domingo, 3 de fevereiro de 2013

O ESTADO FINANCEIRO

Ilustração Marco Joel Santos

Em Portugal temos coisas que existem nos outros países, mas se calhar não existem lá tanto como cá, ou pelo menos é o que parece. Dou exemplos. Desemprego. Temos muito cá. Parece que na Grécia ainda há mais e na Espanha também. Mas cá há muito. Impostos. Temos cá muitos, parece que não tantos como na Suécia, mas mais que em quase todos os outros países – juntos, entenda-se. Estupidez. Também há noutros países, mas em Portugal é especial. Desde um secretário-geral de uma sindical a chamar escurinho a um etíope até alguns outros defenderem as opiniões avisadas do escurinho etíope acerca de economia. Obviamente o homem é entendido no assunto, como se pode ver pelo alto nível da economia etíope. Mas a verdade é que também tivemos o Borges a trabalhar no FMI, embora tenha sido despedido por incompetência. A esse toparam-no. Não que a dificuldade fosse por aí além.

Mas o que mais me irrita são aqueles que dizem a coisa mais óbvia do mundo: que são a favor do Estado Social, mas só se houver dinheiro para o pagar. É um bocado estúpido dizer isto. Chama-se a isto uma “lapalissada”. Eu sou a favor de o Messi vir jogar para o Benfica, desde que haja dinheiro para o pagar (e se o Cristiano for capitão de equipa). Eu sou a favor de eu comprar um Bugatti Veyron, desde que tenha dinheiro para o comprar. Eu sou a favor de quem diz estas coisas se calar, se houver dinheiro para as subornar.

Evidente que a nível de estupidez poucos rivalizarão com o presidente do BPI, um alemão chamado Ulrich que, com tiques de pato bravo a comprar heroína para os serventes da obra ao dealer da esquina, nos diz que se tivermos de ser “sem-abrigos”, temos de aguentar, até porque isso pode acontecer a qualquer um, incluindo ele. Bem, a mim parece-me que estou infinitamente mais perto disso que ele, porque não ganho meio milhão de euros por ano. Como Ulrich o ganha, penso que isso faz dele um fraco candidato a “sem-abrigos” comparado comigo. Mas gostei que alguém da estatura moral de um Ulrich me tenha dito que eu aguento. Obrigado, amigo Ulrich, podes ser um dos mais estúpidos tipos que vi a falar na TV, mas deste-me a coragem para enfrentar o futuro com um sorriso nos lábios. Porque sorrio? Porque se tiver sorte hei-de cá estar quando te enterrarem, palhaço. Pode ser que tenha a sorte de te enfiar umas pazadas de esterco em cima, ou então com a pá nos cornos. Aí está uma morte que me deixaria um pouco mais feliz. Sim, não sou hipócrita, há mortes que me deixam um pouco mais felizes.

O Ulrich fez estas declarações de alto valor intestinal quando anunciava lucros recorde do seu banco, 60% dos quais na transacção de dívida pública portuguesa. Ou seja, a troika do “escurinho” (porque será que Arménio Carlos não se lembrou do “sabonete”?) mete cá a massa, e nós pagamos a massa e os juros sobre a massa (agora possivelmente mais tarde, pois aquilo do “nem mais tempo nem mais dinheiro” foi uma expressão infeliz de um mentecapto). Depois, o Estado dá o dinheiro aos Bancos, sem juro, para eles poderem emprestar o dinheiro de novo ao Estado, mediante o pagamento de juros. Estão explicados os lucros do BPI do Ulrich. São juros pagos por nós sobre o dinheiro que lhes emprestamos sem juro e que eles tiveram a amabilidade de nos emprestar com juro. Dinheiro de juros! Imagine-se quanto dinheiro lhes emprestamos para eles terem juros destes montantes… Aliás, tivemos a maior prova disso quando o Banif pediu 1100 milhões de euros ao Estado, para não falir. Desavergonhadamente, o mesmo banco anunciou que iria investir 1000 desses milhões num empréstimo ao… Estado. Sim, é que estes criminosos já nem vergonha têm de dizer que nos roubam. Mas a malta aguenta. Ai aguenta, aguenta! Por outro lado, o BPN já nos levou, a todos nós, pelo menos sete mil milhões de euros. Tipo subsídio a fundo perdido às actividades do polvo cavaquista. Mas um dos administradores da SLN, detentora do BPN na altura do maior assalto da história portuguesa, é agora Secretário de Estado… O que me deixa descansado, pois eu aguento. Ai aguento, aguento!

Mediante todos estes verdadeiros assaltos em que o Estado se auto-mutila em dezenas de milhares de milhões de euros a cada ano que passa, para salvar os grandes culpados da alhada em que Portugal e a Europa se encontram, e a todos que têm a filha da puta da lata de nos dizerem que são a favor de um Estado Social, mas só se houver dinheiro para o pagar, eu digo:

EU SOU A FAVOR DE UM ESTADO FINANCEIRO EM PORTUGAL, MAS SÓ SE HOUVER DINHEIRO PARA O PAGAR.

Um dia destes, não tenho muitas dúvidas, isto vai dar merda. Mais merda do que já deu. E, atingida a ruptura financeira, que me parece inevitável e irreversível, dado estarmos a fazer a mesma merda que a isto levou, vamos ver se os defensores do Estado Social “só se houver dinheiro para o pagar” se viram para o Estado Financeiro a clamar por sobrevivência. Se calhar não. Se calhar viram-se para o Estado Social. E nessa altura, pode ser que já lá não esteja. Não faz mal, não há dinheiro para o pagar, só parece haver dinheiro para pagar o Estado Financeiro. Até quando?

12 comentários:

  1. Será que pode existir uma banca privada em Portugal. Não me parece, cada buraco tem cobetura com nosso dinheiro, que depoisd pagamos aos juros que eles querem. A fascização do mundo está em curso e isso nota-se no discurso das pessoas. As pessoas que se indignam com os que recebem RSI ou subs´´idio de desemprego são criticadas, os Ulrichs são louvados. O fascimo tá mesmo aí ao virar da esquina e entregue pela mão do povo....

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    1. Cara amigo e camarada, as pessoas não se convencem que se tornaram apenas números e não os mais importantes...

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  2. Não estúpido. O dinheiro com que o estado remunera os seus credores serve para parasitas como tu terem depósitos a prazo remunerados principescamente como aconteceu no caso do BPN. Mas o Dr. Ulrich não é tão estúpido como tu parasita e se pede emprestado paga. O que tu tens é dor de corno.

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    1. Cada um faz os comentários à sua altura intelectual... O seu não é muito elevado... Mas também não podemos ser todos minimamente inteligentes.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Desculpas aceites pelo engano estúpido.

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  4. Até quando não sei... Espero que o compasso de espera não seja longo...

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    1. Talvez não, estou convencido que não...

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  5. E então, o que fazemos em relação a isso? E o que fazemos àqueles que se sentam confortavelmente à sombra da bananeira à espera que levem todos os outros à sua volta?

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    1. O que queres fazer? Deita cá para fora.

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  6. CIRRUS: Não podia estar mais de acordo com o seu artigo!

    Mas, afinal, isto não é já tudo uma merda, desde que os "cagalhões" ultraliberais enganaram este povo , para irem para os "tachos" ...o poder?

    Que (não)me perdoem os "castos" púdicos leitores...Mas a "merda" não pode ser outra coisa!

    A propósito: quando será que os portugueses vão varrer esse lixo todo?Beijinho amigo!

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    1. Maria, não posso acrescentar muito mais ao seu comentário! Bj

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