segunda-feira, 25 de junho de 2012

MUDAM-SE OS TEMPOS... MUDAM-SE AS VONTADES


O jornal Público noticia que os jovens médicos estão preocupados com o futuro e começam a equacionar emigrar.
Sou do tempo em que a reverência para com o Sr. Dr. era quase caricatural. Ia-se ao Sr. Dr. e não ao médico. Ia-se e entrava-se com uma postura humilde à espera de trazer uma prescrição para curar uma maleita que não nos era explicada dada a ignorância óbvia que o Sr. Dr. entendia termos. Ou então, a explicação era dada em termos tão técnicos que vínhamos para casa ainda mais convencidos que aquilo sim, era um Dr.! Então, na consulta seguinte, levava-se alguma coisinha, um agrado, ao Sr.Dr., ainda que se pagasse a consulta e se oleassem as mãos da funcionária que era muito simpática e nos “arranjava” consulta mais rapidamente.
Os tempos mudaram mas os jovens, certamente não por acaso, enchem as turmas do ensino secundário de Ciências e Tecnologias, ainda que não o façam por vocação, na esperança de entrarem em Medicina. Alguns confessam que queriam ser jornalistas ou professores, outros que estão a cumprir o sonho dos pais e não o deles, outros, ainda, que acham que “os médicos é que ganham dinheiro”!
Este mito não existe apenas porque nós o criámos, existe também porque muitos médicos para ele contribuíram, com atitudes de superioridade e com os elevados honorários que cobram.
Conheço, felizmente, médicos que em nada se enquadram neste retrato mas é também certo que houve uma maioria que nunca lutou ao lado das outras classes profissionais em momentos políticos cruciais e que só agora, quando o seu reduto de privilégio é ameaçado, começa a manifestar-se.
Como os médicos, outras classes se alhearam, olhando apenas para o próprio umbigo. No entanto, a crise não distingue profissões (político não é profissão, no meu entender, é tacho) e talvez tenha chegado o momento de agir como cidadãos comuns, com interesses e objectivos comuns!


9 comentários:

  1. Parece que os choques estão na moda, mas o que este país precisa não é de um "choque tecnológico/fiscal/de empreendedorismo/etc."... o que este País precisa é de um valente choque de cidadania, sem isso, vamos continuar a levar choques, mas... eléctricos.

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  2. No fundo, não deixa de ser normal. Esta situação já se repetiu muitas vezes neste país. Lembro-me que ainda há 4 anos, quando toda a função pública começou a levar na tarraqueta, houve alguns que pensaram que as leis não os afectariam. Depois, deram-se conta que afinal também eram para eles e entraram em guerra com o Ministério da Educação... Mas quando a FP saiu para a rua para se manifestar, ninguém viu professores, por exemplo, na rua...

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  3. Pois é, Pronúncia, não vamos lá com choquezinhos!!

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  4. Cirrus: Não poderia tê-lo dito melhor! Aliás, os professores só marcharam em força porque os instalados se sentiram atacados. Perante uma mísera oferta de um acordo fantasma no qual se eliminava a categoria de professor titular e se prometia mais um escalão, logo se enfiaram nas escolas a fazer tudo aquilo que contestavam antes!

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  5. Conheço de muito perto um médico que, ao longo do tempo em que pôde trabalhar, viveu para os doentes e não para a carreira.
    Tentou trabalhar como os seus pares no sector publico acumulando com o privado mas não gostou da experiência, o que o levou a aderir à exclusividade por saber que só assim, trabalhando apenas no hospital, teria condições de exercer a medicina com qualidade.
    Chegou a ocupar um cargo na direção do hospital onde trabalhava... mas arranjou com isso inimigos porque tentou lutar com os vícios e abusos instalados, obrigando, por exemplo, certos serviços a trabalhar de tarde para dar uma melhor assistência aos utentes e conseguir uma melhor rentabilização dos serviços.
    Mas era um Dom Quixote a lutar contra moínhos de vento...

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  6. Pois é, Orquídea, os exemplos bons parecem desvanecer-se perante um muro de oposição e indiferença...

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  7. Como em tudo neste país, não faltam só bons políticos, também faltam bons cidadãos.
    Há falta de cidadania sim, e não é só por parte dos médicos ou de qualquer outra profissão, pois acho que não há profissões que não sabem o que é cidadania e a luta por um bem comum, há sim pessoas que não o sabem ou não querem saber.
    Bom texto :)

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  8. A crise toca a todos...médicos, advogados e dr's semelhantes são afectados como o comum mortal.
    Não são deuses....já lá vai o tempo em que eram considerados como tal.

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