lado do Marão, Trás-os-Montes. O pessoal quer ver a neve. Claro, acatar as sugestões das autoridades até é escusado, pois o automóvel até é novo e tem muita força, consegue passar bem. Depois não passa. Depois não anda. E finalmente fica-se atolado no meio da neve, com o vale mais profundo e frio do país como cenário. O belo horrível de Bocage. As temperaturas atingem os dez negativos e os putos que nunca tinham visto neve nunca mais a querem ver na vida. Apesar de tudo, é preciso atender a contingências e acudir estas pessoas.

E é aqui que entra a notícia. A dada altura, deu-se ênfase ao dispositivo montado pela Protecção Civil. Várias corporações de bombeiros, GNR, limpa-neves, espalhadores de sal e tudo. Depois, a inevitável entrevista com o comandante dos Bombeiros daquele destacamento, que me pareceu estar de prevenção precisamente no parque do Alto de Espinho. Bombeiros Voluntários do Seixal!!! Bem, pensei eu, não brincaram em serviço! Mandaram vir bombeiros desde a margem sul!!
Depois, uma referência ao descontentamento das autoridades locais. Pronto, pensei eu, lá vem o chorrilho de queixas habitual...
Era o comandante de bombeiros de Murça, a 30 kms do Marão, dizendo que não receberam qualquer solicitação para estarem de prevenção...

Primeiro, fiquei sem palavras. Depois, levantei-me da cadeira e fui trabalhar, pensando cá comigo:

Abençoado país! Faz-me sempre sorrir pela manhã!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Contratorpedeiro 1



Porque a democracia é assim mesmo. O indivíduo que luta contra uma ditadura tem muitas dificuldades, mas já experimentaram lutar contra uma democracia? Tem muito mais graça e mais dificuldades também.

A democracia, ao nível social, permite que todos possamos lançar torpedos uns aos outros sem que alguém controle ou necessariamente tenha algo a ver com isso. Daí o título do post - contratorpedeiro, que é o que por vezes temos de ser se não queremos ser constantemente subjugados pelo "socialmente aceite", "politicamente correcto", "eticamente vantajoso" e outras expressões usadas para as mais variadas situações do dia-a-dia, que não querem dizer mais do que "o Big Brother está-te a ver!".

Pois é. Um dia destes, num Centro Comercial perto de minha casa, aconteceu-me uma gira. Andei por ali a fazer umas compritas lá para casa, e, a páginas tantas, a minha mulher deu-se conta que a hora ia adiantada. Resolvemos jantar num dos botecos do Centro Comercial. Chegada a hora do café, levantamo-nos e resolvemos tomar café sentados na zona para fumadores do Centro Comercial. Actualmente, esta zona é fechada ao exterior, mas na altura era aberta, com aspiração independente.
Nada mais normal, uma vez que eu sou fumador e a minha mulher é fumadora. Não querendo incomodar ninguém, decidi levar os cafés para uma dessas mesas manhosas tipo refeitório da prisa que por ali abundavam. Já sentados, puxamos ambos por um cigarro (um para cada um, bem entendido), acendemos e beberricamos o café.
Ao lado, uma menina de tenra idade, a rondar os seus belos 20 anos, abanava a mão à frente da cara, enquanto mordiscava uma sandocha e me olhava de soslaio com desprezo. Fiquei algo surpreendido. E algo incomodado. Não resistindo mais, a moça interpelou-me:
-Podia ter a amabilidade de apagar o cigarro?
-Não - respondi.
Ficamos num impasse comunicativo. Ela continuava a mordiscar a sandocha, eu a beberricar o café, a minha mulher a olhar de soslaio para mim com cara de divertimento infantil. Desta vez não resisti eu e interpelei-a:
-Desculpe, mas se a incomodamos tanto com o fumo, porque razão veio para aqui comer se tem tantos lugares vagos na secção de não fumadores?
Apontando para a colega que tinha à frente, respondeu-me prontamente:
-Acha que tenho culpa de a minha colega ser fumadora?
Pus-me a cogitar. Grande resposta, sim senhor, por esta não esperavas tu! A minha mulher não me deu tempo para responder. Respondeu ela:
-E acha que somos nós os culpados de a sua colega ser fumadora? Podia pôr-se a andar, que me está a incomodar com os seus gestos ofensivos?

As mulheres têm jeito para os torpedos. E para se esquivarem deles, também.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Prisão Minada


Vem isto a propósito da Faixa de Gazah - sim, com "h" no fim, que é mais fino e inclusivamente mais correcto e sem portuguesismos escusados tipo chauvinismo franciú.

Pois é, a Faixa de Gazah está a ser atacada. Novidade seria o contrário. Numa guerra que se afigura cada vez mais extensa, a roçar a eternidade, já há poucos argumentos que, de parte a parte, possam fazer alguma diferença. Alegam uns que têm vítimas civis, os outros que sim senhor, também nós. Uns dizem que lhes entraram pela porta dentro, os outros que têm herança ancestral com direitos retroactivos ao seu pedaço de deserto. Uns dizem que os outros são terroristas, os outros dizem que são vítimas de terrorismo de Estado. Enfim, no meio disto tudo estará uma verdade que já ninguém se esforça por compreender ou sequer descortinar. Não interessa. Já não interessa, ou talvez nunca tenha interessado. Sejamos realistas: em que são diferentes os palestinianos dos etíopes ou sudaneses?

Apeteceu-me escrever isto porque o presidente eleito dos EUA, a nação mais poderosa do planeta, que, por arrasto, tem os maiores pés de barro do mesmo (a Rússia acaba de o demonstrar, sem recurso à força), veio anunciar a constituição de uma equipa para analisar o problema. Uma equipa para analisar! Notável! Estamos então perante um episódio do Dr.House. Os especialistas sentam-se a uma mesa e analisam o problema. Barack Obama começa por negar, como fizeram todos os presidentes antes dele, a responsabilidade americana neste confronto. A Oeste, nada de novo. Esta atitude, mais do que os túneis que ligam Rafah ao Sinai, mina por completo toda e qualquer negociação ou tomada de posição.

Lembro-me, aqui há uns anos, que a Rússia invadiu a Tchechénia, uma região com sentimentos separatistas, cujos seguidores usavam do terrorismo para passar a sua mensagem. Na altura, caiu o Carmo e a Trindade, a Rússia foi vista como um inimigo da paz. Ali ao lado, na Turquia, o exército turco combate os separatistas curdos, rotulados pela ONU como organização terrorista, sob a designação de PKK. O mesmo PKK que ajudou os americanos a derrubar Saddam Hussein. Moral da estória?

Qual moral??

Agora, é o Hamas o problema. O ano passado foi o Hezbollah. Para o ano, pode ser o Egipto ou o Irão ou a Síria. Israel tem armas nucleares, embora não seja signatário do Tratado de Não-Proliferação das mesmas. Não é sancionado nem pressionado. Será que o facto de essas armas serem de fabrico americano tem algo a ver com o assunto? Poucas têm sido as vezes que ouço alguém dizer a verdade: Israel é um estado dos EUA. Ninguém diz. Mas sabemos que é verdade. Só ao cobro do Tio Sam este minúsculo estado tem vindo a alargar as suas fronteiras e aprisionado o povo que antes povoava as suas terras em dois campos de concentração, onde, assim, mantém um aparentemente inesgotável stock de mão de obra escrava que trabalha em troco de comida e, às vezes, um camião de medicamentos enviados pela ONU e que não é confiscado. Aparentemente inesgotável, pois a aviar-lhes desta forma, ele esgota mesmo. Triste sina. Ver as nossas terras confiscadas e morrer de fome. É o mesmo que nos entrarem pelo quintal dentro, expulsarem-nos da cama e meterem-nos no galinheiro. Depois, se amanharmos bem a terra, oferecem-nos os restos da refeição de ontem numa tigela de reles plástico, enquanto dormem pacificamente na nossa cama. Se pudéssemos, provavelmente, serraríamos os pés à maldita cama. Seríamos terroristas. Amanhã o nosso filho mais velho seria executado à nossa frente. No dia seguinte, atiraria pedras aos filhos dos usurpadores, até lhes acertar em cheio na cabeça. E assim por diante...

A prisão está cada vez mais minada, não só por túneis que vão do Egipto para Gazah, por onde, alegadamente, passam muitas armas, sem nunca se mencionar 90% da comida existente em Gazah, mas também e já pelo primeiro presidente negro da América.

Começa mal.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

PORTUGAL - Definição e Contexto


Pois, Portugal. É um país europeu. Sim? Não?

Depende. Para algumas coisas é europeu, para outras é uma porta de entrada para o Atlântico, para outras ainda é uma ponte para a América do Sul. Bem, bastas vezes pensamos que vivemos debaixo da ponte para a América do Sul. Faz sentido. De qualquer das formas, uns pensam que somos uma província espanhola, outros podem pensar que fazemos parte do Magreb, ou, ultimamente, que somos o Algarve. Ou Allgarve. Também há aqueles que pensam que somos uma dependência da Madeira, por causa do CR7. Acho graça chamar a alguém CR7. Palavra. Tem ares de linha de montagem - Controlo Remoto 7, ou de modelo da Toyota, um pouco à RAV4.

A realidade portuguesa é demasiado vasta para a abarcarmos na totalidade. Não estou a ser irónico. Temos um povo afável, com a mania que é bem educado (toda a gente dá boa educação aos filhos, embora depois as coisas não corram assim tão bem), temos comida fabulosa (e não somos só nós a achar), paisagens lindíssimas (só quem não conhece Trás-os-Montes é que não sabe) e monumentos milenares de valor inestimável. Mas a comida é essencial. Da última vez que fui a França, recusei-me ficar mais que 3 dias, pois é o máximo de dias consecutivos que aguento a comer apenas queijo (sem bolor, já agora - bolor é sinal que algo vai mal, seus franciús parvos!!). Em Itália, vomito esparguete e tomate pelos olhos. Em Espanha, só como paella, por ter algumas parecenças com o nosso arroz de marisco. Nunca há bacalhau no estrangeiro, por mais que procure. Mas a posta tira-me do sério. Quase ainda viva e a mugir, com sangue e batatas a murro. Onde isto foi parar!! Ao colesterol!

Pois, o colesterol também é português. É uma arte inventada em Portugal e aperfeiçoada pelos americanos. A diferença é que nós obtemos colesterol com prazer, com postas à mirandesa, costeletas maronesas, bifes do Barroso, bacalhau à Braga, arroz de marisco e caldeirada de peixe. Eles têm colesterol do MacDonalds. Muita diferença. Eu tenho colesterol. Nada demais, fui apanhado numa curva a 400 e agora já melhorei e estou com 340. Dizem-me que posso ter um enfarte, se continuar a fumar. Eu penso que posso ter um enfarte se acabar com as minhas incursões gastronómicas para lá do Marão. Por desgosto, por falta de prazer. E depois da posta de meio quilo e café, um cigarrinho. Isto também é português. Beber 2 centilitros de uma coisa escura e quente e fumar uma cigarrada de seguida. Dantes era durante, agora temos de sair, pois os defensores dos touros de Barrancos lá conseguiram pôr-nos a fumar à chuva. Ainda bem que não chove muito. Isto tudo é Portugal.

Depois temos o Portugal dos intelectuais e políticos. Qual a relação? O intelectuais desenvolvem ideias para melhorar o Mundo, os políticos adaptam-nas para melhorar o mundo deles. Tudo bem, o povo português afirma logo que isto está para os espertos e arrumam-se os esqueletos no armário. Temos um armário jeitoso, grande e arejado, com esqueletos de diversas categorias. Neste aspecto, começamos cedo, com o esqueleto de D. Sebastião, que, para provar aos primos que não era florzinha, atirou-se aos mouros e nunca mais foi visto. Florzinha não sei, mas como estrume acabou com certeza. Depois tivemos muitos mais esqueletos, e durante meio século fomos governados por um ditador que também não tinha grande apetência para mulheres, mas que queria mudar a capital do país para o meio do deserto em Angola. Diz-se que caiu de uma cadeira e foi desta para melhor a pensar que mandava. Eu não acredito nesta história. Penso que ele morreu de excesso de colesterol. Algum enfarte. Não deixou filhos nem aquela pena que se possa imaginar. Actualmente, já não metemos esqueletos no armário. Eles não deixam, insistem em não morrer e ser líderes dos maiores partidos da Oposição. Ou Presidentes da República. Outros vão para presidentes de grandes construtoras ou concessionárias de pontes. E outros sempre foram presidentes do mesmo clube de futebol.

Tudo isto é Portugal, graças a Deus. Ou mais ou menos. Também temos a Santa Católica Apostólica Igreja Romana. Já tentei enviar alguns representantes para casa, para Roma, mas eles insistem que em Roma vomitam esparguete e tomates pelos olhos. Não os censuro. Aqui está-se bem melhor. Ser padre deve ser giro. Engole-se uma K7 em pequeno, desfia-se a mesma durante uma hora, comem-se tostas sem sal e bebe-se vinho do Porto. E depois, temos muitos Amaros, que vão desfrutando da companhia da filha da senhoria. Ou do filho. Tanto faz. Agora menos, pois tiveram a infeliz ideia de os mudar para as casas paroquiais. Durante o dia. À noite, mudam-se para as casas pinocais ou panascais. Mas isto são os especiais. Os padres normais, em Portugal, são respeitadores e não vão em sarilhos. Perguntam antes se elas ou eles estão preparados para receber o corpo de Cristo.

Tudo isto é Portugal. Ah! Rectângulo do caraças, como eu gosto de cá morar!!!