domingo, 16 de setembro de 2012

A ARTE DO INSULTO

Ilustração MJoel S.

Escrevo em Espanha, minutos depois da Espanha ter ganho a Portugal mais uma vez no jogo da moquinha. Pode dizer-se, por isso, que não estou nem nos melhores dias nem nos melhores locais para escrever. Mas até apetece e pronto. E se me perguntam o que faço eu em Espanha, respondo que nada têm a ver com isso. Mas estou de férias. E estou em Espanha porque decidi poupar e não ficar em Portugal.
O dia de ontem foi dia de manifestações um pouco por todo o lado, até em Nisa, onde almocei e tive pelo menos o lampejo de me juntar ao espírito da coisa. Sim, se estivesse em casa, com certeza estaria nos Aliados. Sim, decerto me manifestaria em protesto contra este governo. Por certo me juntaria aos milhares (um milhão?) de pessoas que juntaram a sua voz aos que andam a protestar há anos a fio. E que bastas vezes são acusados de pessimistas, bota-abaixo e coisas ainda menos simpáticas, como perigosos esquerdistas ou talibãs. Mas, mesmo assim, iria.
Já não escrevo daquilo que escrevi sobre o “engenheiro” e seus anos de algo que pode considerar-se, muito vagamente, como governo. Recuo apenas um ano e meio, e ao que escrevia e protestava contra uma certa ala de um certo partido que ameaçava tornar-se governo deste país. Tentei alertar, tentei sensibilizar, tentei desmistificar. Tentei lutar. Obviamente, como eu, muitos, de entre todos muito poucos. 85% dos votantes portugueses e mais 45% de abstencionistas decidiram dar a sua confiança a um governo externo.
Internamente, uma maioria absoluta dos votantes e 45% de abstencionistas deram a vitória à JSD. Foi a maior derrota política da minha vida, e não concorri sequer a nada. E já tinha tido várias, como a eleição do rei do cavaquistão para presidente e antes para primeiro ministro. Ou a eleição do “engenheiro”, ou a eleição de Bush. Mas esta doeu particularmente. E doeu essencialmente porque sabia o que aí vinha, e até o disse e o discuti, aqui na net, na minha vida pessoal e na minha vida profissional, o que me custou alguns dissabores. Nunca desisti, nunca me calei.
Hoje, finalmente, vi uma pequena parte do meu povo aperceber-se do que eu tinha antevisto há ano e meio. Dez por cento da população do meu país abriu os olhos. Mas é, por enquanto, apenas um décimo. Precisam-se de mais manifestantes, de mais pessoas nas ruas, precisa-se de um povo.
No entanto, tenho um sabor amargo na boca. Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os discursos de reprovação deste governo, mas agora até por pessoas que o apoiaram incondicionalmente – há ano e meio. Pessoas como Marcelo, Ferreira Leite, Mira Amaral e outros tantos... sinto asco. Sinto nojo.
Mas o que mais me impressiona são os anónimos, a multiplicação de textos por essa net fora, nos últimos dias. Pessoas que admitem até terem apoiado a JSD nas eleições, e que agora estão desiludidas. Pessoas que não apoiaram mas que agora decidiram protestar. Há textos a mandar o governo ir-se foder agora!
Agora??? Onde andavam há três anos e meio, quando o “engenheiro” ganhou as eleições? Onde andavam há ano e meio, quando esta cambada que não é melhor ganhou as eleições? Porquê agora? E, infelizmente, é fácil responder. Porque agora, foram mordidos no traseiro pelo tubarão. Porque agora lhes tiraram dinheiro do bolso. Porque agora é que se aperceberam que estes jotinhas queriam ser liberais, mas não podem, porque são obrigados a subir impostos, mas os imitam, quando destroem todos os direitos sociais de cada indivíduo. Agora???
Agora??? Onde andavam quando os pensionistas, incluindo aqueles como a minha mãe, que ganham 200 euros, ficaram sem aumento e sem subsídio de férias e de Natal? Onde andavam quando tiraram os subsídios de Natal e de férias aos funcionários públicos, a maior parte sem aumentos desde há cinco ou seis anos e com carreiras congeladas? Onde andavam quando Paulo Macedo destruiu o Serviço Nacional de Saúde? Ah, provavelmente não o usam... Onde andavam quando Crato decidiu destruir a escola pública? Também não utilizam... Mandam – agora – foder o governo? Pois eles já os estão a foder há muito tempo. Não sentiram? Foi preciso uma taxa subir 60% para o sentir? Uma taxa, que, finalmente vão experimentar pagar? Agora? Agora que temos este país destruído? Agora?
Precisamos de todos, precisamos de gente nas ruas, precisamos de pressão, precisamos, se calhar, de revolução. Precisamos até de vocês. Mas também vos digo, só não vos mando foder porque fodidos já vocês estão. Só que agora, estão acordados. Bem vindos ao mundo real, ao país das fodas!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O 11 DE SETEMBRO

Foto Google, 11 de Setembro de 1973, Santiago do Chile
Dia 11 de Setembro foi o dia do atentado, um atentado que vitimou cinquenta mil pessoas, pelo menos, pois desconhecem-se os números reais de vítimas entre "desaparecidos", mortos no próprio dia, torturados até à morte ou simplesmente fuzilados nas ruas de Santiago.
Passou-se em 1973, no Chile. Tudo porque Salvador Allende ganhou as eleições.

Este é o atentado de quem ninguém se lembra quando se fala do 11 de Setembro. Não há memoriais, nem cerimónias. Não há memória, a não ser a dos que perderam os seus entes queridos neste dia e nos que se seguiram.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

BASTA DE POLÍTICA!


Ilustração Marco Joel Santos
Estou farto de falar de política. Não me apetece escrever sobre política. Até porque já estou mais calmo, já comi umas papas de sarrabulho na feira Medieval e já tive o nosso momento “Beirão na varanda”. Por isso, hoje queria mesmo escrever sobre algo que não fosse a política. Até porque o que aconteceu este fim-de-semana é demasiado grave para ser demonstrado ou comentado por palavras sem incluir impropérios vários que aqui me escuso a reproduzir, não por pudor, mas antes porque o novo acordo pornográfico não aceita os termos e depois lá tenho eu de andar de pincel na mão a corrigir no ecrã. Já fui loiro, agora a minha irmã diz que tenho cabelo verde, coisa que não percebo porque não levo os macacos à cabeça.
Seja como for, e não falando de política em si mesma, mas antes em políticos eles mesmos, é agora moda nas redes sociais e mesmo na rede da companha de Paramos, valorosa demonstração da arte xávega, e conjuntamente com o cartaz “Vai estudar Relvas” (vinha nas pinças de um caranguejo), exigir que os membros do governo e deputados venham a ganhar menos.
Eu não concordo. E não concordo porque não é assim que se tratam as pessoas. E se mesmo a tourada se quer proibida porque não queremos ver animais a sofrer, penso que poderíamos alargar isso aos políticos, embora não sejam gente nem animal. Falando dos membros do governo e partidos que os suportam, o reino deles é claramente o Protozoário. Portanto, não são animais nem gente. São uns coisos assim para o unicelular, que é forma fácil de dizer que não têm cérebro. E comprova-se pela insistência em medidas que TODOS sabemos que só nos podem levar a níveis de pobreza idênticos aos dos tempos do deficiente de Santa Comba. São um vírus.
Ora, se eu quero que essa gente vá para a real p*ta que os pariu, porque haveria de diminuir-se-lhes o ordenado? Um picador de gelo aqui, uma pá acolá, uma corda ali, talvez até uma G-3 de vez em quando, de preferência no Campo Pequeno (só pelo simbolismo, claro, e pela analogia com as touradas) e poupa-se uma pipa de massa.
Agora falando mais a sério, gostaria me dirigir especificamente aos protozoários que votaram nesta canalha:
Vão todos apanhar no **, de preferência depois de cortado o pessegueiro que lá há-de nascer e a dar laranjas, SEUS DEFICIENTES DE MERDA! Emigrem e deixem cá melancias! O interior delas sempre é mais inteligente que o vosso vácuo cerebral!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

ACERCA DA PRESENÇA DE DEUS E DAS LEGIÕES DE ANJOS



Ilustração Marco Joel Santos

No ano lectivo que se inicia, vou transitar para o terceiro ano da licenciatura. Já que o major se foi, venha o minor, e escolhi, obviamente, Cultura e Religião. A História não é muito mais que estas duas coisas combinadas. Pode haver quem estranhe a minha escolha. Ao fim e ao cabo, quem tem as convicções políticas que eu tenho habitualmente não se interessa por religião. Mas a verdade é que as religiões me fascinam, sempre me fascinaram. Não pela sua prática, mas pelos seus fundamentos, e pela forma como moldaram civilizações.
As pessoas têm a necessidade de ter algo supremo. E nada é mais supremo que Deus ou os deuses. É algo que dá sentido à vida de muitas pessoas. Não lhes chamo fracos de espírito. São apenas pessoas. Como eu. Não é a presença de Deus que eu procuro na minha vida, é antes perceber onde ele cabe na vida dos outros. Na vida da nossa espécie, na nossa civilização. E já agora, tentar perceber a sua origem, se é que a tem.
Contudo, percebo e não afasto as pessoas que procuram ter a seu lado aquilo a que chamam Deus. Nesse particular, a Igreja Católica é a mais versátil das Igrejas, e o cristianismo católico, o mais versátil dos credos. Ao invés de disponibilizar Deus às pessoas, ou até o seu humanizado filho Cristo, para as acompanhar em permanência, o credo católico, ainda que não totalmente explicado pelos escritos, liturgia ou rituais, apossou-se da presença destas figuras divinas, em exclusivo, para o interior dos seus templos. Mas para que as pessoas não estivessem totalmente desprotegidas cá fora, deu-lhes uma coisa extraordinária.
Noutros tempos, essa protecção divina seria associada ao culto dos antepassados. Ora, sendo o culto dos antepassados uma prática que a Igreja Católica e o cristianismo não valorizam (apesar do dia de finados, dia 2 de Novembro), a Igreja Católica dá aos seus crentes um anjo pessoal. Não vás com Deus, porque Ele contigo não vai, mas leva aqui o anjinho da guarda que é de boa vontade. Não admira, pois, pela força da Fé e da vontade humana em acreditar em Deus e na sua omnipresença, que é apenas em parte negada pela existência destes Anjos da Guarda, que as pessoas mais devotas sintam a seu lado a presença de um ser que por elas vela.
Isto poderia, obviamente, levar-nos à questão central da Omnipresença de Deus. Se Deus é omnipresente, porque seriam necessários Anjos da Guarda individuais para cada crente? Mas isto é uma discussão estéril, pois são os tais mistérios de Deus. Provavelmente será um aproveitamento da Lei do Estímulo 2012 para o emprego ou coisa parecida, a um nível, digamos, celestial.
Mas existem mesmo Anjos da Guarda? Muitos crentes afirmam que sim, que sentem uma presença constante a seu lado. Eu digo que é o Ministério das Finanças…


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

EXAME


Ilustração de Marco Joel Santos

E lá vinham os três pelo corredor fora. Não que a deslocação fosse longa, porque as cadeiras de primeira classe são logo à frente do avião. Certificaram-se que nada ficava por ali que deles fosse. À porta do avião as hospedeiras esforçavam-se por ser simpáticas. Não disfarçaram, estavam de mau humor e assim ficariam por mais uns dias. O choque de chegar a Lisboa, ainda que o interior da manga ainda não deixasse sentir o cheiro, era intenso. Estavam realmente mal-humorados.
Do lado de fora do aeroporto eram esperados por dois Mercedes E250. Carros mixurucas que os portugueses insistiam em enviar em busca de tão eminentes representantes do poderio financeiro mundial. Olharam com desprezo os taxistas que recolhiam mais uma remessa de turistas brasileiros zombeteiros. Dividiram-se pelas viaturas.
Pelo trânsito da cidade, não entendiam como Portugal se havia metido debaixo das suas patas. A cidade está até bem tratada e limpa, o trânsito flui com uma rapidez impressionante. Os batedores da PSP abriam caminho para os dois veículos. Aí vêm os homens da Troika, os homens que vêm fazer o exame!
Primeira reunião de professores, e os três acordam nas perguntas a incluir no exame. Como estão as receitas? Como estão as despesas? Qual o valor da recessão? Vamos finalmente conhecer o Cristiano Ronaldo? Por unanimidade, acordaram que o exame seria de 12 horas com 800 perguntas de desenvolvimento. Algo os incomodava, algo os importunava. Ainda não sabiam quem iria responder, quem seria a vítima que se iria sentar diante de cada um deles, durante quatro penosas horas, pois iriam fazer turnos.
Os portugueses estavam loucos! Pediram que fosse Passos Coelho a responder ao exame. Receberam como resposta deste: “Caros mestres, recentemente passei férias no Allgarve onde a exposição solar excessiva me deixou com a pele sensível até hoje. Receio não poder escrever durante tantas horas. Delego, pois, a presença no exame ao Ministro das Finanças”. O problema é que receberam outra resposta, por parte do Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que rezava da seguinte forma: “Caros mestres… Eu… até ia… mas como podem… constatar… temo que… 12 horas não sejam… digamos… suficientes… para a minha escrita… profícua mas… algo… ponderada. Sugiro, pois, o… Ministro da Economia, o Álvaro…”
Estavam estupefactos. Os ministros portugueses estavam a empurrar o exame duns para os outros. O Álvaro também respondeu: “Caros mestres, se fosse para explicar como fazer um franchisado de pastéis de nata na Namíbia, ainda poderia ser de uso. A verdade, porém, é que seria melhor que fosse o Ministro da Economia a responder ao vosso exame.” E ainda tinham mais a resposta deste segundo ministro da Economia, coisa que não entendiam, como um país que pretendiam liquidar precisava de dois ministros para uma coisa que nem sequer existe! António Borges lá respondia, numa resposta bem manuscrita: “Caros mestres, de bom grado iria fazer o exame em nome do governo, mas tive de me ausentar em trabalho, para umas reuniões na sede do meu empregador, a Jerónimo Martins. Indico, pois, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, para o exame. Saudações de Amesterdão!”
Ora o Paulo Portas! Mas então não é que entrou uma menina muito aperaltada na sala de reuniões, com um papel na mão? Estava-se mesmo a ver! A resposta e escusa do Paulo Portas. Leram interessadamente o documento, guardaram-no religiosamente dentro de uma pasta preta, levantaram-se e saíram da sala. Entraram a grande velocidade nos automóveis e rumaram ao aeroporto, de onde partiram para as suas origens.
O que estava escrito no papel? “O ministro indicado por mim, Paulo Portas, para fazer o exame, é o Miguel Relvas! Vão mas é para o real car****, seus caras de cu, que ele já pediu equivalência ao Reitor! Passamos. Com 11!”

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

COMEÇAR DO ZERO


Ilustração Marco Joel Santos

E não parecendo, cá me aparecem coisas que ainda me surpreendem. Convenhamos que em Portugal não é fácil haver coisas que me surpreendam. Mas, por obra e graça não sei bem de quem, de vez em quando ainda me surpreendo. Podia estar a falar da vitória do Rio Ave em Alvalade, mas isso não é lá muito surpreendente.
Jorge Moreira da Silva. Quem é o Jorge Moreira da Silva? Pois pouca gente sabe ou, pelo menos, gente que interesse. Mas aparentemente o rapaz é o 1º vice-presidente do PSD, um dos partidos que suporta o governo. Na Universidade de verão do PSD, uma espécie de feira em que são comprados pela JSD jovens adolescentes vendidos pelos pais, o nosso Jorge teve direito a discurso. Sim, porque isto de ser o 1º vice-presidente do PSD tem destas coisas. Não é só acordar e constatar que o primeiro ministro é um Passos que nos passou à frente porque colou mais cartazes.
Ora o homem discursou e entre as balelas destinadas a terminar a formatação das floppy disks dos jovens presentes, doutrinados na crença dos Santos Mercados, desconhecendo que quando entrarem na Universidade a sério serão bombardeados com toda a liturgia mercantil, Jorge Moreira da Silva considerou que o governo está a fazer um bom trabalho.
Faço aqui um parêntesis. Eu também penso que o governo está a fazer um bom trabalho. Isto é como no futebol, os defesas e médios defensivos têm a vida um pouco mais facilitada que os avançados. Porquê? Simples, os avançados têm de acertar no interior da baliza, os defesas podem acertar em qualquer lado, desde que não na baliza. O mesmo será dizer que é mais fácil destruir que construir. É por esta razão que penso que este governo está a fazer um bom trabalho. Está apostado em destruir. Destruir o Sistema Nacional de Saúde, a Educação, o próprio povo. Nesse aspecto, o governo está a cumprir.
O Jorge disse que o governo está a cumprir no controlo das despesa, na manutenção das exportações e em várias outras coisas. A única coisa em que o governo não está a atingir os resultados esperados pro ele próprio e pela troika que nos governa é a receita. Dinheirinho dos contribuintes. Não está a entrar nos cofres do estado ao ritmo desejado. Mas, atenção! Diz o Jorge que essa é única coisa que não depende do Governo!! Logo assim, o governo não tem culpa.
Vamos lá analisar. As despesas do estado diminuíram 16% com o pessoal. atendendo que a remuneração roubada aos funcionários públicos representam 15 desses 16%, temos de convir que as despesas diminuíram. Pelo menos 1% realmente. Mas tudo bem, 1% de redução na despesa. E mais despesas desceram. Como agora cada turma tem 500 alunos, são precisas menos salas, menos professores e menos escolas. E como o Sistema Nacional de Saúde deixou de existir, também é algum que se poupa.
As exportações portuguesas têm três pilares essenciais: a Autoeuropa, o turismo e a gasolina. Sim, são as nossas três maiores exportações. Sabido é que a Autoeuropa está a vender carros para a China e a coisa parece que vai bem. O turismo tem sinais contraditórios: mais turistas, mas menos bebedeiras. A gasolina é exportada para os EUA. Ou seja, é comprada enquanto as refinarias americanas não produzirem o suficiente para alimentar os monstruosos SUVs das donas de casa desesperadas. As receitas da Autoeuropa vão para a Alemanha, as do turismo vão para todo o lado e as da gasolina vão para o petróleo. Atrevo-me a dizer que, dados os desincentivos à produção da parte do governo, é um factor completamente fora do seu controlo. Não a receita.
A receita... TODA a gente sabia que isto ia acontecer. A economia está a recuar aos 4% anuais. Como é possível gerar mais impostos? Quando ainda por cima quem os paga é a classe que trabalha por conta de outrem ou que detém pequenos negócios, classe essa que está 23% desempregada? Claro que há gente surpreendida. João Duque é uma delas, Medina Carreira e Mário Crespo é a mesma pessoa surpreendida (tenho uma secreta esperança que os três sejam a mesma pessoa sob diversos disfarces). Ora, o que diz esta gente ao facto das receitas estarem um desastre nacional, apenas comparável à morte de D.Sebastião no meio do nevoeiro magrebino? Muito simples, é o único factor fora do controlo do governo. Sim, até porque o IVA subiu por vontade própria, aparentemente. Aliás, alguém já se lembrou de elaborar um conjunto de leis que limite este movimento próprio do IVA. A mesma coisa para o IRS e para o Paulo Portas. Bichos carpinteiros...
Só mais um aparte: qual o mecanismo essencial de controlo do défice? Ora, o défice é medido em função do PIB. Ou seja, há três factores que influem no défice: a receita, a despesa e o PIB. Normalmente, se a receita sobe e a despesa e o PIB se mantêm, o défice desce. Se a receita desce e a despesa e o PIB se mantêm, o défice aumenta. E a nossa situação? Bem, a despesa está a diminuir, e quiçá mais que a receita. Logo, o défice baixa... mas acontece que isso não acontece. O que acontece é que o PIB está a encolher 4%! Ou seja, a base de cálculo é 4% mais pequena! Nunca ninguém tinha pensado nisto? O governo vai tentar diminuir o défice até ao ponto em que nem interessem as oscilações de receita – a base é tão pequena que um donativo de cinco euros ao estado é suficiente para descer o défice três décimas de ponto! Brilhante, não é? O governo está a fazer um bom trabalho – lá está, destruir é mais fácil que construir...