quinta-feira, 23 de outubro de 2014

BACKLASH

Ilustração Marco Joel Santos
Ouvir, dizem, é uma virtude. Por vezes, acredito. A capacidade de ouvir outra pessoa com certeza não será a pior das virtudes. Mas mesmo assim, por vezes saber ouvir não passa de um exercício de masoquismo. Terá, com certeza, a ver com a pessoa que ouvimos. E também, em larga medida, com a coerência do discurso que ouvimos. Ouvir algumas pessoas falar é decerto penoso, ou porque já nada têm para dizer, ou aquilo que dizem entra em conflito directo com aquilo que lhes ouvimos noutras alturas, mais ou menos recentes. Ou seja, aquilo que os anglo- saxónicos referem como sendo backlashes, ou seja, o retorno daquilo que se faz ou diz.
E não é por demais evidente que a sociedade portuguesa está cheia destes fenómenos? Pois bem, é só escolher. Quando a crise no GES estourou, tanto Cavaco Silva como Passos Coelho como ainda uma figura tão obscura como inútil chamada Carlos Costa asseguraram ao povo português que uma coisa era o GES, outra, bem diferente, era o BES. Podia confiar-se na almofada de não sei quantos milhões de euros não sei de onde. Até certos comentadores do Eixo do Mal acreditavam ser assim, como a Clara e o Pedro. A realidade desmentiu-os a todos. Mais grave é o facto de que as três primeiras figurinhas que citei terem tido conhecimento de tudo já quase há um ano.
O endeusamento de algumas figuras, que não tive grande pejo em classificar, no passado, como medíocres e representativas do estado triste a que esta nação chegou, por parte de boa fatia da nossa excelsa bancada de comentadores económicos e políticos, havia de chegar ao ponto BACKLASH. Zeinal Bava, por exemplo, um dos grandes gestores portugueses, que se revelou, afinal, como o coveiro de uma das maiores empresas portuguesas, laboriosamente construída ao longo de décadas pelo Estado português, a PT, ou o senhor mais que tudo e todos Ricardo Salgado mais os primotes, que destruíram o BES. Não é que as pessoas que os bajulavam e endeusavam agora pretendem sempre os terem detestado, e terem sempre avisado para a sua fraca qualidade?
Soares dos Santos afirmou, alto e bom som, que detesta o investimento chinês em Portugal, que não traz coisíssima nenhuma. Não explicou que coisíssima traz a Portugal pagar os impostos sobre os lucros da sociedade a que preside ao estado holandês. Por outro lado, afirma ainda que Portugal tem de deixar de ser uma aldeia fechada para ser uma economia aberta ao mundo. Não explicou como impedir o investimento chinês numa economia aberta. Diz que não consegue transferir pessoas que tem a trabalhar na Polónia para cá porque o corte na qualidade de vida dessas pessoas seria, por via fiscal, incomportável. Não explicou porque razão não os compensaria para evitar esse corte. Afirma que Portugal precisa de mudar a sua estratégica política, mas não explica porque razão gostaria de ver perpetuados no poder os partidos que gerem os destinos do país há mais de 40 anos.
Passos Coelho afirma - com toda a razão, diga-se - que a Constituição revela exactamente quando se devem realizar eleições legislativas, e que por essa razão, não entende os que clamam por eleições antecipadas (eu também não, confesso. Acho que o povo português ainda merece sofrer um pouco mais, pelas escolhas que fez). Mas Passos Coelho esquece que a sua interpretação da Constituição devia ser escrutinada. É que descobrir que este país tem uma Constituição neste momento é descobrir três anos tarde demais.

3 comentários:

  1. com o tempo aprendi uma técnica simples: se me metem pela goela uma "notícia" e insistem insistem até à exaustão então devemnos estar aletas, pois vem aí porcaria mais tarde ou mais cedo. Ou seja quando os amigos da Comunicação Social, os comentadores repetidores do Governo insistem numa coisa , sempre em unissuno, então deve ser precisamente ao contrário....Quase sempre acertamos se usarmos este método na política!

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  2. Alerta é coisa que a maioria não está! Nota-se pelo (des)governo que temos!

    Beijos, Cirrus! :)

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