quarta-feira, 3 de março de 2010

SERÁ QUE RESULTA?

Quando chegamos à idade adulta, perdemos demasiado. Perdemos a acutilância, a espontaneidade e a sinceridade. Perdemos aquilo que mais nos caracterizava na infância: a honestidade e a enorme capacidade de improviso. Tornámo-nos máquinas calculistas, sempre a medir os riscos desta ou daquela acção. Quando éramos crianças, as coisas pareciam-nos mais simples e bem mais reais. Como adultos, vivemos num mundo artificial, no qual a aparência é mais importante que propriamente aquilo que pensamos ou somos na realidade. Na verdade, perdemos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de viver a vida em nosso proveito, para passarmos a viver em função dos outros, sejam-nos ou não queridos.

Por esse motivo, a sinceridade de uma criança serve para demonstrar como perdemos o nosso rumo ao longo da vida. Passamos a viver cheios de medo. Medo dos outros, medo das instituições, medo do estado, medo da natureza, medo da religião. Medo de tudo, porque temos a sensação de que tudo nos pode desabar na cabeça, que o mundo está de olhos postos em nós, quando na realidade, e como dizia John Cleese, “I don’t give a flying fart about you. Don’t even know you”.

O medo da política é bem real. Todos dizemos mal dos políticos, mas sabemos bem que qualquer acção menos própria contra um deles poderá ser o fim dos nossos problemas e o início do fim da nossa vida. Esta menina de nove anos pensa de forma diferente, pois é criança. Não mede as consequências das suas acções porque pensa que não tem de prestar contas a ninguém, apenas o seu bem estar conta, não trabalha na gigantesca colmeia do mundo actual, que fez de nós abelhas operárias, perdendo a individualidade em prol de um colectivo que insiste em sobrepor-se, em espezinhar sentimentos e pensamentos, em desprezar os que efectivamente tomam os seus destinos nas suas próprias mãos. Evidentemente, não estou com isto a afirmar que deveríamos viver nos nossos mundos de criança, mais ou menos autistas, alheios ao mundo. Mas afirmo de viva voz que o mundo poderia infantilizar-se um pouco, e só haveria vantagens nisso.

Hoje, tudo é muito sério. Hoje, ninguém pode brincar com nada. Hoje, não podemos abrir o bico sob pena de sermos imediatamente postos de lado e silenciados, acusados de verborreia e de insulto grátis. Assim, seguimos o nosso caminho caladinhos e amordaçados, porque todos os outros são pessoas de bem e temos de os respeitar. Ainda que pensemos o contrário, não podemos dizê-lo alto, porque então seremos esmagados pelos outros insectos operários que defendem a sua rainha gorda poedeira de milhares de ovos. As crianças são diferentes. As crianças dizem a verdade, mesmo mentindo. O mundo visto pelos olhos de uma criança é muito mais próximo da realidade que aquele que vemos.

Só trocaria uma coisa ao desejo desta criança. Não pediria a demolição de um edifício físico, mas sim da demolição do edifício social abjecto em que sobrevivemos. À falta de melhor, e tendo de ser um edifício físico, então que fosse a Assembleia da República, nos mesmos moldes em que a menina faz o pedido. Arranjar os nomes não deve ser difícil…




video
Recebida por E-mail, LP

10 comentários:

  1. =D =D =D =D
    fantástico!!!!!!! as crianças são o futuro do mundo, não perdessem elas, como nós, aquilo que as faz ser especiais, ao crescer...

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  2. Estiveste muito bem nesta. O Video esta expectacular e o teu texto muito bem conseguido.

    Esta garota merecia um oscar :-)

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  3. Há coisas que ainda mantenho da infância - a impertinência é a mais evidente - mas infelizmente cada vez mais só a aplico com determinadas pessoas (que me são mais próximas).
    E sim, claro, tens certa razão, não é motivo para andarmos todos ao sabor da infância mas o medo conquista-nos a cada dia, cada vez mais. Tristemente.

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  4. Anne, evidentemente tens razão. Tenho pena delas, sabes...

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  5. Francisco, boa noite!!

    Obrigado, mas de facto o vídeo é que é brilhante.

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  6. Noya, é de facto aí que sinto que perdemos a nossa infantilidade: no medo. Agora temos de ter medo de tudo. Somos educados assim, quem sabe.

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  7. 100% de acordo contigo e com a menina.
    Que se derrube, mas com "eles" lá dentro.

    Um abração

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  8. Eu não gosto muito de crianças, pelo menos, a partir dos cinco minutos de estar com elas, e, afinal, elas vêm para nos substituir, mas há que convir que sabem uma coisa ou duas sobre originalidade e sinceridade, como se lê no texto e vê no vídeo, que é brilhante.

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  9. Johnny, bem vindo!

    Bem, as crianças são, por vezes... Mas não interessa.
    Mas que normalmente dizem o que pensam, não há grande dúvida...

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